Organismo parecido com uma lagarta pode estar a rastejar na sua boca
Os cientistas descobriram que bactéria que vive na sua boca, Neisseriaceae, pode ser encontrado em cerca de metade de todos os seres humanos.
O organismo do ser humano é um habitat ambulante para milhões de pequenas bactérias microscópicas. A nossa pele, as nossas entranhas, estão cheias de organismos demasiados pequenos para se verem ou mesmo sentirem-se. E no fundo, não faz mal. Até é melhor assim.
Na verdade, é altamente possível que nós não existissemos sem eles. Mas alguns dos micróbios são considerados muito estranhos, pois conseguem evoluir e adaptar-se aos ambientes únicos fornecidos pelo corpo humano.
Os cientistas descobriram uma bactéria que vive na sua boca, Neisseriaceae, é uma família de micróbios que inclui géneros em forma de lagarta e podem ser encontrados em cerca de metade de todos os seres humanos, e novas investigações sugerem que estes microorganismos evoluíram para terem essa forma de corpo, porque é mais adequada ao ambiente na cavidade oral humana.
Isso permite fornecer aos cientistas informações valiosas sobre a biodiversidade da sua boca. Para além disso também tem impacto no estudo da adaptabilidade bacteriana, o que se torna realmente importante para compreender como, por exemplo, se podem desenvolver agentes antibacterianos mais eficazes para prevenir infeções.
A equipa co-liderada pela bióloga celular Silvia Bulgheresi, da Universidade de Viena, na Áustria, e pelo geneticista microbiano Frédéric Veyrier, do Instituto Nacional Francês de Pesquisa Científica (INRS) escreveram que "O nosso trabalho lança uma luz sobre a evolução da multicelularidade e da divisão longitudinal em bactérias". Acrescentando que isso "sugere que membros da família Neisseriaceae podem ser bons modelos para estudar esses processos devido à sua plasticidade morfológica e rastreabilidade genética".
Embora a nossa boca possa parecer um bom lugar para os micróbios viverem, não é exatamente o ambiente mais acolhedor. As células que revestem a superfície interna da boca estão constantemente a ser eliminadas à medida que são substituídas por novas células.
Bulgheresi e Veyrier acreditam que pode ser por isso que algumas espécies de Neisseriaceae desenvolveram uma maneira interessante de se multiplicar. Primeiro, a equipa usou microscopia eletrónica para estudar a forma das bactérias em detalhes, usando fluorescência para compreender melhor o crescimento celular.
Os cientistas utilizaram Neisseriaceae e introduziram mudanças genéticas para ver se poderiam reproduzir a evolução de um organismo em forma de bastonete para os tipos de aglomerados em forma de lagarta que podem ser encontrados na boca humana.
A pesquisa sugere que os organismos, de facto, evoluíram de um ancestral em forma de bastonete.
Hoje, as batérias dividem-se ao longo de seu eixo longitudinal. Mas, em vez de se separar, as bactérias individuais permanecem ligadas umas às outras, resultando num aglomerado segmentado envolto numa membrana externa partilhada.
Alguns dos micróbios neste pequeno coletivo também assumem formas diferentes, os cientistas creem que este mecanismo seja utilizado para desempenhar papéis diferentes e distintos que beneficiam o grupo. Este pode ser um exemplo de como um organismo evolui de um unicelular para um multicelular.
Os investigadores afirmam que "a multicelularidade torna possível a cooperação entre as células, por exemplo, na forma de divisão do trabalho e, portanto, pode ajudar as bactérias a sobreviver ao stress nutricional".
A equipa não conseguiu replicar a forma agrupada de espécies multicelulares como Conchiformibius steedae ou Simonsiella muelleri, a razão pode passar pela dificuldade em introduzir todos os eventos genéticos que levaram à forma (a semelhante a uma lagarta). Contudo o ensaio produziu células individuais mais longas e mais finas.
Veyrier disse "nós especulamos que no curso da evolução, através de uma reformulação dos processos de alongamento e divisão, a forma da célula mudou, talvez para prosperar melhor na cavidade oral".
Serão, por isso, necessárias ferramentas genéticas para explorar as bactérias com mais detalhes. No entanto, a abordagem evolutiva pode ser uma maneira complementar de estudar esses pequenos organismos e como eles funcionam, além de uma melhor compreensão dos mecanismos subjacentes à relação simbiótica que eles têm com os seus hospedeiros mamíferos.

