O 'Starman' David Bowie descolou há dez anos
O Camaleão morre a 10 de janeiro de 2016. Bowie é uma das figuras mais complexas e fascinantes da história do rock.
Há dez anos, a 10 de janeiro de 2016, chorámos a morte de David Bowie, um dos maiores vultos de sempre da música, que se aguentou a um nível estratosférico durante décadas, após tantas guinadas, transformações e tangentes, mas sempre lá em cima.
A 10 de janeiro de 2016, a estrela maior tornou-se estrela Major, como Major Tom, a tal personagem da canção que o revelou, 'Space Oddity' (de 1969). O tom maior, o seu, levantou ao céu. O próprio David Bowie, e não só a personagem, descolou de vez há dez anos. “Can you hear major Tom?”, replicava ele no tal ‘Space Oddity’. Afirmativo, dizemos nós na ground control. Ainda estamos a ouvir Bowie. Ouviremos sempre, porque há dez anos se encapsulou numa outra forma, em foguetão, mas o seu legado não se eclipsou.
"Space Invader" no tema 'Moonage Daydream', conseguimos ver a sua luz, a de 'Starman'. “There's a starman waiting in the sky/He'd like to come and meet us/But he thinks he'd blow our minds”, canta David Bowie em 1972. Starman é ele, Bowie. Deixa-nos boquiabertos sempre que a sua música vem ter connosco, como na canção ‘Starman’. “He'd blow our minds”. Na antevéspera da sua morte, lançou o álbum “Blackstar”, de título prenunciador. A estrela preta estava à espera de ser preenchida pela sua luz. Uma nova estrela luminosa surge nos céus a partir de 10 de janeiro de 2016.
A sua presença terráquea foi pouco terrena mas deixou os terrestes atónitos - boquiabertos, “he blows our minds”. Londrino de berço, o adolescente David Bowie - ou David Jones como se chamava - idolatrou a música que os seus pais odiavam: o rock & roll, sobretudo o efeminado Little Richard. David Bowie sonhou tornar-se o Little Richard branco.
Fã da pop-art de Andy Warhol, o jovem David Jones foi também muito influenciado pelos musicais e pela actriz de mímica Lindsay Kemp. Um soco de um amigo no olho esquerdo de David Bowie levou-o aos 15 anos quase à cegueira e à imagem com que se tornou famoso: a ilusão de ter olhos de cores diferentes.
Depois de vários projetos falhados e nomes artísticos como David Jones ou até como Tom Jones, parte do mundo ficou a conhecê-lo como David Bowie, sobretudo em 1969, quando aparece a cantar ‘Space Odditty’, inspirado pelo filme de Stanley Kubrick, “2001 – Odisseia no Espaço”, sobre um astronauta perdido no espaço, o tal Major Tom.
Para sorte de Bowie, o single é editado poucos dias antes do Primeiro Homem na Lua e a canção é passada repetidamente na rádio britânica na semana da aterragem lunar de Neil Armstrong.
Através de personagens andróginos com roupas de mulher, David Bowie tornou indiferente o género sexual. Quando se assume publicamente como gay [David Bowie foi acima de tudo heterossexual], projeta-se de forma mediática e irreversível, conquistando bastante mais público, mas mantendo a música sempre em primeiro plano.
É então que cria a sua personagem mais famosa: o estranho e espacial Ziggy Stardust, acompanhado pelos Spiders from Mars. O sucesso foi grandioso. A sua androgenia inspirou o movimento do glam-rock que marcou os anos 70. Se o rock tinha um rei, Elvis Presley, agora também já tinha uma rainha, Ziggy Stardust, ou melhor, David Bowie.
Em 1973, David Bowie declara a morte ao seu alter-ego Ziggy Stardust, para um ano depois fazer outro disco conceitual, o álbum “Diamond Dogs”, inspirado no livro de George Orwell, “1984”. Com coreografia de Tony Basil e muito dinheiro gasto, David Bowie leva para a estrada um espetáculo com uma encenação teatral invulgar para os padrões do rock.
A sua ambição estava sem limites, e também a sua criatividade, com um método de composição assente num corte à tesoura de várias palavras separadas que depois eram agrupadas, seguindo um método do escritor William Borroughs.
A carreira estava em grande mas não as finanças, e David Bowie descobre que está falido. Junta-se à bancarrota, a dependência cada vez maior de cocaína, que o deixa cada vez mais pálido e esquelético. E o vício só piora com a sua mudança para Los Angeles.
