"Os verdes anos" de Isabel Ruth

Uma viagem pelos quase setenta anos nos palcos.

Isabel Ruth é um dos rostos do Cinema Novo português, na década de sessenta. Bailarina e atriz, pisa os palcos portugueses há quase setenta anos.  

Começa a praticar ballet aos doze anos, na década de cinquenta. O que a levou até à dança? 

Tinha cinco anos e estava em África, porque o meu pai foi para lá e depois nós - eu, a minha mãe e a minha irmã - fomos ter com ele. Vi espetáculo em Luanda com uma menina novinha, uma menina prodígio, que se chamava Eveline de Melo Freitas, nunca me esqueci.

Veja só que eu tinha os meus cinco e nunca tinha visto ninguém dançar. Nessa altura não havia televisão. Fiquei impressionada porque aquela miúda dançava com sapatilhas de pontas, que era uma coisa que eu nunca tinha visto na minha vida. Então, fiquei completamente encantada com aquilo, com a música e com o espetáculo. Fiquei mesmo com aquela pancada de querer ser bailarina e querer dançar.

Fui para casa e andava sempre na ponta dos meus dedos, porque queria dançar como ela com as sapatilhas. Mas nem sequer sabia como é que eram feitas as sapatilhas de pontas, que levam madeirinha na ponta. Depois tem que se pôr algodão e proteger os pés. Além disso, para aguentar as pontas, tem que se fazer muito exercício para termos leveza, porque uma pessoa que não que não conheça os exercícios e calça umas sapatilhas daquelas não aguenta, vai o peso todo para os pés. A respiração tem muito a ver com a dança, para ter leveza em cima das sapatilhas e não ser aquele peso bruto em cima dos pés. É tudo trabalho.

Quando se vê uma bailarina, dá a falsa ideia de que há uma certa naturalidade. 

Vejo que as pessoas que têm vocações e que as seguem são as que realmente se dedicam àquilo que fazem. A vocação nasce connosco, há uma tendência e é muito bom que tínhamos o reconhecimento da nossa vocação, porque quem não tem anda um bocadinho às aranhas, não sabe o que é que vai fazer da sua vida.

A minha mãe, por exemplo, nunca se preocupou comigo, porque ela sabia que eu sabia muito bem o que queria. Para os pais acho que é um alívio quando uma criança se dedica, sabe o que quer e não tem problemas de "o que é que eu vou fazer?" e "não sei o que é que vou fazer", que há muita gente assim, não é? Não sabem bem a vocação.

Isso também não significa que não possamos mudar de profissão ou que não possamos ser bons noutras atividades. Mas é muito bom quando uma pessoa reconhece a sua vocação.

Desde os cinco anos, quando tem este primeiro contato, até começar a estudar já mais velha o que que a encaminhou até ao ballet?

 Vivia na província, em Tomar. Tive muito pouco tempo em África, só um ano e meio, depois voltei e fui viver para Tomar, onde nasci. Fui viver com os meus avós, sempre ccom aquele desejo de dançar.

Curiosamente tinha uma amiga que o pai foi a França e trouxe-lhe umas sapatilhas de pontas também cor-de-rosas. Ela não sabia pôr-se em cima daquilo, ficou com os pés a doer. Não tinha escola nenhuma, era só as sapatilhas, porque não havia escola de dança em Tomar. Nem eu fazia ideia que havia uma escola, nem sabia que escola era, quer dizer sobretudo em Tomar. Eu calcei as sapatilhas, pus-me em cima daquilo e adorei, ter aquelas sapatilhas tão bonitas, porque em Portugal ainda nem sequer se fabricavam sapatilhas. Já se faziam algumas, mas muito mal feitas e muito más. Aquelas não, aquelas eram muito bonitas e muito bem feitas que em Paris já havia sapatilhas como deve ser.

Só depois quando vim para Lisboa é que eu percebi que havia várias escolas. Havia um ginásio que tinha uma professora de dança e eu pedi dinheiro à minha mãe para o elétrico e fui sozinha inscrever-me. Tinha doze anos quando fiz a minha primeira aula de dança. Fiquei muito decepcionada porque não sabia que a aula começava numa barra, com aqueles exercícios difíceis, julguei que chegava ali e começava a dançar como eu dançava em casa...

