Os Azeitonas atuam no palco do Teatro Tivoli a 12 de março
Ana Bacalhau, Luís Trigacheiro e Tatanka juntam-se à banda no palco lisboeta. Entrevista a Marlon (Mário Brandão) a poucos dias do concerto.
Os Azeitonas regressam a Lisboa no próximo dia 12 de março para um concerto no Teatro Tivoli BBVA. Para o espetáculo na sala lisboeta Marlon, Nena e Salsa convidaram alguns amigos com quem vão partilhar o palco, como é o caso de Ana Bacalhau, Luís Trigacheiro e Pedro Tatanka.
Os bilhetes para o espetáculo estão à venda na Ticketline e nos locais habituais. Os preços variam entre os 20 e os 50 euros.
O grupo portuense de pop-rock, que em 2025 celebrou 20 anos desde a edição do álbum de estreia ("Um Tanto ou Quanto Atarantado"), editou recentemente o single 'Palma da Mão' – canção que estava na gaveta desde 2007 e que emergiu agora com uma mensagem diferente.
Será um dos temas que farão parte do alinhamento do concerto que incluirá, certamente, as canções que marcaram o percurso de mais de vinte anos do coletivo nortenho.
Oiça a entrevista completa ao músico Marlon:
Vamos começar pela recente celebração dos vinte anos de estrada. Assinalaram o marco no ano passado com a edição de um single, ao qual deram o nome de '20 Anos' e que faz uma retrospetiva do vosso caminho…
Sim. Celebrámos os vinte anos desde a edição do nosso primeiro disco mas a verdade é que temos mais de vinte anos de estrada.
São quantos anos de estrada?
Nem sei. Talvez uns 23, 25 anos. Mas é a tal coisa. Acaba por ser mais profissional ou oficial contar a partir da edição do primeiro álbum. Connosco, pelo menos, foi assim. A edição do álbum "Um Tanto Ou Quanto Atarantado", o nosso primeiro disco, foi em 2005. Por isso, no ano passado resolvemos marcar a data com o lançamento de um single e um concerto no Coliseu do Porto que demos a 2 de outubro.
Um concerto esgotado…
Sim, sim. Esgotado. Com o single fizemos, de facto, um pouco a retrospetiva da nossa carreira, apesar de não termos o hábito de olhar para trás. Gostamos de olhar para a frente. Olhamos sempre para o que vem a seguir. Mas com o single ['20 Anos'] começámos a olhar para o que fizemos no passado. Fomos ver as fotografias, os vídeos. E percebemos que fizemos bastantes coisas. (risos) O single anda por essa nostalgia mas também sublinha que não queremos ficar por aqui. A prova disso mesmo é que lançámos um novo single na sexta-feira passada.
Sim, já lá vamos…
Mas, sim. O concerto no Porto foi muito especial. Ficou registado e em breve vamos partilhar áudios e vídeos desse espetáculo.
Já percebi que não são pessoas de olhar para trás, mas, já que nessa canção foram vasculharam o álbum de memórias, gostaria de saber o que é que, ao longo destes vinte e tal anos, foi mais desafiante para vocês mas também o que é que vos deu mais prazer…
O caminho de uma banda é muito parecido com uma relação amorosa. Entre nós, músicos, passa-se muita coisa. Tal como numa relação há altos e baixos. Mas, no meio disto tudo, sempre houve vontade de continuar. Houve momentos difíceis e houve alturas em que quisemos parar. Isso aconteceu-nos, inclusivamente, antes de termos tido algum sucesso. Posso dizer que estávamos a pensar em desistir de tentar arranjar concertos, quando [em 2012] o Bruno Viera decidiu ir ao [programa de televisão] "Ídolos" cantar o 'Anda Comigo Ver os Aviões'. Foi nessa altura que a canção rebentou. A banda continuou graças a isso. Poucos meses antes tínhamos decidido que não íamos insistir mais. O esforço era muito e o resultado parecia pouco. (…) A canção ter sido cantada no "Ídolos" funcionou como um grande empurrão. Depois disso fomos sempre andando e a coisa foi correndo bem. O que costumamos dizer é que vamos continuar enquanto houver vontade de fazer música, enquanto nos estivermos a divertir e enquanto nos sentirmos realizados.
Imaginavam que vinte anos depois ainda andariam por cá?
Nem um disco imaginávamos ter. (risos) Gravámos uma maqueta na Escola Superior de Música, no Porto, e - nem sei bem como - essa maqueta acabou por chegar às mãos do Rui Veloso. Foi a partir daí que a coisa de gravar discos começou já que o Rui Veloso, na altura, estava a criar uma editora. Mas foi “jogo a jogo” como se diz no futebol.
