O zumbido que sustenta o mundo
As abelhas e a luta dos apicultores pela sobrevivência.
Há um som discreto que acompanha os campos em flor, os pomares e as serras portuguesas. É o zumbido das abelhas, companhia discreta mas presente entre o verde das arvores e o colorido das flores. Pequenas, organizadas e essenciais ao equilíbrio da natureza, são responsáveis por uma parte significativa da polinização das culturas agrícolas e da biodiversidade mundial. Sem elas, muitos dos alimentos que chegam diariamente às nossas mesas desapareceriam ou tornar-se-iam mais escassos.
Em Portugal, a apicultura continua a ser uma atividade de enorme importância ambiental, económica e cultural. Contudo, os desafios que os apicultores enfrentam são cada vez maiores. Incêndios, tempestades, alterações climáticas, pesticidas e doenças têm colocado em risco milhares de colmeias em todo o país.
É precisamente para responder a algumas destas dificuldades que nasceu o projeto “Nestum Juntos pelas Abelhas”, uma iniciativa que procura ajudar apicultores afetados por catástrofes naturais. O projeto, que arrancou em 2020 e já vai na sexta edição, tem como missão “repovoar e repor as abelhas perdidas nos incêndios e nas tempestades”, explica Telmo Cabral, um dos apicultores envolvidos na iniciativa.
Ao longo destes anos, o projeto já doou mais de 2.200 colmeias a produtores de norte a sul do país e prepara-se agora para entregar mais 600 colmeias neste Dia Mundial da Abelha, celebrado a 20 de maio. “É uma ajuda fantástica. Muitos de nós acabariam por desistir e assim efetivamente não desistem”, refere o apicultor Telmo Cabral, que perdeu dezenas de colmeias nos incêndios de 2017, em Arganil.
Entre os testemunhos mais marcantes está também o de Eduardo Marques, apicultor da zona de Pombal, uma das regiões afetadas pelas recentes tempestades. Com mais de vinte anos dedicados à apicultura, fala da atividade como uma verdadeira paixão.
“Se tiver um carro para vender ou um enxame para apanhar, largo o carro e vou apanhar o enxame”, conta, explicando que, apesar de trabalhar na venda de automóveis, é nas abelhas que coloca grande parte da sua dedicação.
As tempestades destruíram cerca de cinquenta das suas colmeias, provocando prejuízos entre seis a sete mil euros. “Quando reparei na perda que tive, a primeira coisa que fiz foi ligar e dizer que ia desistir”, recorda. Mais tarde, decidiu continuar mesmo sabendo que dificilmente conseguirá recuperar tudo o que perdeu. “O que me custa mais é saber que não consigo repor rapidamente aquilo que tinha”, admite.
O cenário encontrado após a tempestade foi devastador. O vento derrubou colmeias e a chuva intensa acabou por matar grande parte das abelhas. “Era a casa delas. Agarraram-se lá, mas a chuva matou-as”, descreve.
Apesar das dificuldades, Eduardo Marques continua a reconstruir lentamente o seu apiário. Tem comprado rainhas, feito desdobramentos e aproveitado a época de enxameação para recuperar algumas colónias. O apoio do projeto “Juntos pelas Abelhas” surge agora como um incentivo essencial. “É um incentivo bom e dá-nos mais ânimo para continuar com a apicultura”, afirma.
As perdas têm sido devastadoras em todo o país. Só nas recentes tempestades terão sido destruídas mais de nove mil colmeias, afetando centenas de produtores. Nos incêndios de Arganil, em 2025, mais de uma centena de apicultores viram as suas colmeias desaparecer completamente.
“Ver as colmeias todas ardidas é muito triste”, recorda outro dos apicultores envolvidos no projeto. “Nós largamos tudo para salvar as nossas abelhas. Há quem coloque quase as abelhas acima da própria família.”
Mas os incêndios não são a única ameaça. As alterações climáticas têm provocado mudanças bruscas nos ciclos naturais, dificultando a sobrevivência das colónias. “As próprias plantas não conseguem produzir néctar e pólen suficientes. Tudo ficou mais curto e mais instável”, explica Telmo Correia, responsável ligado ao projeto. A isto juntam-se doenças, parasitas como o uso excessivo de pesticidas.
As consequências vão muito além da produção de mel. Segundo o apicultor, “a polinização representa cerca de setenta a setenta e cinco por cento da nossa alimentação atual”. Sem abelhas e outros polinizadores, muitas plantas deixariam de existir e o equilíbrio dos ecossistemas seria profundamente afetado. “O dia em que as abelhas desaparecerem, a nossa forma de viver vai mudar muito”, alerta.
Apesar das dificuldades, há sinais de esperança. O apicultor acredita que as novas gerações estão hoje mais sensibilizadas para a importância ambiental das abelhas. “As crianças já sabem o que é a polinização e já fazem perguntas muito difíceis sobre estas questões”, conta, depois de várias ações de sensibilização realizadas em escolas da região de Cascais, Sintra e Oeiras.
Entre os pequenos gestos que podem ajudar os polinizadores estão a plantar flores e jardins, criar espaços verdes nas cidades, evitar pesticidas e comprar mel a produtores locais. Nos dias mais quentes do verão, um simples prato com água e açúcar pode também ajudar muitas abelhas a sobreviver.
“Os apicultores são a última linha de proteção das abelhas”, sublinha o responsável pelo projeto. “E no dia em que nós desistirmos, elas ficam entregues a si próprias.”
