Olívia Rodrigo leva ao Alive a biblioteca dos diários delas todas

Grande espetáculo pop com artilharia rock. A donzela soube armar ruído.

Olivia Rodrigo deu um espetáculo de alegria transbordante no palco maior do Alive, em que soube ser cantora e atriz, estrela pop e rocker, irrequieta e compenetrada. Foram 85 minutos de espetáculo, numa espécie de novela com 18 capítulos (ou 18 canções), em que Olivia Rodrigo parece a representante agregadora dos diários das jovens mulheres e das adolescentes graúdas. Este concerto foi como uma prova de tiro com arco, com pontaria no coração de Olivia Rodrigo, ou de quem canta. A banda só de mulheres, sete ao todo, foi parte ativa nesta atuação que teve mais de empolgante do que de extravagante.

O som contagiante do clássico pós-punk feminino ‘We’ve Got The Beat’ das Go-Gos, como um berro de rebeldia feminina, foi o aviso do início do espetáculo de Olivia Rodrigo, que surge em palco a cantar o tema ‘Obsessed’, onde está expresso o desejo sexual por outra mulher, de quem já sabe tudo, numa letra escrita a meias com St. Vincent: “She's got those lips, she's got those hips”. Sente-se logo o ímpeto rocker de menina rebelde aos saltos e a rastejar, como uma riot grrrl da pop, de mini-saia e botarras, a fazer aquele olhar de lado maroto a jeito de grandes fotos.  

Novo tema, ‘Ballad of a Homeschooled Girl’, e a donzela pop volta a querer fazer ruído. No enredo, faz de menina insegura e anti-social que se desfaz socialmente quando vai a festas: “broke a glass, I tripped and fell/I told secrets I shouldn't tell”, rumo ao cantado “social suicide”. As fãs cantam todos os versos tão bem que mereciam também subir a palco para a grande invasão. Já a terceira canção do alinhamento, ‘Vampire’, é uma exaltação de pop, que parece uma canção autobiográfica, sobre uma jovem famosa iludida e enganada por um amante mais velho. No jogo do amor, atraiçoa melhor quem tem mais idade e não quem tem mais fama. “Went for me and not her, 'Cause girls your age know better”.

Quando Olivia Rodrigo elogia Lisboa, vai ao postal, como uma jovem turista americana, elogiando os pastéis de nata. Talvez o clichê faça parte do espetáculo e até assente bem, tal como o comentário seguinte, “vocês portugueses parecem-me tão ruidosos”, como mote de desafio para a próxima canção, ‘Drivers License’, em que Olívia Rodrigo se senta ao piano. É a primeira incursão do concerto no álbum de estreia, “Sour”, em novo ripanço amoroso de um veterano, neste caso, de uma veterana, para quem perde o seu namorado de final de adolescência. Fãs da fila da frente cantam até às lágrimas e Olivia Rodrigo dá-lhes o prémio no remate final da canção, quando em vez de cantar “your street”, conclui na nossa direção: “you’re so sweet”. Vamos fingir que este foi um momento de improviso só para nós,  

O concerto de Olivia Rodrigo parece um enredo de um musical. O tema ‘Traitor’ funciona como a continuação do anterior, com as mesmas personagens, totalmente instalado na pop. “It took you two weeks/To go off and date her/Guess you didn't cheat/But you're still a traitor”. Apesar da marcação cerrada da cantoria do público ao que Olivia Rodrigo canta, de vez em quando consegue-se ouvir a própria Olivia a interpretar, mas não nestas baladas ao piano. 