Entretanto, a vossa vida familiar também mudou. Como é que têm encaixado os afazeres familiares com a agenda da banda?
É um pouco mais difícil. Os meus filhos agora são maiores, um tem onze e o outro treze, mas o Salsa [João Salcedo] ainda tem filhos pequenos. Ainda por cima, ele e a Nena são o casal da banda. Quando há coisas para fazer é mais complicado porque têm de deixar os miúdos com alguém. A logística é mais complicada. Já eu posso deixar os meus filhos com a mãe. (…) Com a idade fica mais difícil. Quando começámos havia tempo para tudo, estávamos sempre juntos. A dinâmica era outra. A partir do momento em que começa a haver famílias, filhos, escolas e outras logísticas, começa a ser mais difícil juntarmo-nos para ter ideias ou seja para o que for. É mais remoto pensar na banda. Mas vamos conseguindo. Vamos acertando as nossas vidas para podermos estar juntos e falar sobre o que queremos fazer.
Vamos agora pular para o novo single que se chama ‘Palma da Mão’.
Sim.
Sei que esta canção estava na gaveta desde 2007. Foram buscá-la aos arquivos mas alteraram a letra e, no fundo, a mensagem da canção...
A música era para entrar no disco "Rádio Alegria", que é o nosso segundo álbum. Até costumamos dizer que esse é o nosso primeiro álbum porque consideramos o "Um Tanto Ou Quanto Atarantado" o nosso álbum zero. Dizemos isto porque ainda éramos muito inexperientes na altura desse disco. Essa canção estava na lista para entrar no "Rádio Alegria", mas a primeira versão falava de uma relação amorosa. Até fui eu quem fez a música e a letra mas já nem lembro bem que relação era. Achei que letra era um pouco ressabiada. Devia estar chateado com alguém ou coisa do género. O tema original chamava-se ‘Primeira Mão’. (...) Era uma canção sobre uma mulher, mas, lá está, foi escrita de um ponto de vista um pouco ressabiado. Então, achámos que seria melhor fazer uma letra nova embora tenhamos mantido a ideia de “primeira mão”. Arranjámos uma narrativa diferente, mas que encaixasse nessa expressão. A mensagem passou a ser sobre a importância de viver a vida em primeira mão e não através dos ecrãs. É sobre a ideia de vivermos em primeira mão e não através do telemóvel. Temos de ir aos sítios, temos de conhecer as pessoas frente a frente. A partir daí, chegámos à questão da dependência atual dos ecrãs. Como o título 'Primeira Mão' já não encaixava tão bem, escolhemos o título 'Palma da Mão', já que estamos constantemente com os telemóveis na palma da mão. (…) Fui alterando a letra que existia, mas, ainda assim, mantive a primeira frase. E depois fui fazendo o jogo de palavras necessário para a letra encaixar na métrica. (…) O tema fala da dependência dos ecrãs, mas acho que não é assim tão óbvio. Já houve pessoas que me perguntaram se a canção era sobre um político ou algo do género. (…) Mas não queremos que seja óbvio. Queremos que as pessoas possam fazer as suas interpretações.
E no telemóvel está muita coisa...
Pois, está tudo.
Desse ponto de vista, abre um leque interminável de interpretações…
Pois, é isso. A mensagem principal é mesmo essa. É sobre este vício. Eu sinto que estou bastante agarrado ao telemóvel. As bandas comunicam muito através das redes. E, como tenho filhos que estão agora a começar a usar o telemóvel, vejo que com os miúdos a situação é pior. Se eu tenho dificuldades em controlar-me, imagino os miúdos. A escola já não permite o uso dos telemóveis, o que é bom. (…) Mas, nos dias de hoje, basta haver um momento de pausa para pegarmos logo no telemóvel. (…) Já é algo que nos é quase inato. (…) Há um amigo meu que tem um livro que fala muito sobre essa problemática sobretudo nas faixas etárias mais jovens. O livro foi escrito por uma autora francesa que fez uma pesquisa sobre o assunto para o Estado francês de Emmanuel Macron. E é sobre o impacto real deste problema nas crianças. Posso dizer que é dramático. A mente das crianças ainda está a formar-se e elas já estão em permanente contacto com os ecrãs. E depois é o déficit de atenção que existe atualmente tanto nos miúdos como nos adultos. Já ninguém consegue estar mais de dez segundos a olhar para uma coisa. Se nós, adultos, sentimos isso, com os miúdos ainda é pior. A escolha do tema acabou por ser casual. Aconteceu. Mas acho positivo fazer músicas que possam ajudar ou alertar os outros. Como é um tema mais virado para o rock, também é um pouco a ideia de erguer o braço. (...) Já não fazíamos rock há muito tempo. Pensámos em pegar no rock e colocar uma distorção. Acho que é a música mais rock dos Azeitonas.
