O vício do ócio como resistência. Gonçalo Palma revisita os anos 90 em "Os Ociólicos"
Quatro jovens universitários partilham uma casa em Alvalade, evitam responsabilidades e fazem do ócio um modo de vida. No livro Os Ociólicos, Gonçalo Palma recupera a Lisboa dos anos noventa para refletir sobre uma geração e confrontar o ritmo acelerado do presente.
Não fazem nada ou fazem tudo aquilo que lhes dá prazer. Arrastam-se nos cursos universitários, evitam responsabilidades e partilham uma casa em Alvalade, em Lisboa, nos anos noventa. São quatro jovens e dão corpo ao conceito que dá título ao livro de estreia de Gonçalo Palma: Os Ociólicos. Um termo inventado, exagerado e assumidamente provocador.
“Queria ir além do termo ociosos, exagerar ainda mais”, explica o autor. A palavra nasce de uma conversa entre as personagens, “do vício do ócio”, e ganha força como ideia central da narrativa. O livro constrói-se, assim, como “um exagero de defeitos e do ócio”, num tempo descrito como mais relaxado e próspero, em que havia “mais tendência para irresponsabilidades”.
Mas o ócio aqui está longe de ser sinónimo de vazio. Pelo contrário, é movimento, ação e escolha. “O ócio, neste caso, é sempre ação. Eles estão sempre a fazer coisas”, sublinha Gonçalo Palma, rejeitando a leitura do ócio como inércia. Trata-se antes de uma forma de provocação social: “Vai contra a sociedade, contra as responsabilidades que eles, com vinte e tal anos, ainda não assumem”.
A referência a Vinicius de Moraes ajuda a clarificar esse espírito. O poeta brasileiro inspira o nome de uma rua imaginária e uma filosofia de vida baseada no prazer e na intensidade. “Não era não fazer nada. Ele fazia muita coisa, mas fazia muita coisa que lhe dava prazer”, recorda o autor, traçando um paralelo com os seus personagens.
Embora situado nos anos noventa, o livro dialoga diretamente com o presente. Surge como reação ou confronto com o ritmo acelerado dos dias de hoje, marcados pela urgência e pela produtividade constante. “É quase um confronto entre os anos noventa e a época de hoje”, admite, sem cair em nostalgias fáceis ou moralismos. A comparação serve sobretudo para pensar como vivemos e nos relacionamos.
Um dos exemplos mais claros dessa diferença está no olhar. Literalmente. “Na altura não havia smartphones… havia o hábito da troca de olhares”, diz o autor, referindo um capítulo dedicado apenas a esse gesto simples, hoje quase perdido. Pessoas mais atentas umas às outras, menos fechadas em si mesmas. Um retrato que funciona como espelho crítico do presente.
Quanto à natureza da observação, o autor é claro: “É observação dos outros, ou seja, do ego”. Reconhece afinidades com as personagens nos lugares, nas referências, numa certa filosofia de vida, mas distancia-se dos seus defeitos. “Crio defeitos noutras pessoas que não tenho tanto, embora reconheça afinidades”, assume.
Jornalista de formação, curioso por natureza, encontrou na ficção a forma de organizar memórias e referências acumuladas ao longo dos anos. “Achei que era altura de criar, através da ficção, as memórias vivas que fui acumulando”, sobretudo de uma década que começa a ficar distante. O resultado é um texto atravessado por cultura, música, cinema e humor.
A história dos quatro jovens, inicialmente pensada como guião de cinema e com outro nome, nunca deixou de o acompanhar. “Esta história continuava a chatear-me no bom sentido”, confessa. Até que decidiu dar-lhe corpo em livro. O filme nunca chegou a existir, mas a literatura ofereceu-lhe outra forma de vida.
