Paulo Flores: "uma das coisas presentes na minha arte são os afetos" (c/áudio)

Paulo Flores celebra 38 anos de carreira com concertos na Casa da Música, no Porto, e no Coliseu de Lisboa, com "músicas de amor a Angola".

Paulo Flores é um dos cantores mais conceituados de Angola e pertence ao grupo de vozes que ajuda a escrever a história musical do seu país.

O cantor celebra 38 anos de carreira com dois concertos especiais em Portugal, um na Casa da Música, no Porto, a 28 de fevereiro (já esgotado), e outro no Coliseu de Lisboa, a 5 de março. Dois palcos simbólicos para revisitar uma trajetória que atravessa gerações, geografias e emoções.

Nascido em Luanda e criado entre Angola e Portugal, Paulo Flores editou o primeiro disco aos 16 anos. Filho de um pai DJ e de uma família onde a música fazia parte da vida quotidiana, cresceu entre discos de blues, música brasileira, portuguesa e angolana, e entre o quimbundo falado pelas avós. Dessa mistura nasceu uma identidade artística singular feita de memória, consciência social e afetos.

Ao longo de quase quatro décadas, passou da kizomba dos primeiros sucessos ao semba mais tradicional, tornando-se uma das principais referências do género e um dos seus maiores divulgadores além-fronteiras. Ao longo dos anos conseguiu construir uma obra emocional com declarações de amor a Angola.

O mais recente álbum, Canções que Fiz Para Quem Me Ama, é exemplo disso: um gesto de gratidão ao povo angolano, à diáspora e à família.

Nos concertos que agora prepara, promete revisitar os primeiros êxitos, criar rapsódias de sucessos e transformar o Coliseu de Lisboa numa verdadeira pista de dança. Promete sobretudo verdade e é isso que faz dele uma voz maior.

Oiça a entrevista na íntegra:

Paulo Flores: "uma das coisas presentes na minha arte são os afetos"

Começaste a carreira aos 16 anos com a edição do primeiro disco, pode dizer-se que a tua ligação à música surgiu logo nos primeiros anos de vida ou que o teu sangue já vinha com "células musicais"? 

Eu acho que sim. O meu avô materno era de Macedo Cavaleiros e tocava guitarra portuguesa. A minha bisavó tocava piano, era do Lobito e fazia marchas do Lobito, do nosso Carnaval da altura. E o meu pai era muito ligado à música, tinha uma discografia de milhares de discos. Foi DJ e nas festas em Angola e cá [em Portugal], também abriu uma, duas, três casas de música africana na altura. Para mim, desde a infância, quando eu ia a Luanda passar as férias grandes com meu pai (porque eu vim [para Portugal] com a minha mãe e as minhas avós), eu sempre cantava por cima dos discos e os discos eram tão variados, desde Alcione, Luís Gonzaga, Amália Rodrigues, Chico Buarque, música brasileira, música latino-americana, música norte-americana, música portuguesa, a música angolana antiga que era o que as minhas avós ouviam muito em casa, em quimbundo, principalmente. E tudo isso foram as minhas influências, então eu nunca pensei em ser outra coisa. 

Lembras-te da primeira vez que ouviste uma música e que tiveste a noção do que era música e de que música era uma coisa boa? 

Eu lembro-me de ser criança e nas férias grandes, em Luanda, uma das vezes, tinha morrido o primeiro Presidente de Angola e em sessenta dias de férias, quarenta e cinco dias foram de luto. E eu lembro-me do meu pai a ouvir Muddy Waters e Blues, nessa altura muito baixinho, enquanto eles e os amigos jogavam às cartas. Aquilo marcou-me bastante, porque era como se eu estivesse a pensar: "Mas nós não estamos a fazer nada de mal. Por que é que temos que ouvir tão baixo?" Essa memória de seis anos de idade, sete anos de idade, é a primeira que eu tenho com a música a entrar na minha vida dessa maneira. 

Agora, passados estes anos, como é que olhas para o teu primeiro disco? 

Eu tive muitos anos em que eu estranhava. Primeiro porque nos dois primeiros discos eu só sabia duas notas, lá menor e mi, e fiz dois discos em duas notas. E depois tudo me estranhava. Eu não gostava de ouvir a minha voz, mas o público desde o início que gostou bastante. É quase como se eu tivesse ficado refém dessas primeiras músicas durante alguns anos. E eu fazia outros discos, com outras propostas, outra abordagem artística. E hoje sou apaixonado por todas elas e irei cantá-las também [nos próximos dois concertos].

Para ti a música começou por ser uma forma de desabafar e uma terapia, ainda é assim? 