Liga-se a ignição da máquina rock para 'Bad Idea Right?' Será um rebuçado pop ou rebuliço? Bem, é mais um rebuliço, mais um... da menina Olivia, novamente a reacender as guitarradas. Cada tema é uma sequela, e uma sequela de uma sequela. Agora, Olivia, ou a sua personagem, está a tentar reatar com o ex. É mais uma grande letra, com versos como este: “I only see him as a friend/The biggest lie I ever said”. E depois Olivia Rodrigo repete ansiosamente o verso: “Seeing you tonight, It's a bad idea, right?”. Nesta interpretação em Algés, Olívia Rodrigo mostra os seus dotes de atriz, com os olhares teatrais, a gesticular ou a mexer nos cabelos. A banda ganha aqui relevo e soa a umas L7. Em ‘Love Is Embarrassing’, Olivia Rodrigo volta a conseguir este contraste de dar uma leveza lúdica musical, um pouco para equilibrar a coisa, quando a letra é autodestrutiva perante um sonho destroçado de amor. Mesmo quando Olivia tem atitude de menina má, como nesta música, nunca esconde um sorriso ou um ar de espanto mais cómico. Em ‘Pretty Isn't Pretty’, está mais compenetrada à guitarra acústica mas nunca deixa de mostrar toda a sua dentição bem branca capaz de orgulhar o seu dentista. Quanto à letra, a autodestruição continua, desta vez sobre a própria personagem e a sua imagem nunca é suficientemente bonita, numa mensagem de falta de auto-estima que tem um carácter universal entre as jovens de todo o mundo. “I could change up my body and change up my face/I could try every lipstick in every shade/But I'd always feel the same/'Cause pretty isn't pretty enough”.

Como as canções de ruptura conjugal são a sua especialidade, aqui vai mais uma, ‘Happier’, em que a obsessão de Olivia Rodrigo pelo ex-namorado passa também para a atual namorada dele. Chovem lágrimas na balada, em que a personagem maquilha uma farsa como os votos felizes para o novo casal, mas não assim tão felizes, não tão felizes como antigamente. “I can't let you go/So find someone great but don't find no one better”. Com estrelas a pairar no palco, como uma noite de luar em casal que já não se repete, Olívia acena a coreografia dos braços no ar, a transbordar sorrisos, como que contrariando a letra que canta.

Talvez sem surpresa, antes de cantar ‘So American’, pergunta ao público: “já alguma vez estiveram apaixonados?”. Olivia Rodrigo esteve. Esta canção compreende o período cor-de-rosa de um namoro, no seu pináculo fogoso, sem descida à vista. A canção pode bem ser tirada do diário de Olivia Rodrigo. O amado parece encaixar no perfil do ator inglês Louis Partridge, o namorado de Olivia Rodrigo. A música feromonal coabita no mesmo habitat das Haim, uma pop fera-monal feita com garras rock, em que Olivia Rodrigo corre pelo palco toda rejubilante, com a guitarra elétrica presa nas costas. Chega depois a vez de ‘Jealousy, Jealousy’, quando Olivia Rodrigo desce ao fosso para ir ter com os fãs, e dialoga também com as câmaras de filmar, como se estivesse a meter com cada um de nós, mesmo aqueles que estão a 70 metros do palco.

Recolhida numa baladinha acústica, ‘Favorite Crime’, Olivia Rodrigo está novamente a sangrar do coração, a viver as dores da ausência do ex-namorado. Caramba, que ex-namorado seria este dos tempos de “Sour” que a destroçou tanto? Muitas crianças seguram-se às cavalitas dos pais e mães, enquanto os fãs continuam a cantar todos os versos das canções, como ‘Favorite Crime’. Na música 'Deja Vu', o coração mantém-se destroçado , mas numa busca desesperada por auto-estima que descobre este ângulo para se pôr de bicos de pés sobre a namorada atual dele: “She thinks it's special, but it's all reused/That was our place, I found it first/I made the jokes you tell to her when she's with you”. A imagem do ecrã está fosca de propósito. Olívia Rodrigo desata a correr pelo palco, com o cabelo comprido a esvoaçar. A cantora esbraceja alto, com aquele olhar de lado e o tal sorriso.

As labaredas em palco são a chama olímpica para o encore bem elétrico. O primeiro tema do regresso a palco, 'Brutal', vai em modo 1 2 3, numa punkalhada com voz de boneca. 'All-american Bitch' tem tanta auto-estima que parece uma ironia sobre si mesma, um modelo americano só de virtudes, potenciado por uma máquina rockeira com afinidades com os Weezer: “I'm sexy, and I'm kind/I'm pretty when I cry”. Olivia Rodrigo desafia o público a gritar, num momento delirante, até o seu batalhão de guitarras elétricas voltar a descarregar mais adrenalina.

