Peculiar recria Zeca Afonso: "os 'vampiros' escondem-se mas estão sempre lá"
Entrevista ao músico de Faro que lança versão da canção 'Os Vampiros' para celebrar os valores de Abril.
O músico farense João Nicolau Quintela, conhecido por Peculiar, lança esta sexta-feira (25 de abril) uma versão de uma das canções mais emblemáticas da luta contra a ditadura do Estado Novo.
O desafio foi reinventar 'Os Vampiros', a primeira canção de teor político que Zeca Afonso editou e que data de 1963.
A versão de Peculiar chega como "um manifesto artístico que honra o passado, reflete o presente e convoca à ação - mantendo vivo o espírito do 25 de Abril", conta o comunicado de imprensa que descreve a nova abordagem a um dos grandes símbolos das cantigas de intervenção que marcaram a luta pela Liberdade.
O single faz parte do segundo EP do artista - intitulado "E No Sétimo Dia Deus Criou" - com edição agendada para o final do último semestre do ano. A versão 'Os Vampiros' é a quarta faixa do EP a ser partilhada, depois de 'Mão Morta', 'Adamastor' (tema que Peculiar levou ao Festival da Canção em março) e 'João Pestana'.
O videoclipe, realizado por Maria Beatriz Castelo, está disponível, a partir das 10h00, nas plataformas digitais.
"A escolha de um dos temas mais marcantes da história e da música portuguesa vem do enquadramento místico e histórico que o artista tem vindo a retratar nas suas canções: a mitologia popular portuguesa", além de servir como homenagem à liberdade e ao Zeca. Com uma sonoridade urbana e contemporânea, mas fortemente inspirada pela tradição da cantiga de intervenção, o artista recria, dentro da sua peculiar sonoridade, a crítica social e política original de Zeca Afonso, uma das suas maiores influências", continua a nota.
"A nova interpretação mantém o simbolismo da metáfora dos 'vampiros' - figuras de poder que exploram os mais vulneráveis -, transportando a mensagem para o contexto atual de polarização, repressão e desigualdade, amplificados pelas redes sociais e pelo clima político global. Para Peculiar, esta homenagem é também profundamente pessoal: os seus avós tiveram um papel ativo na resistência à ditadura, tornando o 25 de Abril uma data com significado íntimo e histórico, acrescenta o comunicado.
Porquê a escolha deste tema entre todo o repertório de Zeca Afonso?
Acho que de alguma forma teve a ver com o projeto que tenho agora em mãos. A canção enquadra-se no próximo trabalho que vou lançar, que é o EP "E No Sétimo Dia Deus Criou". É um EP que passa por temáticas relacionadas com a mitologia popular portuguesa. E os vampiros acabam por fazer parte dessa temática.
Além disso, é um tema que esteve sempre muito presente na minha vida. O Zeca Afonso influenciou-me muito musicalmente. Posso dizer que me influenciou até de uma forma inconsciente. Quando estava a criar a minha identidade artística fui explorar a música que ouvia quando era criança. E percebi que, embora na altura os meus pais não fossem pessoas que consumissem muita música, escolhiam canções do Zeca para me embalar. Eu até pensava que eram canções inventadas, só mais tarde é que entendi que afinal eram criações do Zeca. Foi então que comecei a debruçar-me sobre o significado dessas canções. O tema 'Os Vampiros' está presente na minha vida desde a altura em que percebi o significado do 25 de Abril. E é uma canção da qual gosto muito. Gosto da forma como o Zeca Afonso conseguiu trabalhar subliminarmente a mensagem política. O recurso ao disfarce para contornar a censura sempre foi algo que me fascinou. É uma linguagem poética que retrata algo muito visível e palpável da vida real. E depois sinto que é uma canção que me aproxima muito das histórias que os meus avós me contavam sobre o 25 de Abril. Aproxima-me das experiências que eles viveram no tempo da ditadura. Da altura em que tiveram de fugir ou de quando se esconderam da PIDE. É tudo isto aliado à temática do meu novo EP, em que falo da mitologia e da cultura portuguesa mas também da parte mágica ou fantástica do dia a dia que depois pode ser aplicada a coisas reais. Tal como a música do Zeca.
E como foi recriar o tema com a tua assinatura, com a tua identidade?
Por norma, gosto de dar um lado mais cinematográfico ou orquestral às minhas canções. Foi o que tentei fazer com este tema, dentro do universo vampiresco. Tentei transformar uma canção que, embora mais despida, já tinha tudo - a letra, a melodia e a mensagem. Dei-lhe uma vestimenta mais vampiresca e inspirei-me na forma como o cinema retrata os vampiros. Eu e a [produtora] Cozy tentámos dar-lhe um toque mais contemporâneo.
Já que falamos em transpor a canção para o presente, como é que a mensagem pode ser transposta para os dias de hoje?
É uma canção intemporal. De uma forma ou de outra, vai refletir sempre determinados problemas. Questões políticas, problemas sociais. Acho que quando resolvemos certos problemas aparecem outros. Atualmente, estamos a viver um período muito instável. O facto de estarmos a celebrar o 25 de Abril tão perto da queda do governo até acaba por ser simbólico. A verdade é que não podemos tomar nada como garantido. Lutámos muito pelo cenário democrático que temos atualmente. Um cenário em que temos voz para expressar a nossa opinião. Não nos podemos esquecer de como era antes. Acho que estamos a viver uma época de grande polarização. E depois há as redes sociais e os conteúdos que são feitos para chocar e para atrair a atenção negativa das pessoas. Os vídeos espalham-se e espalha-se o extremismo, sobretudo na ala mais à direita. Acho que tudo isto reflete a mensagem da canção. As ameaças à democracia e à liberdade de expressão mantém-se simplesmente têm outros nomes e outras "vestimentas". Os "vampiros" escondem-se mas estão sempre lá. São criaturas imortais, vão-se renovando. Temos de preservar muito bem o que queremos para o país, a expressão política queremos ter. Acho que no fundo todos queremos um espaço onde possamos ter a liberdade de sermos nós próprios. Onde possamos falar e onde possamos ter opiniões diferentes. Um espaço em que possamos discordar e que no fim vença a maioria.
Como é que o legado do Zeca Afonso (e tudo o que este legado simboliza) chega à tua geração?
Falo por mim mas sinto que está cada vez mais imortalizado. É um ídolo para mim. Foi um homem que perante tantas adversidades teve integridade, força e coragem. Teve uma opinião política numa época em que não era seguro ter uma opinião contrária à do Estado Novo. Fazer isso era arriscar a vida. Acho que muita gente da minha geração vê o Zeca Afonso e todos os artistas que fizeram música de intervenção como símbolos imortais da luta pela liberdade e pela liberdade de expressão. É bom que estes símbolos estejam presentes sempre que celebrarmos o 25 de Abril. As homenagens que lhes fazemos mostram a admiração que sentimos pelos sacrifícios que fizeram e pela luta que travaram para que nós consigamos estar onde estamos hoje. A nível musical, acho que o Zeca foi uma figura extremamente interessante. Além de cantar e escrever de uma forma lindíssima, conectava-se com as pessoas. A forma como ele cruzava as palavras e a melodia tocava as pessoas. Acho que também ficou imortalizado por isso.