Sem dúvida, embora hoje ela seja mais consciente. Ou seja, eu antes fazia as músicas por instinto. Eu nem voltava atrás. Eu pegava na viola e construía melodias com palavras e ia anotando. E às vezes acabava a música em dez minutos, como a Cherry, outro sucesso que eu tenho. Mas depois, com o tempo, eu fui ganhando consciência até da importância social que a música tinha, do impacto que podia ter. E pronto, depois fui tendo filhos e netos... E de alguma maneira ficou tudo um pouco menos espontâneo, porque aquilo era antes de qualquer pensamento, era mesmo instinto. Tanto que algumas músicas minhas que eu fiz com dezasseis, dezassete anos, eu só entendi o contexto político e social já com trinta anos. As pessoas falavam muito, mas eu estava tão dedicado a fazer novas coisas que nunca prestei atenção, exatamente por isso, porque para mim era desabafo, nunca pensei que tivesse esse impacto. 

Tens seis filhos e três netos. A tua família vibra com o teu sucesso? 

Sim, no fundo, acho que uma das coisas que está bem presente na minha música, na minha arte e na minha vida, são de facto os afetos. O meu pai amava-me, minha mãe amava-me, minha avó amava-me, meus primos amavam... Então, eu sinto que a minha música tem essa generosidade que também reflete um pouco do povo angolano, eu acho, nesse jeito alegre de chorar que nós temos... E nessa capacidade de nos reinventarmos sempre.

E daí surgiu este último álbum, o Canções que Fiz Para Quem Me Ama? 

Exatamente. Foi também de uma digressão que fizemos por Angola, em 2024, e onde eu vi exemplos de uma dimensão humana que me impressionaram bastante, mesmo em sítios com poucas condições, a forma como as pessoas nos recebiam e a forma como havia ali uma honestidade bem presente, sempre, quase orgulho, uma postura que tu vias que tinha dignidade, mesmo quando a pessoa não tem muito em termos financeiros ou materiais, mas que tu entendes que existe ali uma sociedade que se salva e que se ajuda e que procura por dias melhores. Isso foi bastante inspirador e foi daí que eu fiz novas músicas de amor a Angola e ao povo angolano também. 

É uma forma de agradeceres também a toda a gente que te segue?

Sim, porque eu muitas vezes cantei e criei personagens de uma vida que não vivi, mas aos poucos fui descobrindo essas pessoas e hoje é com elas quase olhos nos olhos que lhes agradeço nas músicas e nas canções. 

Uma das canções que compõe o disco Canções que Fiz Para Quem Me Ama, chama-se "Luz e Fé" e começa com a frase: "Nossa maneira de ser." Como é a maneira de ser de um angolano?

No fundo, eu acho que é isso que eu tento cantar, motivos que nos façam não só sentir orgulho de existirmos, de sermos. Se calhar hoje é mais consciente, como disse há pouco, mas no início não, era mesmo a minha forma de nos representar. Já são alguns anos, no fundo, é como se estivéssemos a crescer juntos como sociedade e a minha música também retratando algumas coisas que nos foram acontecendo e vitórias, derrotas, mas tudo é feito um pouco com essa generosidade que eu recebo. Eu sinto-me privilegiado por ter sentido, de facto, feedback muito positivo, porque eu não contava. A primeira vez que eu fui a Luanda cantar, eu pensei que ia ser convidado de um grupo que era o Raízes, que tocava com o Raúl Indipwo e quando eu cheguei lá eles foram buscar-me ao aeroporto com as rainhas do Carnaval e puseram-me flores (como no Havai) aqui no pescoço. Depois pediram para ir para o palco e tinha milhares de pessoas à frente. E foi assustador porque eu não fazia a mínima ideia que alguém me pudesse ouvir. Esse era o primeiro disco ainda. Então foi tudo acontecendo na minha vida, muito assim. 

Este disco tem também uma música para Sara Tavares. Chama-se Estrela. Como é que a Sara marcou a tua vida? 

De muitas maneiras. Tive a sorte e o privilégio de ser amigo, de estarmos juntos em casa várias vezes, muitas vezes fora dos palcos, mas essencialmente a sua pureza, a sua delicadeza, mas também a forma como ela era dura naquilo que queria, percebes? Acho que ela lutou de uma forma doce por aquilo em que acreditava. E a mudança toda que ela faz como ser humano e como africana, eu acho que é uma batalha que acaba por ser feita com flores, com melodias, com uma doçura que só ela conseguia transmitir-nos. E esta música, a Estrela, eu fiz quando a mana Sara já estava bem avançada na sua doença. E eu fiz inicialmente, eventualmente para ela cantar. Eu liguei-lhe para ela me ajudar a fazer a letra, porque eu queria que fosse em crioulo, mas depois eu continuei a fazer isso e as palavras parece que me empurravam a fazer a música para ela. Então fui fazendo sempre para ela e ainda cheguei a mandar-lhe, mas nessa altura eu acredito que ela já não tivesse em condições de ouvir. Mas pronto, está aqui representada e estará para sempre no meu coração e de muita gente.

