Os 10 anos de 'Ganso': "É mesmo difícil para uma banda conseguir chegar tão longe"
O vocalista João Sala recorda o percurso do grupo indie português e levanta o pano sobre o concerto no Coliseu de Lisboa
Esta sexta-feira, 6 de março, os 'Ganso' celebram os dez anos de carreira com a estreia no Coliseu dos Recreios. Não vão sozinhos para o palco, fazem-se acompanhar de José Cid, Femme Falafel, Carlo Corbellini, Inês Pires Tavares, João Cachola e Fernão Biu.
O vocalista e letrista João Sala veio até à rádio para uma viagem pelo percurso da banda lisboeta, desde os mais recentes lançamentos e espetáculos às melhores memórias.
O single "Mal Vestido", lançado há um mês, tem uma mensagem metafórica, mas vincada sobre a atualidade. Sentiram a necessidade de lançar esta música agora em específico?
Não foi bem uma necessidade, mas sim, claro que é uma temática atual. A música já estava a ser escrita há cerca de um ano. Faz um paralelismo entre a moda e a política e, no fundo, "mete as duas para o mesmo saco". A moda é circular e as ideias das pessoas também.
Sempre ouvi aquela frase, "a história repete-se", e achei que havia de ser verdade, já que todos falavam nisso, mas nunca tinha sentido a história a repetir-se. Se calhar também era demasiado novo para chegar ao ponto da repetição. Vejo isso com as Baggy Jeans que voltaram a estar na moda. Quer dizer, nunca vi a extrema-direita a ser tão expressiva como já foi, mas estou a ver agora a voltar e era uma coisa que eu achava que não ia acontecer assim tão rapidamente.
Daí depois também falar das saudades das skinny jeans... Há dez anos usava skinny jeans e nunca pensei que pudéssemos estar numa segunda volta de eleições presidenciais e ter de escolher entre um candidato de extrema-direita e um candidato que não é de extrema-direita.
Apesar desta mensagem das "modas que voltam", há aqui esta ideia do cíclico e de que vai passar.
Exatamente, tenho essa esperança... Aliás, posso dizer quase que tenho essa certeza, se calhar havemos de voltar às revoluções.
Assim como nada é para sempre, não é? As modas não duram para sempre, vão e voltam, e provavelmente vamos chegar a um dia em que voltamos a usar skinny jeans e voltamos a ter um parlamento com uma maioria democrática.
No próximo álbum podemos esperar mais mensagens como esta?
Talvez, não sei... Nós, na verdade, ainda não começámos a pensar num álbum.
Estas músicas foram feitas com o intuito de talvez fazer um EP. Começámos a trabalhar nelas logo a seguir a lançarmos o último álbum no ano passado, o 'Vice Versa'. Tivemos umas cinco/seis ideias e como sempre só duas é que se desenvolveram mais. Decidimos não esperar para ter mais. E aproveitámos esta altura, em que vamos tocar ao Coliseu, para deitar cá para fora coisas novas.
Como é que se materializam os vossos álbuns? Vai acontecendo ou há uma altura em que vocês dizem "não, agora vamos ter de nos juntar e é para lançar outro"?
É mais isso, ou seja, há a parte do processo criativo, depois vemos se é um álbum ou se são só duas músicas, depende de quanto material é que temos e que produzimos.
Costuma ser assim, nós decidimos: "Olha, agora, durante esta semana vamos todos para este sítio". Fugimos da nossa rotina e focamo-nos em tocar dia e noite. Muitas vezes alguns de nós trazem ideias que começaram a fazer sozinhos em casa e depois trabalhamos em banda.
À exceção do último, os vossos álbuns não foram gravados em estúdio. Os 'Ganso' continuam a fazer muito do trabalho pelas próprias mãos e a produzir música de forma independente?
Sim, felizmente temos uma boa rede de contactos, amigos nossos que também são músicos. Muitas vezes quando vamos para estes retiros pedimos emprestado material aos nossos colegas. Vamos buscar um pouco do melhor a todo lado e às vezes até o som de demos, independente dessa forma. Já tem uma qualidade muito satisfatória.