Para o álbum de 1975, “Young Americans”, o ponto de partida de David Bowie é o r&b, incorporando na sua banda vários músicos afroamericanos, para fazer aquilo a que chamou de “plastic soul”.
Em 1976, para fugir à sua dependência da cocaína, David Bowie foi viver para Berlim ocidental, para um dos seus períodos mais criativos, em que alma e máquina se encontram na música, com a ajuda crucial de Brian Eno nos sintetizadores e na produção. Foi com Brian Eno que David Bowie fez a trilogia berlinense, com os discos “Low”, “Heroes” e “Lodger”, entre 1977 e 1979. David Bowie ora compunha uma canção, ora pintava um quadro. Este período criativo dá-lhe o seu maior hino, ‘Heroes’, uma luz de liberdade com vista para o tétrico Muro de Berlim.
Muitas das músicas mais instrumentais desta trilogia berlinense seriam usadas no filme “Christiane F”, baseado na biografia de uma adolescente berlinense agarrada à heroína.
Nos anos 80, a sua carreira de ator foi bastante preenchida, com alguns papéis importantes como no filme sobre vampiros “Fome de Viver”, com Susan Sarandon e Catherine Deneuve, e “Merry Christmas, Mr. Lawrence”, realizado por Nagisa Oshima, e contracenado com o músico japonês Ryuichi Sakamoto, sobre um prisioneiro de guerra ocidental no Japão.
Já no final da década de 80, Bowie faz o papel de Pôncio Pilatos no filme de Martin Scorsese, “A Última Tentação de Cristo”.
Entre 1980 e 81, David Bowie representa no teatro da Broadway, na peça The Elephant Man. É nesse período que lança uma das suas maiores obras, o álbum “Scary Monsters (And Super Creeps)”, onde sobressai a canção ‘Ashes to Ashes’. David Bowie está no cume do seu charme enigmático, desenterrando o velho personagem Major Tom e os fantasmas de toxicodependência, no que parece uma canção autobiográfica do próprio Bowie. A canção mereceu um teledisco surrealista com David Bowie vestido como o palhaço Pierrot, que entra na história dos videoclipes.
Mas os anos 80 são sobretudo os anos do mainstream para David Bowie, com airplay na MTV de vídeos como ‘Let’s Dance’ e ‘Modern Love’, a participação no mega-evento humanitário do Live Aid e duetos com Freddie Mercury dos Queen e Mick Jagger a solo.
David Bowie estava a ter, mais uma vez, uma nova vida, o Camaleão voltou a mudar de cor, mas para um período menos misterioso e mais acessível. Nunca David Bowie tinha sido tão popular como nos anos 80, como bem ilustra o êxito de 1984, ‘Blue Jean’.
Com pose de cavalheiro, David Bowie foi um esteta revolucionário, um artista completo que dominou todas as áreas da música como ninguém, da composição de canções à encenação teatral, da moda aos vídeos.
Bowie está em várias fases das nossas vidas, através das suas várias fases de carreira, com um jeito raro para mudar, e mais importante, com um jeito para saber mudar.
Em 1995, David Bowie volta a trabalhar com Brian Eno para o álbum conceitual “Outside”, sobre o detetive policial Nathan Adler e o mundo da arte. “Outside” torna-se conhecido por músicas que passam em alguns filmes dos anos 90 como ‘I’m Deranged’ para o filme “Estrada Perdida” de David Lynch, e ‘The Hearts Filthy Lesson’ para o filme de David Fincher, “Seven”.
David Bowie recupera a integridade artística e torna-se cada vez mais respeitado. E a confirmar isso, é indigitado em 1996 para o Rock & Roll Hall of Fame.
Uma paragem cardíaca depois de um concerto num festival na Alemanha, em 2004, leva David Bowie a um período de maior recolhimento que o afasta de vez dos palcos. No dia em que fez 69 anos, a 8 de Janeiro de 2016, David Bowie lançou o álbum “Blackstar”, mais filiado no jazz e bem apropriado pela sua personalidade.
Dois dias depois, a 10 de janeiro de 2016, David Bowie perde a sua luta contra o cancro, depois de 18 meses de sofrimento. Depois de ter encarnado tantas personagens, a figura moribunda do álbum “Black Star” era afinal o próprio David Bowie, que se estava a despedir de nós.