Começar a dedicar-se às artes tão cedo, aos doze anos ainda, foi bem visto pelos seus pais? 

Sabe que os meus pais eram muito pouco convencionais. Tive essa sorte.

Sobretudo a minha mãe, com quem eu mais vivi, achou perfeitamente natural que não tive esses impedimentos. Não me passa sequer pela cabeça que houvesse alguma proibição de fazer aquilo que sentia e que estava completamente dedicada e sabia muito bem o que queria.

E estudava, não é? Estava a estudar ao mesmo tempo e tinha as minhas horas da aula de dança. 

Foi essa dedicação que a levou até Londres?

Sim, claro. Depois mais tarde casei-me com o meu marido que também era bailarino, e fomos os dois. Inscrevemo-nos no Royal Ballet, é preciso dar provas que a pessoa tem algum talento. Fomos aceites, ficámos em Londres dois anos e foi muito bom. O Royal Ballet School é uma escola profissional fantástica.

Este dois anos fora, sobretudo em tempos em que se vivia uma diatura em Portugal, sentia-se a diferença?

Bem, Londres foi uma grande descoberta. Quer dizer, então tinha dezoito anos quando fui. Uma pessoa sai de Lisboa em 1958, chega a Londres e entra no metro, uma coisa que não existia cá. O underground . A maneira como as pessoas se vestiam, era uma grande cidade, aquilo é surpreendente para uma pessoa tão jovem como eu, que nunca tinha saído daqui.

Mas sempre me senti uma pessoa muito livre, nunca tive impedimento daquilo que queria fazer. A minha família não era politizada, os meus pais trabalhavam muito. A minha mãe era uma mulher muito para a frentex naquela altura e eu nunca senti impedimento, não senti proibições, sempre me senti livre. Acho que cada pessoa vive na sua caixa.

Londres era uma vida completamente diferente, muita coisa que ainda não tinha chegado cá. O que a faz voltar? 

Voltei porque o meu tempo de escola acabou. A escola era caríssima e, ao fim de dois anos, senti-me com boa técnica para voltar para Portugal. Aqui é que tinha a família, aqui é que eu queria viver, aqui é que eu queria conseguir formar uma companhia com outras pessoas que também estavam na mesma situação que eu.

Não havia uma companhia em Portugal. Havia várias professoras, mas não havia uma companhia, não havia grandes profissionais. Havia gente talentosa com alguma técnica, mas poucochinha. Nessa altura foi quando começou muita gente a ir para fora.

Aliás, mais na época em que depois deixei a dança e comecei a fazer cinema, fui-me embora de Portugal por uns tempos. Foi quando muitos colegas meus da mesma época começaram a ir uns para Nova York, outros para a Rússia... A vida mudou, não é? Entretanto, passaram dez anos, como não segui a dança, depois não fiz parte da Companhia da Gulbenkian, mas quando voltei de Londres formámos um grupo que deu origem depois ao Ballet Gulbenkian. Nós fomos os pioneiros da Gulbenkian.

Pôs a primeira pedra naquilo que viria a ser mais à frente a Companhia da Gulbenkian. 

Sim, claro. Muitos de nós fomos para fora estudar para ter boas técnicas, porque havia professoras que eram amadoras.

A minha professora era alemã, refugiada da Segunda Guerra Mundial. Veio para cá, mas tinha aquele estilo de dança moderna, que na Alemanha já se fazia dança mais contemporânea. Começou a dar aulas para sobreviver, chamava-se Madame Ruth. Tinha o nome igual ao meu, começou a dar aulas de dança clássica, mas não tinha grande escola. Nem ela, a Margarida de Abreu também. Eram pessoas que estavam cá, que conheciam um bocadinho e que, graças a elas, também começou-se a fazer ballet em Portugal. 

Agora as coisas são muito diferentes. O que é engraçado é que tudo aquilo que eu desejava na altura e que me faltava agora há uns anos estou a ver despontar. Na altura de partir é que estou a ver, é engraçado, é como as plantas. As folhas morrem e os botões começam a abrir. A vida é assim. É uma sequência. Há evolução constante e é incrível.