És considerado o embaixador do semba. Era o que tu querias ou está a ser como idealizaste?

Eu acho que sim, porque eu no início lembro-me que nunca quis ser o maior do mundo ou coisas do género. Eu, sinceramente, sempre quis ter a liberdade de fazer o exercício, de criar algo em que eu acreditasse e que se calhar eu queria que vinte, trinta anos depois, de alguma maneira, as pessoas respeitassem o meu percurso. Mesmo quem não gostasse, que entendesse que existe ali uma forma séria de mostrar e de me expor e de falar dos meus. E acho que isso foi conseguido até bem mais do que eu esperava, porque de facto tenho testemunhos de pessoas que falam sobre o impacto da minha música nas suas vidas, que é absolutamente incrível.

Para quem não sabe de todo o que é o semba, consegue-se explicar ou só dançando ou tocando? 

Não, eu acho que não. Quando eu comecei a gravar semba em 1994/1995, muita gente, mesmo os cantores mais velhos, antigos, diziam: "Épah, não vale a pena fazeres isso, que ninguém vai ouvir." E aquilo ainda me chamou mais à atenção. E acho que nós temos que ter esse posicionamento em Angola, de começar, e acho que já começamos, a gostar das nossas coisas e a fazer delas algo com esse valor. Neste momento existe uma candidatura do semba para Património Cultural Imaterial da Humanidade, mas essencialmente começam a aparecer grupos, bandas, conjuntos que tocam o semba, as rumbas, a música da Angola em vários locais. E isso tudo acho que é o semba que está a começar a ser cada vez mais pungente. Mas a história do semba vem principalmente da música étnica, dos nossos carnavais antigos e que tinha uma formação com os batuques. Essa origem do semba também migrou bastante com os nossos escravos para os Estados Unidos da América, para o Brasil, e ali nas suas vivências, criaram-se outros géneros musicais, desde o próprio samba e o forró. 

Sentes que tens a responsabilidade de continuar a mostrar ao mundo a cultura angolana?

Sim, mas acho que tem muitos outros artistas que começam a aparecer e que têm feito também esse trabalho e acredito que façam bem mais. Eu acho que, de alguma maneira, eu já deixei muita informação importante para quem quiser, aos próximos. Sinto vontade de fazer, até porque tenho muitas músicas guardadas, outras já gravadas, mas não sinto urgência, nem como se me faltasse fazer, entendes? Sinto é uma vontade de estar ativo, de estar próximo das novas gerações, de entender e de contribuir, mas sem essa de ter que ser assim. 

Vais celebrar os 38 anos com um concerto na Casa da Música, no Porto, a 28 de fevereiro (já esgotado), outro no Coliseu de Lisboa, a 5 de março. Vais ter convidados? O que é que podes dizer?

Posso dizer que vai o Micas Cabral, que cantou pela primeira vez comigo neste disco. É o líder dos Tabanka Djaz, da Guiné-Bissau, que é um grande intérprete. E o Yuri da Cunha, que também é um irmão meu e que temos muitas músicas juntos. No Coliseu de Lisboa, a ideia é mesmo fazer [pista de dança] com a plateia em pé. Temos o balcão e os camarotes para quem se quiser sentar, mas normalmente quando há shows no Coliseu, as pessoas dizem sempre que com as cadeiras não se podem levantar, porque tem pessoas atrás. Então, desta vez, nós vamos fazer para as pessoas dançarem. Até porque eu desta vez, estou a montar algumas rapsódias como aqueles cantores mais velhos que cantam trinta músicas em duas horas. É um pouco essa a ideia, conseguir juntar sucessos que eu, muitos nunca os cantei, outros as pessoas pedem bastante. Vai ser uma viagem pelos trinta e oito anos e pelos primeiros sucessos.

E depois dos aplausos o que é que fica? 

É a gratidão. E, no fundo, nós somos aquilo que nos sobra depois de todos os aplausos. E isso tem a ver com as coisas simples do dia a dia, das pessoas que amamos e que nos fazem continuar a escrever e a criar. 

Como é que descreves estes trinta e oito anos de carreira? 

Essencialmente, muita, muita gratidão por ter percebido o impacto que a minha música tem na vida de tanta gente e continuar a ter este prazer em fazer o que amo. 

Chegar aqui e ter os mesmos valores, as pessoas importantes para mim são as mesmas, as memórias também. Quer dizer, eu acabei por viver a vida que era a minha. E chegar aqui e lembrar-me disso tudo com esse prazer, acho que é a principal conquista.