Pedro Abrunhosa levou o Cante Alentejano, amor, paz e pontos de luz ao Coliseu de Lisboa 

O músico subiu ao palco com o grupo dos Camponeses de Pias, com as canções que nos tem dado ao longo do tempo e com os seus Comité Caviar. 

Pedro Abrunhosa encantou-se pelo Cante Alentejano há uns bons anos. Já na altura do disco "Viagens" (lançado em meados dos anos noventa), o músico portuense tinha vontade de enaltecê-lo com recurso à sua própria forma de estar na música. "É a mais suprema forma de arte popular em Portugal. Porque é muito genuína e está muito ligada à ancestralidade, à própria terra e ao presente", diz o próprio no documentário que relata a viagem que recentemente fez com o Comité Caviar e o grupo dos Camponeses de Pias a alguns pontos da Europa. 

O profundo respeito pelo Cante Alentejano e a vontade de encaixar essa tão sublime forma de expressão popular no seu próprio cancioneiro permaneceram. Pedro Abrunhosa esperou, contudo, que a ideia apurasse. Quis amadurecê-la e deixar que o seu ciclo artístico determinasse a altura certa para cruzar as duas linguagens.

O Coliseu dos Recreios, em Lisboa, foi uma das salas  que acolheu o aguardado cruzamento das diferentes existências musicais, que ontem coexistiram em vários pontos do concerto. O alinhamento andou pelas canções que toda a gente sabe de cor, embora remexidas para a ocasião, mas fez paragens nos temas mais frescos que vão integrar o novo disco, ainda sem nome, que vai chegar em breve. 

De casaco azul, Pedro Abrunhosa entrou sozinho no palco. Depois de se debruçar para dar o corpo a uma elegante vénia, assumiu o posto ao piano para cantar 'A.M.O.R.', que entregou ao público quase na forma da spoken word. 

A sala lisboeta escutou depois a recente 'Que o Amor te Salve Nesta Noite Escura', que o músico e compositor escreveu em apenas dois dias como reação imediata e instintiva ao conflito na Ucrânia. Agora já tinha as vozes das Patrícias (Patrícia Antunes e Patrícia Silveira) a acompanhá-lo no palco.

A 'Balada de Gisberta' veio a seguir e ganhou forma de manifesto. Ao som do piano e com leves acordes à guitarra, a voz da canção insurge-se contra a intolerância, a violência e a trágica falta de empatia humana. É a canção que lembra Gisberta Salce Júnior, a mulher transgénero que, em 2006, foi brutalmente assassinada, no Porto, por um grupo de adolescentes. 

"Boa noite, Lisboa", disse Abrunhosa quando saudou o público pela primeira vez. "Talvez um dos maiores atos políticos seja vir assistir a um espectáculo", acrescentou, por esta altura já debaixo de aplausos.  

"Os meus pais partiram há dois anos. Amaram-se ao longo de 70", confidenciou-nos antes de começar a cantar 'É Sempre Escuro Antes de Amanhecer'. Partilhou a perda com a bonita canção que fez para eles, ainda ao comando do piano e acompanhado pelo som da guitarra que ecoava acordes de saudade.

Era agora a altura para a entrada do Grupo Coral e Etnográfico Os Camponeses de Pias (grupo de Serpa). Os vários elementos do coletivo alentejano foram-se posicionando no palco quando o coliseu lisboeta escutava 'Deixas em Mim Tanto de Ti' pela voz de Abrunhosa. Assim que pegaram na canção, com as vozes e os corpos alinhados, os cantores de Serpa arrancaram um sentido aplauso de respeito do público, que se desdobrou em vários momentos ao longo do espetáculo. 

A balada 'Momento (Uma Espécie de Céu)', do disco "Momento" de 2002, transformou-se, de forma surpreendente, para as vozes do grupo alentejano. A canção serviu também de homenagem a Rui Nabeiro, o fundador da Delta que faleceu recentemente. O aplauso foi com o público em pé, a saudá-lo. 

 

Os Camponeses de Pias continuaram em cena e seguraram nas vozes 'Ó Minha Mãe' e 'Tenho Saudades Mais Nada', agora já como todos os elementos dos Comité Caviar no palco. 'Fazer o Que Ainda Não Foi Feito', que veio a seguir, serviu para agitar a sala e para reafirmar a urgência pela paz, condição fundamental para a Humanidade mas que, paradoxalmente, custa a chegar a todos os cantos do mundo.

"A palavra mais importante desta noite é paz", disse Pedro Abrunhosa. "És o maior", escutou-se num dos cantos da sala.

Ao longo da noite, Pedro Abrunhosa ia tendo o cuidado de explicar as histórias das canções. Contou que o emotivo 'Leva-me Para Casa' resultou de histórias trágicas de luto. "É a música que dediquei a três amigos meus que perderam os filhos durante a pandemia. A melhor maneira de expurgar uma dor dessas é através da música. Foi o que fiz", contou. O clássico 'Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar' seguiu-se no alinhamento e 'É Preciso Ter Calma' transportou os que estavam na sala para o aclamado "Viagens", de 1994, álbum que voltou a ser lembrado um pouco mais tarde com «Não Posso Mais' e 'Socorro'. 

O funky 'Acima & Abaixo, do disco "Tempo" de 1996, mereceu uma empenhada coreografia dos Comité Caviar, com destaque para as teclas “desvairadas” de Cláudio Souto, e para um comboio animado, formado por todos os músicos que estavam no palco.

'Amor em Tempos de Muros' e 'Devias Vir Salvar-me' (outra novidade) anteciparam uma nova ode/apelo à paz que Pedro Abrunhosa foi buscar ao espólio do cantor e compositor Leonard Cohen. 'Hallelujah', original de 1984, foi dedicada a todas as mães que, com o coração estilhaçado, vêem os seus filhos partir para a guerra. Mães ucranianas, mães russas, disse o músico, consciente de que as lágrimas não têm lados ou nacionalidades.

A canção 'Não Posso Mais', que está a celebrar 29 anos, chegou energética, embora mais densa, e culminou num despique saudável entre os elementos da secção de sopros. Socorro, que arrancou de forma dengosa e nas vozes das Patrícias, mereceu um solo do baixo de Miguel Barros. Foi também aqui que a banda e as duas vozes femininas visitaram o clássico ‘Stayin Alive’, dos Bee Gees, momento que teve direito a um imediato reprise.

O poderoso 'Ilumina-me' foi espalhando, aos poucos, as luzes dos telemóveis pela sala. Quando a canção se agigantou para o grande final, as luzes do coliseu acenderam-se, iluminando o momento. 

Pedro Abrunhosa guardou mais uma mão-cheia de canções para o encore. As tradicionais 'Lavoura' e 'Alentejo, Alentejo' voltaram a enaltecer a força das vozes dos Camponeses de Pias e a relembrar que o Cante Alentejano, Património Cultural Imaterial da Humanidade, é um dos nossos maiores tesouros culturais.

'Para os Braços da Minha Mãe' arrancou aplausos, suspiros e enterneceu os que ali estavam, sobretudo quando a voz do elemento mais novo do grupo alentejano ecoou, com pureza e firmeza, pela sala, dando ainda mais força emocional à canção. 

Ainda houve tempo para um tema novo, como estatuto de estreia, e uma menção à escritora Lídia Jorge. Lua e 'Tudo o Que te Dou' - os últimos pontos de luz da noite - foram os pontos finais. 

O espetáculo terminou com todos em cima do palco e com dois agradecimentos. Os músicos agradeceram ao público no palco e o público agradeceu com uma ovação de pé.