É engraçado. Aquilo que eu via em Londres e dizia "Ai, mas em Portugal não há. Ai que horror!", agora acho que é tudo um bocado igual agora, na Europa e até na Rússia. Estive na Sibéria, fiz uma viagem de comboio até lá, e durante aqueles quilómetros todos, só se vê árvores e neve e árvores e neve. Fui no inverno. Mas, de repente, surge uma cidade enorme! Na cidade tem imensas lojas que há na Europa. Durante quilómetros e quilómetros só neve e árvores, parece que uma pessoa está perdida ali naquele deserto de neve. De repente aparece uma cidade quente, cheia de luz, cheia de calor e com lojas iguais a Paris. Incrível, não é?

Uma certa uniformização, apesar de todas as diferenças. 

Exatamente. Agora, quer dizer, vou a Paris e ouço a Amália a cantar numa loja da Zara. Tem piada. 

Ainda na década de 60, deixa o ballet e passa para o teatro. Apesar de continuar nos palcos, o que a leva a mudar? 

É porque casei com um ator, não é? Era bailarino, mas também tinha acabado o curso do conservatório de teatro.

Ele é que me inspirou para ser atriz. Pediu-me para ler um texto de Fernando Pessoa e poemas. Comecei a ler e ele disse que achou que eu tinha muita capacidade para fazer teatro. Estava na companhia do doutor Fernando Amado, que era na Casa da Comédia, um teatrinho muito simpático. Faltava uma pessoa para fazer uma peça de teatro, um drama estático que se chama 'O Marinheiro'. Faltava uma veladora porque aquilo são três irmãs que tão a velar um marinheiro. Há um diálogo, um triálogo, em que as três irmãs estão a falar sobre esse marinheiro e faltava uma dessas veladoras. O João sugeriu ao doutor Fernando Amado e eu fiz essa primeira experiência no teatro com o drama estático de Fernando Pessoa.

O meu marido também formou um grupo de Fernando Pessoa, fomos ao Brasil com 'O Marinheiro' e com a poesia de Pessoa. Era um fã enorme da poesia de Fernando Pessoa, que ainda era muito pouco conhecida aqui em Portugal, pelo menos no meio teatral.

Com a oportunidade de experimentar o teatro, sentiu que era ali o seu lugar? 

O meu lugar ao longo da vida tem sido em muitos sítios. Acho que uma pessoa começa a fazer aquilo que gosta e que lhe dá prazer. Agora, não sei se era o meu lugar ou não.

Nessa altura fazia sentido, muitas das coisas vão surgindo. Não acabei os meus estudos porque dediquei-me à dança, casei-me aos dezoito anos e comecei a fazer aquilo de que gostava. Também comecei a ganhar a minha vida com isso.

Depois surgiu o teatro, que me dava muito prazer porque não era bem uma instituição, era um prazer. Com o Fernando Amado, que era um professor e uma pessoa inteligentíssima, muito simpática, muito amorosa. Havia o Almada Negreiros também, apadrinhava o nosso teatro, assistia aos nossos ensaios, fizemos peças dele também, o 'Deseja-se Mulher'. Era um querido, foi o padrinho do meu filho, gostava muito dele. Somos os dois de Abril, dois carneirinhos, quase que fazíamos anos no mesmo dia. Nessa altura, tinha assim uns professores e uns adultos, o Almada já devia ter os seus quarenta anos, tinha dezoito, mas já me sentia tão próxima dele, da Sara - que era a mulher dele - e do doutor Fernando Amado, que também era um homem maravilhoso. A vida deu-me esses presentes todos tão bonitos e tem mantido assim a minha vida. 

Quando passa dos palcos para o cinema, sentiu que tinha de adaptar a forma de trabalhar ou a nível de atuação? 

Nós podemos ter um certo controle. No nosso dia a dia sabemos mais ou menos o que é que vamos fazer. Vou-me levantar, tomar um pequeno almoço, fazer isto e sair, tenho este trabalho para fazer, mas a vida vai-se abrindo e as coisas vão acontecendo, não é? Tal como eu fui para dança, por que nós temos à razão e ao coração, temos que contrabalançar uma coisa e outra. Portanto, há uma vida material para viver. E é maravilhoso, temos um corpo, temos um espaço, temos uma profissão, mas a vida vai-se abrindo.

