Operação GNR: a pronúncia da boa longevidade

Casa cheia na última noite da celebração dos 45 anos da banda de Rui Reininho, Tóli César Machado e Jorge Romão.

Esta sexta-feira (7 de novembro) foi a última noite do festão de aniversário dos magnânimos GNR – celebração que lotou o Coliseu do Porto, a 18 e 19 de outubro, e que na quinta-feira lotou o Coliseu dos Recreios.

Ontem a sala lisboeta voltou a encher para a festa dos 45 anos do histórico Grupo Novo Rock – eles que foram dos primeiros do rock português a pôr os pés no palco dos coliseus ou a encher estádios de futebol, como aconteceu no Estádio José Alvalade em 1992 e no Estádio das Antas em 1993. Fica a nota para quem chegou ao mundo mais tarde.

Aclamação, muitas palmas, o humor cáustico e irresistível de Reininho, pontadas de nostalgia e um auspicioso vislumbre de futuro. Foi assim que se fez esta festa. Houve cantoria em uníssono, acrobacias aéreas e convidados de alto gabarito.

A fadista Gisela João fez a vez de Isabel Silvestre na comovente 'Pronúncia do Norte' e acompanhou Rui Reininho "nas alturas" em 'Voos Domésticos'. Samuel Úria subiu ao palco para cantar o vivaz 'Quero Que Tudo Vá Para o Inferno'.

Atrás do trio, que esteve em palco com mais dois músicos, sobressaíram imagens para ilustrar a respeitável longevidade do grupo. A euforia da celebração vibrou nas palmas, mas a alegria também se cruzou com um honesto sentido de homenagem e de gratidão.

A operação chamava-se "STOP", mas Rui Reininho, Tóli César Machado e Jorge Romão foram absolutamente imparáveis a percorrer a longa via discográfica inaugurada no espoletar da promissora década de oitenta. Operação de charme? Sim, pois com toda a certeza. Rui Reininho impera, como sempre. Como um rei (sem manto mas com rock) orquestra o reino de vozes que tão bem trauteiam as canções que vão saltando do alinhamento. Saúda Lisboa, "flirta" com os que tem à frente e acena para as galerias. Aponta para as proezas dos companheiros, arrisca piadas (sobretudo futebolísticas) bem-sucedidas, abre o sorriso e, sempre que se lembra, improvisa, com graça e atualidade, na cantoria.

As canções, essas, têm lugar cativo na memória coletiva portuguesa. De tema em tema, fomos, "de janela aberta", à boleia de uma história que também é a nossa e que se dilui em várias gerações. É a história que se canta aos filhos, aos netos e a quem vier depois. Todos cantam. Todos aplaudem.

A relíquia 'Espelho Meu' - que saltou de 1981 para o palco do coliseu - abriu o concerto que nunca perdeu de vista o futuro. A canção, que não tarda cumpre meio século, foi interpretada não pelos GNR mas sim pela descendência "real". Palmas primeiro para os filhos do trio, Lopo Romão (no baixo), António Braga (na voz) e António César Machado (na guitarra).

Substituição geracional e entram em campo os pais, para a terna passagem de testemunho. Rui Reininho ergue as sobrancelhas, contempla o público e solta um suspiro inacabado enquanto, no meio de luzes verticais esverdeadas, cresce 'Bem Vindo ao Passado'. Reininho, por esta altura ainda comedido, dança, com passos suaves, pela densidade contemplativa do tema. 

Em 'Video Maria', o Excelentíssimo frontman do trio abre o sorriso malandro e dramatiza os gestos, enquanto o cúmplice Jorge Romão ergue o baixo. Segue-se, sem grandes demoras, 'Cadeira Eléctrica'. Logo depois, dos céus desce o acrobata Saulo Roque que fica suspenso no ar para dar corpo (e contorcê-lo) ao ritmo de 'Eu Não Sou Assim'.

Seguem-se preciosidades do cancioneiro português: 'Sub 16', 'Mais Vale Nunca', 'Efectivamente' e 'Asas (Eléctricas)', estas - tal como 'Cadeira Eléctrica' - ainda com o saudoso "c" lá pelo meio. 

'Pronúncia do Norte' é magnificamente acolhida pela voz da fadista Gisela João. A canção é entoada a várias pronúncias e no mesmo tom. Um tom belo, nostálgico e unificador. Abençoados sejam os GNR que nos oferecem, em bandeja de ouro, momentos como este. No final da canção que eleva os corações ao alto na sala, Reininho aconchega-se, com cumplicidade e carinho, a Gisela João. A fadista acabaria por voltar mais tarde para dar asas à voz em 'Voos Domésticos', ao mesmo tempo que as mãos de Tóli esvoaçavam pelo piano. 

Passagem por 'Impressões Digitais' e 'Pós Modernos'. Até ao primeiro encore há 'Nova Gente', 'Pop Less', 'Cais', 'Bellevue', 'Morte ao Sol, 'Sexta-feira' e 'Sangue Oculto'.

A banda regressa - debaixo de luz negra e de uma respeitosa ovação - para atacar 'Las Vagas'. Samuel Úria junta-se à festa para acompanhar a genica de Reininho na versão à GNR de 'Quero Que Tudo Mais Vá Pro Inferno'.

"Vamos embora, tchau", ameaça, sem grande convicção, o frontman portuense. Duas ainda guardadas para o grande final. 'Ana Lee' levanta toda a gente das cadeiras - um movimento recorrente em praticamente todo o concerto. 'Dunas' unifica novamente as vozes na sala, agora com Tóli no acordeão e todos no palco: banda e seus "reais" convidados.

Explosão de papelinhos e de gratidão. Agradecimento a toda a equipa que montou a operação e ao público que ficou a aplaudir, de pé, a história e as canções (com forte potencial "ad eternum") dos grandiosos GNR.