Passado o efeito da injeção de auto-estima em 'All-american Bitch', Olivia Rodrigo volta em ‘Good 4 U’ ao malvado do ex-namorado de “Sour”, o tal que arranjou outra em poucas semanas e que parece que anda todo feliz aos abraços e beijinhos com ela, perante o olhar da narradora, que está uma autêntica fonte de lágrimas. “You look happy and healthy, not me, If you ever cared to ask”. As guitarras choram menos e vão à luta, encarrilhando Olivia Rodrigo num motim que a letra nega. A cantora de 22 anos gira sobre si mesma, aos pulos, os cabelos também. Agacha-se perante a guitarrista, esbraceja novamente. Os movimentos icônicos repetem-se mas nunca cansam.

Olivia Rodrigo fecha o concerto com uma das suas canções resplandecentes, 'Get Him Back!, em que a vingança ao ex-namorado serve-se doce e não fria, numa maralhal de emoções extremas - ora rancor, ora afeto - que só uma relação amorosa abarca. No final, Olivia Rodrigo e as suas guitarrista e baixista pisam com as botas a câmara instalada no chão transparente do palco, dando um maravilhoso plano que os ecrãs projetaram. Mesmo antes de sair, Olívia Rodrigo manda umas baquetadas num dos pratos da bateria, e aí vemos a menina tranquinas que ainda vive dentro dela. Tudo isto termina numa grande rockalhada numa embalagem pop, aquilo que foi na verdade o espírito deste concerto.

Noah Kahan foi o anterior ocupante do Palco NOS. Sorri, é simpático, sua imenso e farta-se de elogiar Portugal. Se vir alguém a sentir-se mal na multidão, pára imediatamente o concerto ou, pelo menos, confere se está tudo bem.  

Quantp à música, é folk só para as vistas. Na instrumentação é folk - com violino, banjo ou guitarras acústicas - mas na alma e na essência é pop. É uma folk-pop indiferenciada, muito ao corrente do tempo, numa linha mais sucedânea do que de sucessão de Bon Iver, cuja descendência musical está a ficar preocupantemente incolor. 

No seu estilo, Noah Kahan faz falsetes em esforço, fechando os olhos como que em sofrimento. Com um privilégio quase total ao seu terceiro e último álbum “Stick Season” no alinhamento, o cantor deu também espaço à banda, como foi bem visível no tema New Perspective, com um pequeno duelo entre a banjoista e o mandolinista.

No Hangar do Palco Heineken, as coisas estavam então bem animadas, com o concerto dos Glass Animals. O vocalista Dave Bayley é um figurão, bastariam as suas danças frenéticas para o concerto já correr bem. É difícil descobrir algum movimento dançante que não tenha feito enquanto cantava, numa polivalência de fazer inveja até ao Super-homem. Mas esqueçamos o tal figurão Dave Bayley, porque o que a banda faz não é brincadeira nenhuma, um synthpop musculado com grande ímpeto para dança, que instiga quem os vê a mexer-se mesmo muito, quase tanto como o figurão do Dave Bayley, que andava sempre deliciado com o público e com memórias bem vivas do concerto que deram em 2017 ali mesmo naquele palco coberto.

Com dons da hibridez pop de Rosalía, a portuguesa Iolanda tem ainda chamamentos de fado na sua poderosa voz, sem fugir aos ritmos do flamenco, como nas palminhas e até nas batidas. Acompanhada por um trio de instrumentistas nas guitarras, teclas e bateria, Iolanda teve ainda ao seu lado a amiga Carolina Deslandes no tema ‘Tento na Língua’, antes de um sentido discurso político contra este mundo inseguro, a lançar o tema ‘Grito’, o cume dramático de Iolanda. Pelo que se viu no Palco WTF Clubbing, é por demais evidente que Iolanda tem já um público seguidor, que conhece bem as suas músicas e as canta com exatidão.