Depois muitas vezes somos nós a produzir as nossas músicas, no último álbum produzimos em conjunto com o Domingos Coimbra, nosso grande amigo e baixista dos Capitão Fausto. Para estes novos singles não fomos a um estúdio, gravámos tudo numa casa -, mas também com bons microfones.
No entanto, decidimos pela primeira vez convidar alguém completamente de fora para nos produzir: Carlo Corbellini, que é produtor e compositor da banda italiana Post Nebbia. Foi ótimo porque ele não nos conhecia de lado nenhum. Também não conhecia muito de música portuguesa mas nós gostamos muito das músicas da banda dele. Convidámo-lo, aceitou e trabalhou nas músicas de uma maneira mais destemida. Dizia-nos, "avança" muitas vezes. Nós, como são as nossas próprias músicas, às vezes estamos mais cuidadosos e tomamos decisões um bocado mais a medo. Ele dizia, "vai, 'bora, está bom, grava o próximo". Então, foi muito rápido. Nós normalmente demoramos imenso tempo a gravar uma música, pode demorar uma semana. Neste caso, em quatro dias gravámos duas músicas, graças também a esse espírito mais desamarrado do Carlo.
Com dez anos de banda, continuam a considerar que são uma banda part-time?
Sim, somos uma banda part-time na medida em que temos todos outras ocupações além da banda. Acho que isso é uma realidade de muitos artistas em Portugal. Não só na música, mas no teatro também.
Apesar disso, temos dez anos de carreira, não é? Conseguimos uma longevidade acima da média. Muitas das bandas que existiam quando nós começámos, já não existem. Não somos os únicos, claro, há muitos que continuam, mas conseguimos fazer uma carreira.
No nosso contexto português, ainda falta valorizar a arte que é feita por cá?
Não é que não haja uma valorização, eu acho que as pessoas valorizam a arte e até consomem bastante em Portugal. Se calhar não tanto como noutros sítios, mas há público. O problema é que se quisermos fazer uma digressão, de Norte a Sul do país, por sermos uma banda também exigimos mais condições. Um concerto nosso exige mais condições técnicas do que alguém que vai só tocar guitarra e cantar. Os espaços para uma banda como nós fazer uma digressão não são muitos. Isso também tem a ver com a dimensão do nosso país.
Muita gente precisa de fazer outros trabalhos, muitas vezes até dentro do meio artístico. Uma banda é diferente de um artista a solo. Tudo o que nós recebemos dividimos por cinco, desde cachés a direitos de autor. Torna-se mais difícil assim, um quinto daquilo que uma banda recebe ser suficiente para uma pessoa conseguir viver só disso, é preciso ter imenso sucesso. Até acho que nós temos algum sucesso, mas não o suficiente para que um quinto seja possível. Mas pronto, é a nossa realidade.
A música 'Sorte a Minha', de 2022, mudou o vosso percurso? Passaram a chegar a mais pessoas?
Sim, sem dúvida. Acho que o nosso público não se alastrou ao mainstream, mas ganhámos uma nova camada de público. Pessoas mais novas, se calhar, até à 'Sorte a Minha' quem nos ouvia eram pessoas mais da nossa idade, amigos de amigos e por aí fora. A 'Sorte a Minha' de repente conquistou ali um público mais jovem.
Nós notámos que a seguir a essa música fazer mais sucesso, começámos a ver caras novas nos concertos. Começámos a reparar que tocávamos essa música, as pessoas filmavam muito. Depois também vai passando a palavra... Acho que essa música ajudou muito no crescimento da banda.
Em dez anos qual foi o concerto mais marcante?
Há dois bastante marcantes.
O primeiro foi quando tocamos em Paredes de Coura, em 2019. Foi um convite de última hora que recebemos e tocámos no palco principal, ao final da tarde. Isso marcou-me, porque é um palco lindíssimo, aquele anfiteatro natural e a plateia vista do palco é uma sensação extraordinária.
