Orquestra Orff do Porto dá concerto solidário para ajudar o IPO

Entrevista a Rui Leite, diretor-artístico da orquestra. O concerto é esta sexta-feira, no Colégio de Nossa Senhora de Lourdes, no Porto.

Esta sexta-feira, 28 de novembro, a Orquestra Orff do Porto (associação cultural sem fins lucrativos) vai dar um concerto solidário para ajudar o Instituto Português Oncológico (IPO) do Porto

O concerto, cujas receitas revertem para aquela unidade hospitalar, vai ter lugar no Colégio de Nossa Senhora de Lourdes, também situado no Porto, mais precisamente na Rua Rainha Dona Estefânia, 54. 

Com quase quatro décadas de existência e com um forte espírito comunitário, a Orquestra Orff portuense aposta na formação musical e artística de crianças, jovens e até de adultos. Com um reportório agora mais virado para o rock, o concerto solidário tem início marcado para as 21h00.

Os bilhetes custam 5 euros, mas quem quiser poderá contribuir com um valor superior. 

Conversámos com Rui Leite, diretor-artístico da orquestra, sobre o evento solidário mas também sobre a orquestra que já soma quarenta anos de história. 

Oiça a entrevista completa:

Entrevista a Rui Leite, diretor-artístico da orquestra

A história da Orquestra Orff do Porto, até porque é uma orquestra com história…  

Vou tentar contar a história resumidamente, porque a Orquestra Orff está a celebrar o seu quadragésimo aniversário. Sou eu que estou agora à frente da orquestra, mas também fui músico na orquestra quando era menino. Fui crescendo com a orquestra e fiquei na orquestra. A Orquestra Orff trabalha com instrumentos Orff [instrumentos de percussão, adaptados para uso educacional, criados pelo pedagogo alemão Carl Orff]. Na nossa realidade escolar são os instrumentos da sala de aula. São xilofones, metalofones e todas as percussões. O Carl Orff dizia: “a música tem de ser música para todos”. E cabe aos professores desmultiplicar para que todos possam tocar. Este é o contexto da Orquestra Orff. As primeiras gerações da Orquestra Orff, nos anos setenta, usaram as flautas de bisel. E foi o boom das flautas de bisel no ensino musical. Na época, éramos 130 em palco. Depois, fomos crescendo. Quando assumi a orquestra, e porque as flautas de bisel foram desaparecendo, passámos a dedicar-nos ao jazz. Isto com a geração anterior. Hoje dedicamo-nos ao rock, já com outra geração. Em matéria de gerações, salvo o erro, já vamos na décima. Já colaboraram (ou passaram) pela Orquestra Orff músicos como Sérgio Godinho, que colaborou com a orquestra para a famosa 'Canção dos Abraços'. O Elísio Donas, dos Ornatos Violeta, infelizmente já falecido, foi meu colega na orquestra. E há muitos outros músicos que passaram pela orquestra. 

Este concerto solidário com o IPO veio de uma vontade minha e dos meus músicos. (…) Era algo que queria fazer porque já tive problemas oncológicos na família e temos colegas na escola que também estão a passar por esse tipo de problemas com filhos. Junta-se a isto o facto de a Diretora do Serviço de Pediatria ter sido minha aluna na orquestra, bem como os filhos dela. Então, liguei-lhe e perguntei se havia possibilidade de fazermos isto. A Dra. Ana [Maia] disse que sim e, partir daí, foi criar o evento. 

Neste momento, a Orquestra Orff é composta por três orquestras. Temos a orquestra dos pequeninos, a que chamamos muito carinhosamente de Orquestra Júnior. O músico mais pequenino desta orquestra tem seis anos e o mais velho tem, salvo o erro, dez. Há dois anos criámos a orquestra dos pais, isto é, se um pai trouxer um filho para a orquestra, tem de fazer parte da orquestra dos pais. E depois temos a Orquestra Orff propriamente dita que é composta por miúdos que agora são adolescentes, alguns já frequentam a faculdade. Esta é a última geração da nossa orquestra. Agora estamos com a nossa digressão de Natal que começou no domingo passado na FNAC de Gaia. 