Na vida vão aparecendo as pessoas à nossa frente, os caminhos, as coisas vão surgindo. Portanto, se eu começar a pensar: primeiro foi a dança, depois foi o teatro e depois o teatro levou-me à televisão. No dia em que eu fiz um espetáculo, estava lá um realizador de televisão que me convidou para participar numa série que se fazia nessa altura, quando a televisão se iniciou em Portugal. Depois de ter aparecido na televisão, um realizador - um rapaz jovem que estava a fazer cinema -, que era o Paulo Rocha, viu aquela miúda lá no ecrã e disse: "Vou fazer um filme e quero fazer um filme com aquela menina, que ela é que é a personagem." Telefona e eu atendo, quero fazer este filme.

Antigamente podia-se ir ao teatro ou cinema ao colo dos pais, podia-se levar os bebês - isso em 1945, porque nasci em 1940. Os meus pais eram muito jovens, a minha mãe tinha dezoito anos quando eu nasci. Sempre fui cinema na minha vida, uma apaixonada de cinema. Depois quando fui para Londres, comecei a ver outros filmes independentes, Kurosawa e filmes ingleses. Portanto, era uma espectadora de cinema também. Quando me convidaram para fazer cinema, desconfiei um bocadinho e tal, mas achei que era simpático. Não tinha agente ainda, as coisas... Quer dizer, para mim o meu passado ainda está muito próximo. Se falo como uma pessoa de vinte anos, de certas coisas que para mim são próximas, as pessoas dizem: "Ei, nasceu em 1940!" As pessoas nem imaginam, para mim 1950 é tudo muito próximo, o meu passado faz parte do meu presente 

Quando ingressa no cinema, faz ainda algumas produções cá. Depois parte para Itália e, nos anos que se seguem, vai ao Oriente e passa por Espanha antes de voltar. Conhecer outras culturas e ter contato com estes países, deu-lhe novas visões? 

Sim, é claro. Antes de me ir embora fiz três longas em Portugal. Depois em Itália fiz vários filmes. 

Como a vida não é só fazer cinema, conheci muita gente e havia aquele movimento hippie. O mundo sofreu uma grande reviravolta com esse movimento. Roma era uma cidade de onde vinha muita gente dos Estados Unidos da América, da Inglaterra, da França, de vários países, mesmo da América Latina. Roma era um centro enorme de muita coisa a fervilhar. Eram os anos sessenta: era o ano dos Beatles, dos Rolling Stones, de ir à Lua, a guerra do Vietname. Aconteceu muita coisa, nós às vezes não temos consciência porque não temos capacidade de viver tudo o que se passa no mundo. Agora com a internet, há demasiada informação e uma pessoa perde-se no meio desta informação.

Roma era uma loucura. Depois havia as drogas, começou a haver o haxixe. Não falo de drogas pesadas, porque nunca entrei nesse mundo. O haxixe abriu muita mente. Essa experiência, o LSD e essas coisas todas aconteceram. Houve uma abertura, não sei se foi para melhor ou se foi para pior. Há muita gente que descende desses hippies, os hippies que deixaram de ser hippies e que têm hoje a minha idade. Havia os hippies e depois havia os freaks, que é diferente. Os hippies geralmente eram pessoas mais das artes e os freaks eram pessoas mais perdidas. Os hippies eram pessoas que lutavam mais pela independência, pela liberdade. Não se drogavam até à morte. Não era a cocaína nem heroína, era mais os charros.

Houve uma evolução a partir dessas experiências todas. Nesse período, havia muita gente que vinha de Katmandu, do Nepal, da Índia... Havia ali uma combustão. Por isso é que eu digo: nós não controlamos as coisas, a vida troca-nos as voltas. Por mais que uma pessoa queira ir por ali, a vida ensina-nos. Roma levou-me a ir a Katmandu, fazer essa viagem. No ambiente artístico muita gente vinha e ia para Katmandu eram artistas, pintores. Uma série de acontecimentos e de livros, que me vieram parar às mãos e leituras que fiz sobre o budismo, que me levou a esse caminho. Fui à descoberta. Não dizem que Portugal é um país das descobertas? Estou nessa linha das descobertas: não fui em nenhum navio, não fui à procura das especiarias - mas também descobri as especiarias. Valorizei esse tempo das descobertas. Também sou uma aventureira, fui até ao Tibete...

