O rock português contado às crianças... e até mesmo aos pais

Entrevista a Rita Nabais, que lançou o livro ilustrado "A História do Rock Português", a dar continuidade ao bem-sucedido “A História do Rock”.

Era uma vez o rock português e quem o conta é Rita Nabais – e quem o ilustra é Tiago Albuquerque. “Para pais fanáticos e filhos com punkada”, continua a empreitada enciclopédica de Rita Nabais, com o seu segundo livro, “A História do Rock Português”, que abre páginas desconhecidas para muitos sobre a música portuguesa.

Movida pela sua paixão musical, Rita Nabais passa a pente fino o passado do nosso rock, do início dos anos 60 até aos dias de hoje, com uma visão singular para lá do mais óbvio, graças à sua indie pendência, já sentida no livro “A História do Rock”. Mas o seu gosto pessoal é superado pela sua vontade de contar com exatidão e com graça, mesmo que em poucas palavras, a história do rock português.

Como uma estrela rock, Rita Nabais tem feito uma digressão pelas livrarias do país, para apresentar o seu novo livro. E vai estar no festival literário Fólio, em Óbidos, no próximo dia 14. Antes, esteve à conversa connosco.

Para quem já escreveu o livro “A História do Rock”, era uma questão de tempo fazeres um livro sobre o rock português?
Pelos vistos, era uma questão de tempo. Naquela altura, toda a gente me perguntava o porquê de não haver bandas portuguesas e a verdade é que faz falta. Isso depois começou a construir-se na minha cabeça. Acho que fazia mesmo falta um livro de música portuguesa, porque depois quando eu comecei a pensar nisto a sério, tentei comprar o maior número de livros possíveis, mais do que aqueles que eu já tinha sobre música portuguesa, e não há assim tantos como possas pensar. E como eu já comecei isto há uns anos, já alguns livros foram publicados depois do início da minha pesquisa. E fui reforçando esta ideia de: é preciso fazer isto. Não é só um gosto, é também uma necessidade. Acho que é dar a conhecer aos miúdos, mesmo que sejam os adultos que gostem mais deste livro, de uma forma divertida, que também se faz rock em Portugal, e se faz rock há muito mais tempo do que nós pensamos. Não é só desde os anos 80, é desde os anos 60.

Deu mais trabalho fazeres este livro do que o que fizeste sobre o rock internacional?
Confesso que sim. É mais difícil por várias razões. Uma, por haver pouca informação. Tu vais a qualquer país, mesmo aqui ao lado, e tens imensos livros sobre o rock que eles fazem, o rock espanhol, ou em França o rock francês, e nós temos muito poucos. É difícil pela pesquisa. Depois, as bandas não têm muita informação. Mesmo online, as bandas novas não têm sites ou biografias, as que encontro estão muito dispersas. Houve bandas que eu só consegui trabalhar com entrevistas, sugando o máximo de informação. E outra dificuldade é conhecermos as pessoas. Eu aqui conheço muita gente, e mesmo não conhecendo, podem ver o livro. E vai acontecer de certeza: "Então, mas estás a escrever isto? Mas isto não é verdade". Ou "não escreveste o suficiente", ou "nós somos mais importantes e devíamos estar no livro", ou, "estes estão e não deviam estar". É um risco que eu tinha que tomar. E tomei. E agora tenho que dar o corpo às balas.

Ainda por cima, tens o desafio de condensar a história dos artistas em poucas linhas. 
Muito poucas, porque isto é para miúdos. A verdade é que eu pesquisava muito e depois escrevia textos muito grandes. E depois, são só 135 palavras. Em alguns casos, vamos reduzir, reduzir, reduzir. Sentes-te sempre que estás a falhar nalguma parte. “Pá, não estás a referir estes discos” ou “não estás a referir este momento importante desta banda”. Mas a ideia aqui é ser uma espécie de enciclopédia divertida e que os miúdos conheçam o mais importante das bandas. Se calhar, não têm todos os pormenores. Eu depois tento colocar aquelas curiosidades que já usei no outro livro. As curiosidades… No caso dos UHF, eles não tinham carta, nem carro, então os primeiros concertos que deram iam no táxi do amigo ou, ou uma banda, não sei se eram os Glockenwise, que não tinham a carta e viajavam com os instrumentos de comboio. Portanto, há coisas supervirais que eu tentei encaixar a título de curiosidade e não no texto principal.

Como é que preparaste o livro?
A primeira coisa que eu faço - já com o outro livro foi semelhante - é fazer uma lista. A primeira lista foi de cabeça, que é uma lista que é absolutamente disparatada, porque tu só depois percebes que não te lembras de mais 50 nomes. Mas fiz uma lista com as bandas principais de cabeça. Claro que eu, dos anos 60 até aos anos 80, de facto, não conhecia. Conhecia só os nomes maiores, os Sheiks ou o Quarteto 1111, a Banda do Casaco, os Filarmónica Fraude. Conhecia esses nomes maiores, mas não conhecia os outros. Depois, como é que tu agrupas esta lista? Há uma linha cronológica que eu marquei como o primeiro disco, porque em Portugal é muito difícil às vezes saberes a formação exata de uma banda. O primeiro disco é o marco na linha cronológica. E depois há movimentos que se sobrepõem. Por exemplo, nós nos anos 80 e nos anos 90 temos imensos movimentos. Há o boom do rock, coexiste com aquela modernidade dos Heróis do Mar e depois com as primeiras bandas do [clube ao vivo lisboeta] Rock Rendez-Vous. Tudo isto é anos 80. Portanto, estes movimentos sobrepõem-se na mesma década, mas há uma continuação, tentando seguir uma linha cronológica, às vezes muito ténue. E nos anos 90, a mesma coisa. Imensos movimentos musicais, culturais, que se sobrepõem. É claro que não te vou dizer que não estão em categorias musicais no sentido do estilo musical. Claro que o punk está com o punk, o heavy metal está com o heavy metal. Há muitos estilos musicais. Procuro uma linha condutora, como a de terem tocado no Rock Rendez-Vous. Portanto, eu digo sempre a quem tenha interesse em seguir o livro para ler as introduções, porque a introdução é a maneira como eu tento coser as categorias que faço, que às vezes não é fácil e de que se podem discordar. Portanto, acaba por ser também um trabalho pessoal.

