Oasis vs Blur: a guerra do Britpop foi declarada há 30 anos
Duelo de vendas entre os singles 'Roll with It' e 'Country House' foi uma batalha ganha pelos Blur. Mas os Oasis venceram a guerra.
Há 30 anos, a 14 de agosto de 1995, foram lançados no mesmo dia os singles ‘Roll with It’ dos Oasis e ‘Country House’ dos Blur. As ascensões meteóricas dos Blur e dos Oasis eram ainda recentes e iam só a meio da curva. Ambas as bandas eram os nomes mais mediáticos do movimento do Britpop, acima dos Suede e dos lendários Pulp. A edição no mesmo dia dos singles concorrentes foi uma coincidência indesejada que, face ao alarido da impactante imprensa musical britânica e à competitividade dos dois coletivos, se tornou depois numa coincidência desejada, cuja contagem decrescente e as repercussões mediáticas beneficiaram tanto os Blur, como os Oasis, apesar da acrimónia inerente a estas coisas.
O facto de ‘Roll with It’ e ‘Country House’ serem singles de avanço dos álbuns que estavam para vir dos Oasis e dos Blur - respetivamente “(What's the Story) Morning Glory?” e “The Great Escape” - foram mais “achas para a fogueira”.
14 de agosto de 1995 foi a assunção oficial dessa rivalidade, que já se prenunciava. 1994 tinha sido um ano de rampa inclinada para o sucesso dos Blur e dos Oasis. Os álbuns respetivos “Parklife” e “Definitely Maybe” contagiaram o público britânico e as audiências para lá do Canal da Mancha e do Mar do Norte. O vocalista dos Blur, Damon Albarn, saltitava qual reguila na sátira social à sociedade britânica, em canções que mexeram com o público como ‘Girls & Boys’, o tema-título ‘Parklife’, ‘End of a Century’, e até canções mais refundidas e intimistas como a marcante balada ‘This Is a Low’.
Tudo ajudava os Blur: vídeos criativos com airplay na MTV, passagem recorrente na rádio e capas em grande número de jornais e de revistas de música. E o que ajudava os Blur, ajudava os Oasis, que também gozavam dos mesmos privilégios mediáticos. As faces dos irmãos Gallagher, com as suas sobrancelhas salientes e uma arrogância que parecia um defeito necessário de profissão, tornaram-se familiares, a par do som beatlesco inclinado para John Lennon e com letras versadas em alucinógenos. ‘Supersonic’, ‘Live Forever’ e ‘Cigarettes & Alcohol’ formaram a desbunda de êxitos.
Ambas as bandas eram inglesas, os músicos tinham vinte e tais de idade e muita adrenalina. Mas o evidente contraste social tornou-os rivais apetecíveis, sobretudo para artigos jornalísticos. Os Blur vinham do mais burguês sul da Inglaterra e da classe média. Os Oasis vinham do operário norte e da working class. Damon Albarn vestia pólos e usava um colar às bolinhas de madeira. Noel Gallagher estava sempre de óculos escuros, às vezes para esconder o olho negro do arrufo da noite anterior – ou com espetadores amotinados, ou com o próprio irmão Liam numa fraternidade que sempre foi demasiado sanguínea.
Em 1984, passava o filme “Os Amigos de Alex”. A 20 de fevereiro de 1995, sentia-se a tensão dos inimigos de Alexandra... ou melhor, do Alexandra Palace, a sala londrina onde decorreu a cerimónia dos Brit Awards, em que os Blur e os Oasis concorreram diretamente nas mesmas categorias, Melhor Álbum, Melhor Single e Melhor Grupo, mas em que os vencedores foram os mesmos: a banda da classe média do sul de Inglaterra, os Blur, graças a “Parklife” e ao respetivo tema-título.
De 20 de fevereiro de 1995 para 14 de agosto de 1995 passaram praticamente seis meses. A guerra ameaçada estava declarada e os Blur voltariam a vencer, desta vez na corrida de vendas dos singles, com ‘Country House’ no primeiro lugar do britânico Tops of the Pops, um lugar acima daquele single, daquela banda que vocês sabem. ‘Roll with It’ dos Oasis ficou em 2º e perdeu The Battle of Britpop.
Mas os Oasis ganhariam a guerra comercial ao modo de uma goleada. Se o álbum dos Blur, "The Great Escape", vendeu mais um milhão de cópias em todo o mundo, "(What's the Story) Morning Glory?" dos Oasis vendeu mais de 20 milhões de cópias globalmente. 1996 seria o prolongamento da glória massiva dos Oasis, enquanto que a luz de sucesso dos Blur se apagava, antes de uma radical remodelação sonora após um exílio na enevoada Islândia. Os Oasis tocaram para mais de 125 mil pessoas em cada uma das duas noites no parque de Knebworth, em Inglaterra, num total de 250 mil pessoas, num número com o qual os Blur já não conseguia competir. No arrastão de glória dos Oasis em 1996 contam-se ainda três Brits, em categorias que tinham como adversários os Blur.
A juntar à glória dos Oasis, veio o bullying dos irmãos Gallagher aos vencidos Blur. A vitória de um dos Brits pelo Oasis foi acompanhada pelo cantarolar satírico do tema dos Blur, ‘Parklife’, completada por Liam com o termo ‘Shitelife’. Esse foi só um dos vários momentos de gracejo dos Oasis face aos Blur. Damon Albarn daria a guerra como perdida mais tarde: “os Oasis eram melhores que nós, comunicavam muito melhor quem eles eram”, reconheceu o líder dos Blur e dos Gorillaz à BBC.
Houve várias rivalidades na história da música – entre os Beatles e os Rolling Stones (mas com a cordialidade e o respeito mútuo a sobreporem-se), entre os ícones maiores do punk Sex Pistols e os Clash (mas apenas na mente corrosiva de John Lydon, dos Pistols) e entre os ícones maiores do grunge Nirvana e Pearl Jam. Mas nenhuma rivalidade foi tão aberta e verbal quanto a do Britpop, vivida entre os Blur e os Oasis.