Fui descobrir mundo, descobri muito mundo e descobri-me a mim noutra dimensão. Essa dimensão foi um ressurgimento de mim própria. Depois voltei, dez anos depois, a Portugal porque tinha qualquer coisa a dizer aqui. Era a língua que melhor falava, era onde estava a minha família. Vim aqui parar como fui parar antes a outros sítios, como fui parar a Londres, como fui parar a Katmandu, como fui parar a Nova Déli, como fui parar à Sibéria com filmes, como fui parar à Argentina. Tanta, tanta coisa que percorri, mas agora estou aqui. Quando voltei, comecei a fazer muitos filmes, fiz uns cinquenta. As pessoas acharam muita graça de eu voltar, estar viva e estar disponível. Também precisava de trabalhar, porque não se vive nesta sociedade sem dinheiro. Não é preciso grande riqueza para termos uma vida decente, mas é preciso ter os olhos abertos para conseguirmos sobreviver, umas vezes melhor outras vezes pior. E agora estou aqui.

Desempenhou muitos papéis, há alguma produção que a tenha marcado mais? 

O meu início com o Paulo Rocha foi muito marcante. 'Os Verdes Anos', o primeiro filme que fiz, foi muito reconhecido ao longo da minha vida. Por causa desse papel, dessa Hilda de 'Os Verdes Anos' e por causa do Carlos Paredes.

As pessoas apropriaram-se de 'Os Verdes Anos', mas 'Os Verdes Anos' são meus. Eu é que me apropriei de 'Os Verdes Anos'. Não me apropriei porque não me quero apropriar de nada. Mas vejo muita gente falar de 'Os Verdes Anos' e inclusivamente, por exemplo, de uma canção que é "a Formiguinha", que o Alain Oulman fez para mim. Criou essa canção para mim e eu ensaiei essa canção com o Alain Oulman, ensaiei essa e outra, que ainda guardo pra mim, que ninguém sabe. Ninguém tá interessado em conhecer a outra canção do Alain Oulman.

Não estão interessados em conhecer ou a Isabel não está disponível para partilhar? 

Não, eu estou disponível, mas os músicos estão muito interessados é com as suas coisas e eu compreendo. Todos têm as suas criações. Quem é que se interessa agora por uma canção inédita do Alain Oulman? Não há ninguém. Já falei com alguns músicos, não estão interessados. Assim também não sabem o que perdem.

'Os Verdes Anos foi o Paredes', o Carlos Paredes viu o filme, olhou para a Hilda e fez a "Canção Verdes Anos". Apaixonado pela Hilda, inspirou-se naquele tema, -se naquele personagem e durante o filme, quando o casal dança naquele espaço onde foi criado mais tarde o Beleza, a discoteca, no sítio onde dançámos, onde filmámos. Quando o casal dança 'Os Verdes Anos', que é cantado por uma uma cantora da altura. Isso foi já há uns anos. Quando voltei, aquilo era tudo novo pra mim, porque estive dez anos fora de Portugal. Portanto, quando voltei, era tudo muito mais moderno, muito diferente. Achei muita piada o Beleza ser exatamente naquele espaço em que agora está a ser construído um grande hotel. É assim, a vida dá muitas voltas, como já disse e repeti aqui várias vezes.

O que é que lhe falta fazer? 

 Ai, falta-me... Não me falta fazer nada de especial. Vou fazendo.

Em março vou apresentar um grupo de jazz - faço uma leitura que já fizemos em 2025 na Gulbenkian. É um grupo de jazz que me convidou para apresentar jazz dos anos vinte, em que também canto um bocadinho e é uma coisa muito bonita e vai ser no Teatro Rui de Carvalho, em Carnaxide. É uma coisa muito gira, que já fizemos e que teve muito sucesso com jovens músicos que me foram buscar a mim para apresentar e para falar sobre o jazz dos anos vinte.

Está em progresso um filme que estou a fazer com a Luísa Sequeira sobre a minha vida. Espero que consigamos acabar este projeto antes que me vá embora. Já andamos há uns anos a recolher filmagens, espero que este ano consigamos montar o filme. É um projeto muito bonito.

Gosto de escrever, gosto de desenhar, gosto de fazer tapetes. Gosto de fazer coisas. Gosto de falar contigo. Gosto de estar aqui. Gosto de respirar e de estar viva.

Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio, no Rayo ou nas plataformas de podcast.