É uma espécie de grito…
É um grito de revolta. Vamos tentar lutar contra estas coisas. São coisas contra as quais ainda podemos lutar. Há tantas coisas pelas quais temos de lutar agora. Estamos numa fase de luta. As sociedades estão na fase de lutar, de se mostrarem e de irem contra o estado das coisas. Ou pelo menos de falarem sobre os assuntos e não se deixarem ficar. Parece que estamos num marasmo. As pessoas queixam-se muito entre si mas depois não agem. E acho que nós, músicos, temos o papel de mostrar e de falar sobre os temas que, por vezes, as pessoas não têm tempo para observar por estarem simplesmente a tratar da vida delas. Os músicos são as pessoas que olham para o mundo e que o analisam do seu ponto de vista. O nosso ponto de vista é este. Há quem seja mais direto, há quem o faça de uma forma mais poética. Nós fazemos desta forma. Tentamos que as pessoas entendam mas também não somos demasiado diretos. (…)
O que senti foi um grito para acordar um grupo de zombies que andam com sede de dopamina, não é? E todos nós fazemos parte desse grupo...
Sim, sim.
E uma vez que somos todos cúmplices temos de começar por assumir que estamos nesse ponto. É necessário que comecemos a acordar…
Sim, acordar.
E acordarmo-nos uns aos outros…
É um bocado isso. E acho que toda a gente tem noção disso. Agora, a verdade é que é realmente difícil largar. Eu fui diagnosticado com déficit de atenção (TDAH) e, segundo a minha psicóloga, cerca de 70% dos músicos sofre do mesmo. Não sei a percentagem ao certo, mas será por aí. As redes são um grande aliado mas também têm um impacto negativo nos músicos e nos artistas em geral. Acho que tanto os artistas como os desportistas têm necessidade de dopamina rápida. Mas, nos dias que correm, essa necessidade está a ficar transversal a todo o tipo de pessoas. (…) É uma boa forma de comunicação, sem dúvida. Podemos chegar ao nosso público da forma que queremos mas, ao mesmo tempo, acho que também pode ser nocivo.
E a canção acaba com um sussurro pouco otimista…
Sim, é pouco otimista. Alguém nas nossas redes sociais até comentou que parecia um sussurro do Adolfo Luxúria Canibal. Isso seria perfeito. Tê-lo a sussurrar “vamos todos morrer”. (risos) Na altura foi o que me saiu: "vamos todos morrer com os olhos a derreter no ecrã" e depois o Sala diz: "nada a fazer". A música tem alguma esperança, mas não nesse final em particular. (…) Às vezes, a sensação que tenho é que vamos todos olhar para o ecrã com os olhos a derreter.
E qual é a tua opinião sobre a Inteligência Artificial [IA] ao serviço da música?
Acho que é uma ferramenta espetacular. Mas sempre que aparece uma nova tecnologia o ser humano reage com medo. Achamos logo que vai ser uma desgraça. Quando apareceu a televisão pensávamos que ia acabar a rádio. Quando surgiu a internet iam acabar os livros. A verdade é que nada acabou, mas é óbvio que tem de existir um período de adaptação. Acho que a diferença entre a IA e os progressos tecnológicos do passado é a velocidade com a qual a IA está a evoluir. Nem há tempo sequer para legislar. Quando se vai legislar um ponto a IA já avançou noutro ponto. Estão a avançar a grande velocidade e com impunidade. O Will.I.Am, que agora trabalha com a NVIDIA [uma empresa tecnológica], diz que estamos num patamar em que só nos resta aceitar, porque vai mesmo acontecer. Podem "berrar", podem estar contra, mas vai ser como uma avalanche. Mesmo que ponhas as mãos à frente, vai passar por cima de ti. Ou alinhas e percebes o que tens de fazer ou ficas para trás. O que ele diz também é que atualmente já estão a trabalhar com escolas, artistas e músicos para sejam estes a criar o seu próprio agente de IA. A ideia é teres um servidor em casa e seres tu a controlar a tua IA. Isso é futuro. É teres um agente de inteligência artificial que trabalhe para ti. (…) Fica fora das empresas. Passamos a ser nós a controlar. Temos de tentar ter esse controlo. Já na música, em termos de material técnico e de equalizadores, a IA vai ajudar-nos imenso. Nos anos 90 e 00, os miúdos começaram a fazer música em casa com um computador. Houve uma democratização da gravação. A IA pode potenciar ainda mais isso. Mas, por outro lado, há um aproveitamento e desregulamento total. Roubaram tudo. Vão buscar tudo à internet sem pedir licença a ninguém. (…) É assim que vão alimentando a máquina, aproveitando os buracos legais. Os governos tentam adaptar-se, mas acho que a adaptação está a ser demasiado lenta. E ainda por cima têm a ajuda da IA para serem mais rápidos. (risos) Nem que fosse para ajudar na parte burocrática. (risos)