Dás uma visão histórica mais alargada ao rock “A História do Rock”, fora dos clichés, com o teu destemor em valorizar muito as correntes alternativas. Sentes que tens a mesma abordagem neste livro?
Sim, este livro é tendencialmente alternativo. Tem as bandas mais conhecidas, mas tem muitas bandas desconhecidas. E eu acho que aqui a novidade é essa, porque se calhar era fácil pôr só aqueles mais famosos. Mas tentei fugir disso e há bandas que são muito influentes, que foram muito influentes e que não são muito famosas. Por exemplo, os Pop dell’Arte são uma banda ultravalidada no meio musical, mas é uma banda de nicho e não deixa de ser altamente influente e inovadora.

Tal como os Mler Ife Dada.
Como os Mler Ife Dada, exatamente. E aqui há bandas ainda mais desconhecidas. Aqui posso ter pecado mais por excesso do que pelo contrário, mas eu prefiro assim. Prefiro ter mais bandas menos conhecidas do que ter menos bandas.

Como é que tu foste interagindo com o ilustrador Tiago Albuquerque?
Nós fizemos sempre um trabalho à distância. Eu conheci-o através do Festival da Canção. imagina tu, é, porque ele fez, ele participou com a banda dele, que são os Voodoo Marmalade, e ele ilustrou todos os músicos. E eu quando vi a ilustração dos músicos, gostei imenso do trabalho dele. Mandei-lhe uma mensagem, ele aceitou logo. E até antes de ele ler os textos, eu mandei das bandas todas que eu já tinha com sugestões de imagem. E ele foi seguindo, mas ele também é muito independente e eu acho que nós devemos também respeitar o trabalho artístico das pessoas. Apesar de ter dado sugestões, o Tiago seguiu também muito o instinto dele e acho que ficou um trabalho supercolorido.

É engraçado, porque ao mesmo tempo, parece que há uma continuidade do traço da Joana Raimundo, do livro anterior. 
Eu acho que são traços bem diferentes, mas penso é que os dois captam o carácter da editora, que é o de tentarem ser vibrantes e divertidos, tendo uns trocadilhos, umas brincadeiras, essencialmente a cor, até porque o Tiago não é assim tão colorido. Ele gosta de tons mais monocromáticos e aqui fez um trabalho mesmo fora do normal. Está mesmo muito explosivo, tá, supercolorido, o livro.

Há uma coerência estética que liga os dois livros. 
Sem dúvida. Este livro foi uma inspiração da edição inglesa do nosso livro [“A História do Rock”], lá fora. O livro que foi publicado no Reino Unido, na África do Sul e na Austrália tinha este tamanho. Ou seja, eles não fizeram o livro igual ao nosso. Eles usaram as ilustrações e os textos e fizeram um design completamente diferente. E era deste tamanho. E nós agarramos naquela ideia que no fundo está toda ligada. O tamanho do livro inglês foi a inspiração para “A História do Rock Português”.

O teu livro sobre a história do rock internacional foi um sucesso internacional inesperado. Sendo difícil repetir o mesmo sucesso lá fora com “A História do Rock Português”, gostavas ao menos que chegasse ao Brasil?
Sim, gostava imenso. Eu acho difícil. Em conversa com o Adolfo Luxúria Canibal, ele diz que há uma curiosidade da parte do Brasil pela música portuguesa. Portanto, havendo possibilidade, vamos a isso. Eu adoraria que isso acontecesse. Nós fizemos uma edição brasileira do nosso livro e eu acrescentei uma edição também à parte, com capa diferente, e eu acrescentei um capítulo de rock brasileiro, com Os Mutantes, entre uma série de bandas, as principais do Brasil, e acaba com Sepultura. Houve ali curiosidade, mesmo da parte da equipa com quem eu trabalhava do Brasil, sobre a música que nós fazemos cá. Portanto, se calhar não é disparate o que estás a dizer.

Já temos dois livros sobre a história do rock. Teremos um terceiro?
Eu gostava. As pessoas associam-me ao rock, mas eu gosto mesmo é de música e, e eu gostava imenso de fazer a história do jazz para crianças, mas isso é uma coisa megalómana e doida que quem sabe um dia. Mas agora ainda estamos no rock, é, no rock português, mas quem sabe.

Por exemplo, o rock brasileiro também daria um bom livro. 
Eu fiquei um bocadinho satisfeita por ter feito aquele capítulo extra, que ainda é bastante grande, sobre as bandas mais importantes de rock do Brasil. E chegaram a ter comentários sobre o rock no Brasil, mas não há livros sobre rock brasileiro para crianças. E então, esta editora acabou por ter um livro de rock internacional com um grande capítulo de rock brasileiro. E aquilo acabou por ficar sanado. Eu ainda pensei assim: isto dava um livro inteiro. Imagina um país daquele tamanhão. E tem muita gente que gosta de rock. As pessoas têm a ideia do samba, a bossa nova, não sei o quê, mas há muitos rockeiros no Brasil. E pensei: isto dava um livro maravilhoso, mas pronto, aquele ficou feito e quem sabe o que virá aí.