Depois outro concerto que me marcou muito foi o Capitólio, que fizemos há três anos. Foi assim o nosso primeiro concerto em nome próprio, numa sala mais a sério e também foi um concerto muito marcante.
O espetáculo que estão a preparar para o Coliseu assinala a década da banda. Como casam as diferentes fases musicais num só concerto?
Com algum debate entre os membros da banda... Uns querem tocar umas coisas, outros recusam-se a tocar certas coisas. Depois temos três álbuns e alguns singles na nossa discografia, não dá para tocar tudo. Mesmo assim, vamos fazer o concerto mais comprido que já fizemos até hoje.
Vamos tocar temas de todos os discos e estes novos singles, "Mal Vestido" e "Deixar-te", pela primeira vez. Não tivemos concertos entre o lançamento e o Coliseu, portanto, será a estreia absoluta dessas canções.
Ao repescar lançamentos mais antigos, surge a necessidade de reaprender músicas?
Felizmente, as mais antigas no geral são as mais fáceis. Já demos por nós a tocar algumas músicas do nosso disco "Não Tarda", que é o nosso segundo álbum. Essas aí já foram mais difíceis de aprender... Muitos acordes numa música e estruturas difíceis de memorizar., mas faz parte.
Nós até temos umas cábulas, um documento que é o nosso caderninho de acordes onde, felizmente, ao longo dos tempos, fomos apontando os acordes das nossas músicas. Portanto, ajuda também consultar esse PDF.
Houve alguma música que começaram a ensaiar e pensaram: "Não, isto temos de dar aqui um toque, porque não pode seguir assim"?
Por acaso, acho que para este concerto do Coliseu, não. Aconteceu foi começarmos a tocar e dizermos: "Epá, se calhar esta não entra no alinhamento agora para o Coliseu." Mas no passado já aconteceu várias vezes mudarmos completamente o arranjo de uma música porque já não gostávamos tanto como ele era e arranjámos um novo.
Como são vistos estes dez anos em banda?
Olha, vejo com muita satisfação. Acho que nós somos cada vez melhores, no processo criativo em conjunto. Não é fácil criar com cinco cabeças, cinco egos, cinco pessoas a dar ideias, cinco gostos diferentes... Apesar de os nossos gostos não serem assim tão diferentes como isso.
Mas acho que estamos a dominar cada vez melhor esse método de trabalho em conjunto. Também estamos a melhorar bastante os nossos espetáculos ao vivo. Fomos subindo degraus ao longo dos anos, um dos grandes que subimos, assim a meio foi termos o nosso próprio técnico de som. Agora há um ano também já temos o nosso técnico de luzes e o nosso concerto está melhor pensado em termos de alinhamento, pausas, intervalos, ligações entre músicas. Estou contente, sim.
Aprende-se a estar em palco e numa banda?
A nossa experiência de estar em palco começa toda com a banda. No meu caso, não é uma preocupação que eu tivesse no início e agora tenho cada vez mais. Como estar em palco.
Se calhar é uma coisa que as bandas do indie, como é o nosso caso, no início não pensam muito. Quanto mais concertos se vão dando, mais se pensa... Quanto mais concertos se vai assistindo também. Sem dúvida que é também uma aprendizagem.
Quando a banda começou, conseguia imaginar que dez anos depois estariam no Coliseu a celebrar?
Não. Nunca na vida conseguiria imaginar alguma coisa dessas. Mas pronto, cá estamos.
Mais importante do que o Coliseu, é a longevidade, é o marco dos dez anos. É mesmo difícil para uma banda conseguir chegar tão longe. É mais difícil para uma banda do que para um artista solo. No nosso caso, somos cinco: são cinco vidas, são, muitas vezes, divergências criativas...
Nós conseguimos e estou muito orgulhoso desta nossa longevidade.
Que música define estes dez anos?
Vou dizer uma música nossa, "Fetiche Fonético". É uma música até recente, do nosso último disco - tem um ano e pouco -, mas eu acho que pega muito em todas as fases da nossa discografia.
É um bom cartão de visita, se eu tiver de mostrar a alguém que banda somos e que música tocamos, mostraria "Fetiche Fonético".