Lançaram este novo single, por isso quero saber se estão a preparar um novo álbum…
Estamos a preparar singles. Foi o que fizemos com o álbum "Reconstrução" que editámos em 2022. Lançámos à volta de cinco singles durante um ou dois anos e depois completámos o álbum com mais cinco ou seis canções. Avaliamos o custo, benefício e toda a logística. Temos em conta o custo financeiro e pessoal e as horas de estúdio. Avaliamos se vale a pena, tendo em conta que, se calhar, as pessoas vão ouvir apenas o single e esquecer as outras canções. Claro que todas as canções ficam para o legado, para o futuro. As pessoas acabam por descobri-las mais tarde. (…) A verdade é que queremos fazer [um disco] mas não sabemos quando. Talvez tenhamos um álbum no ano que vem.
Mas será neste caminho mais rock ou vai variando?
Não sei. (…) Nós somos um pouco de tudo. Claro que temos o nosso cunho nesse pouco de tudo. Temos baladas, temos mais rock, menos rock, mais pop, menos pop. Nós tínhamos outra música para gravar, da minha autoria, que também é mais virada para o rock. Aliás, íamos gravar essa em vez da 'Palma da Mão', mas depois, como esta última já estava mais avançada, optámos por lançá-la como single. Mas, sim, temos outro tema também mais orientado para o rock. Acho que a tendência é essa. Entretanto, comecei a tocar mais guitarra. Não tocava e comecei a aprender melhor. Se calhar, as coisas vão acabar por seguir esse caminho de uma forma natural. Não vou lutar contra isso.
Sem gavetas, não é?
Sim, sim. Sem gavetas. A vantagem de sermos os Azeitonas é que podemos fazer o queremos. Há aqueles artistas que têm determinado género e estilo e depois custa-lhes sair dali, porque o público também quer aquilo. E ali ficam. No nosso caso, nunca sentimos que temos de fazer assim ou assado. Simplesmente fazemos. E como somos nós a fazê-lo, vai ser sempre ao nosso estilo. Às vezes, até pensamos: "isto vai ser mesmo diferente. Não tem nada a ver." Somos o que fazemos, com as vozes e tudo mais. Acho que esse é o nosso cunho.
E agora estão de regresso a Lisboa para um concerto no Teatro Tivoli. Como é que se sentem com este regresso?
É sempre bom regressar. As pessoas dizem-nos: "vocês têm de vir e tal”. E nós respondemos: “então, contratem-nos”. As pessoas acham que não vamos porque não queremos ir determinados a sítios. Mas nós vamos aos sítios que nos contratam. Temos tocado em alguns espaços à volta de Lisboa. No verão do ano passado fomos a Oeiras, também fomos à Margem Sul. Mas mesmo em Lisboa já não tocamos há cerca de oito anos. (…) E nunca tocámos no Tivoli. Aliás, há cerca de um, dois anos, tocámos em Benfica, no Palácio Baldaya, mas num formato diferente. Numa sala [em Lisboa] com tudo a que temos direito e em nome próprio já tocamos há muitos anos.
E o que é que podes contar sobre o concerto?
Vamos ter convidados tal como aconteceu no Porto. Vamos ter a Ana Bacalhau, o Luís Trigacheiro, que é pessoal amigo. Vamos ter o [Pedro] Tatanka, um amigo de longa data que também esteve connosco no Porto. E vamos ter mais algumas surpresas. Vamos juntar pessoal daqui [de Lisboa], o acaba por ser mais fácil em matéria de logística. O concerto será diferente do espetáculo que demos no Porto. O concerto no Porto foi de celebração dos 20 anos. Tocámos temas do primeiro disco e neste, se calhar, já não vamos tocar. Os nossos concertos são sempre diferentes. Temos um alinhamento, mas depois há muita liberdade para esticar os solos e por aí. São sempre diferentes.