Atualmente, tocamos aqui na nossa escola [Colégio de Nossa Senhora de Lourdes], que mostrou muito abertura para [com este projeto]. É que, apesar dos quarenta anos de vida ininterrupta e dedicados ao ensino de música a crianças, jovens e agora a adultos. Após várias digressões pela Europa, por países como a República Checa, Alemanha, Holanda, acontece que, devido ao advento do alojamento local, a orquestra ficou sem sítio. Ficámos sem sítio e com os instrumentos às costas. A escola, que é onde dou aulas, acolheu-nos. É por isso que a orquestra está sediada nesta escola. E o concerto é aqui.   

Acolheram-vos porque ficaram sem um espaço para o projeto... 

Ficámos sem espaço, sim. Podia ter sido o fim de quarenta anos de trabalho ininterrupto. E é isto. 

Falando agora do concerto solidário, é aberto a todas as pessoas, certo?

É aberto a toda a gente. Os bilhetes foram feitos por uma das mães da orquestra. O bilhete tem um preço mínimo de cinco euros. Não tem preço máximo. Posso dizer-lhe que houve um casal de pais de alunos meus que nos deu 150 euros. Foi algo que me deixou muito comovido. Toda a receita reverte para o IPO do Porto. Vem cá a Dra. Ana. Talvez até queira tocar connosco. E, em princípio, vamos contar com a presença do Dr. Júlio Oliveira [Presidente do IPO do Porto] que é pai de dois alunos meus. Também vem cá honrar-nos com a sua presença. Entretanto - porque não temos material suficiente - fui bater à porta de algumas escolas de música, sendo que uma dessas escolas emprestou-nos cabos, microfones e tripés de microfones. "Emprestou-nos" também mais três alunos, que vão fazer o som. Até os comerciantes aqui à volta estão a participar e a dar-nos dinheiro. Isso deixa-me muito feliz. Muitos não vão poder estar presentes [no concerto] porque vão estar a trabalhar mas, ainda assim, compram bilhetes. Além disso, estão a vender bilhetes nos espaços onde trabalham. É uma espécie de movimentação geral à volta da nossa orquestra que me deixa muito feliz. E fico ainda mais feliz com o próprio evento, com a possibilidade de juntar dinheiro para oferecer ao IPO. 

É realmente muito bonito. E contribui para que os músicos mais jovens percebam o poder da música para tocar as pessoas, para ajudar causas. E também há o poder da música na formação desses jovens… 

Sim, sim. 

No caso da Orquestra Orff, a música é um pretexto para juntar pessoas. Trabalharmos imenso porque a música é agregadora. E sendo agregadora, ajuda as pessoas a estarem juntas, a compreenderem-se e a respeitarem-se. E isto acontece também com os mais pequeninos. Quando lhes falei da ideia deste concerto solidário, eles perguntaram-me logo se os meninos que iam ajudar estavam muito doentes. Quiseram logo saber o que iam fazer para ajudá-los. Temos na nossa orquestra uma formação de valores que prezo muito. Este espírito agregador transforma este grupo num grupo muito especial. Sempre que vamos tocar a algum lado, são os pais que carregam os instrumentos, por exemplo. E, além disso, segundo o que os músicos dizem, é terapêutico. (…)

E como vai ser o concerto?

O repertório neste momento é rock. Andamos à volta do rock dos anos noventa. O que também é interessante. Estes miúdos, apesar serem “miúdos Covid”, vão descobrindo o legado da música rock dos anos oitenta e dos anos noventa. E também o legado dos grandes. Isso afasta-os de alguma música mais banal que passa nos Spotifys desta vida. Posso dizer, por exemplo, que temos um arranjo de 'Stairway to Heaven', dos Led Zeppelin, que, alías, a que mais gostam de tocar. Quando em junho fechámos o ano de trabalho com um concerto na Casa da Música, esse tema foi uma espécie de apoteose para toda a gente que estava na sala. Ninguém estava à espera de ver uma data de cachopos com xilofones, uma bateria, um baixo elétrico e uma guitarra a conseguir fazer aquilo. Mas fazem e são aguerridos. E quando eu digo: "malta, isto não está muito bem, podemos fazer um ensaio extra?", eles ficam para o ensaio. Também usam as redes sociais, não vou ser lírico. (risos) Mas quando estão aqui, estão mesmo aqui.