Patti Smith recebeu hoje o prémio Princesa das Astúrias das Artes

Cantora sente-se envergonhada com a atual liderança nos Estados Unidos, que considera "deplorável".

A artista norte-americana Patti Smith, que recebeu hoje o prémio Princesa das Astúrias das Artes, disse que "as pessoas têm o poder, embora por vezes sintam o contrário", num alerta para a atual liderança dos EUA, que considerou deplorável.

Numa conferência de imprensa, realizada hoje, em Oviedo, Espanha, a par da entrega do prémio, Patti Smith, confessando-se "envergonhada com a atual administração" norte-americana, disse que as nações precisam desse poder das pessoas: "Que se levantem, se unam e votem".

A criadora de "People have the power" afirmou ainda que, para si, é difícil falar sobre a situação atual do seu país, marcado por "uma liderança deplorável, sobre a qual não se pode dizer nada de bom".

"Não tenho nada de bom para dizer. Normalmente, mesmo quando há algo de mau, consegue-se sempre encontrar algo positivo, mas não neste caso. Não sou conservadora nem democrata; considero-me uma pessoa global. Mas, sinceramente, preciso de dizer que me sinto envergonhada com a atual administração, com o atual governo", declarou a artista.

Neste sentido, salientou que o papel dos artistas, por si só, já não é suficiente para alterar para esta realidade, e apelou à união de todos os cidadãos.

"Precisamos de pessoas que se juntem a nós — precisamos de muita gente, de um grande contingente: artistas, ativistas e pessoas de todos os tipos que queiram fazer o bem, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. Teremos eleições em breve e, por isso, neste momento, o mais importante é o voto", afirmou Patti Smith, numa referência às eleições de novembro, nos Estados Unidos.

Durante a conferência de imprensa, Patti Smith abordou também a sua carreira e a sua relação com a religião, de acordo com agências internacionais de notícias.

Quando questionada se a sua religiosidade não seria incompatível com a "liberdade individual" que sempre defendeu, a artista norte-americana descreveu as "várias evoluções por que passou". Contou, por exemplo, que, em criança, foi educada pela mãe na fé em Deus, tendo recebido uma educação religiosa tanto na escola como em casa.

Na adolescência, porém, quando decidiu ser artista, deixou "a religião de lado por causa das limitações" que lhe impunha, "não tanto morais, mas de natureza filosófica", algo de que não gostou.

Mais tarde, por causa de um acidente sofrido em 1978, percebeu que "podia rezar por conta própria e ter o seu próprio sistema". A partir daí, passou a ver Jesus como um homem que promoveu uma revolução baseada no amor. Foi então que a sua conceção de religião mudou completamente.

"Nos tempos em que vivemos, é preciso acreditar em alguém; espero que cada um de nós acredite — pelo menos em si próprio", afirmou.

Federico García Lorca, Cervantes, Picasso e Roberto Bolaño foram autores citados pela artista, em Oviedo, que confessou ter estudado "vários aspetos da cultura espanhola".

"Analisei a sua filmografia, estudei Lorca, Cervantes e, claro, Picasso. Picasso foi, durante muito tempo, o meu artista favorito. Aliás, quando tinha 12 anos e vi pela primeira vez uma obra de Picasso, soube, naquele instante, que queria ser artista", recordou.

Patti Smith referiu ainda a "bela coincidência" de estar em Oviedo e realizar um concerto precisamente quando se completam 50 anos da sua primeira atuação em Espanha.

"Sem dúvida, hoje é um dia muito especial para mim: 20 de outubro de 1967 e 20 de outubro de 2026. Hoje celebramos 50 anos desde que fiz o meu primeiro concerto em Espanha. Éramos jovens, tínhamos 20 anos, queríamos fazer muitas coisas; foram momentos realmente muito emocionantes. Éramos muito jovens, estávamos a aprender", disse.

Nascida em Chicago, nos Estados Unidos, em 30 de dezembro de 1946, Patricia Lee Smith, conhecida como Patti Smith, além de cantora e compositora, escritora e poeta, também se dedicou à fotografia. "Pão de Anjos" é o seu mais recente livro publicado em Portugal (Quetzal).

Em 15 de junho de 2027, Patti Smith regressará a Lisboa para um concerto no Coliseu dos Recreios.