"Os jovens estão a pedir o básico." Estudantes franceses voltam hoje aos protestos

Luísa Semedo, mãe e professora em França, lamenta a ausência de respostas às reivindicações dos estudantes.

Os estudantes do ensino secundário voltam esta terça-feira aos protestos em França, numa luta por melhores condições nas escolas, mais professores e menos alunos por turma.

"O que os jovens estão a pedir é um caso básico. E eu pude constatar, de facto, que há uma grande disparidade entre liceus. Eu pude trabalhar em liceus que estavam renovados e que tinham boas condições e outros absolutamente impensáveis numa das maiores potências mundiais. Estamos a falar de liceus, por exemplo, nas minhas próprias salas de aula, em que passamos dez minutos à procura de uma cadeira ou das cadeiras que faltam, ou de miúdas que se vão sentar na mesma cadeira, porque não há espaço, ou que se sentam na minha cadeira. E são três por mesa, quando na verdade só deviam estar dois. Portanto, são situações que são quotidianas. Ou, por exemplo, no caso dos jovens, a casa de banho não ter porta ou não haver sabão, não haver papel higiénico. Ou seja, nós estamos a falar aqui de coisas muito básicas mesmo", explica Luísa Semedo, uma mãe portuguesa que reside na região de Paris e já deu aulas em vários liceus franceses.

Além das más condições em algumas escolas, faltam também professores "para certas matérias que são importantes, por exemplo, no décimo segundo ano", além de outros profissionais.

Luísa Semedo considera que os estudantes não estão a ser ouvidos pelo Governo francês, apesar do anúncio de mais três mil professores, e acusa a polícia de excesso de violência nas manifestações.

"Um excesso de carga policial, de coisas que são absolutamente inimagináveis, como carros de polícia que tentam atropelar crianças. Aliás, houve uma menina de 14 anos que foi atropelada por um carro de polícia. Alguns que perderam o olho, outros que perderam uma mão. Há vídeos de miúdos com convulsões por causa do gás lacrimogéneo, que não é assim tão inocente como isso. E portanto, sim, há demasiada violência policial neste momento", refere.

Protestos que ganham ainda mais importância para Luísa Semedo, que além de professora é também mãe e, por isso, acompanha a luta e inquietação do filho, que está no 12.º ano.

"Ele próprio está bastante impressionado com a violência policial e com alguns dos seus colegas que levaram com muito gás lacrimogéneo, por exemplo, e que não ficaram bem durante alguns dias. Ele viu alguma da violência policial que o marcou, de facto, e eu senti-o bastante inquieto em relação a isso. Mas, ao mesmo tempo, isso também tem reforçado a vontade de muitos deles a continuarem os bloqueios e continuar as manifestações. Esse também é o caso do meu filho."

Protestos podem ir além dos jovens dos liceus

A mobilização nacional, que começou com os estudantes, pode estender-se a outros setores da sociedade.

"Aqui o que se tem falado é um bocadinho a questão da convergência das lutas, (...) como os agricultores ou outras profissões da função pública, por exemplo. Portanto, há um bocado esta ideia de alargar o movimento para além dos jovens e da questão dos liceus", sublinha Luísa Semedo.