Pedro Duarte saúda "forma ordeira" como decorreu manifestação de ontem
Presidente da Câmara do Porto diz ver com bons olhos inquérito da IGAI à carga policial desta quarta-feira.
O presidente da Câmara do Porto saudou hoje a forma “ordeira” como a manifestação pela habitação que desde sábado tem estado na Praça D. João I decorreu na quinta-feira, bem como o inquérito aberto à carga policial da véspera.
“Gostaria de saudar os organizadores e os promotores pela forma como decorreu essa mesma manifestação. Acho que foi uma manifestação evidente de defesa de causas, que nós ouvimos com muita clareza, mas que decorreu de uma forma particularmente ordeira, correta e dentro dos limites da legalidade. Portanto, eu acho que foi uma boa lição para todos”, afirmou Pedro Duarte (PSD/CDS-PP/IL), à margem de uma ação sobre reanimação na praça em frente à Câmara do Porto.
Na sequência da madrugada de quinta-feira, em que uma carga policial deixou 39 manifestantes feridos, dois deles em estado grave, e um polícia também ferido, a nova concentração arrancou pelas 19:00, tendo atraído cerca de três mil pessoas, muito mais do que as dezenas da madrugada anterior, e desmobilizado pelas 01h20 de hoje.
Pedro Duarte recusou fazer “leitura política” sobre a maior adesão, depois de questionado pelos jornalistas sobre se as declarações de que iria ser “absolutamente implacável” com as tendas, na véspera da carga policial, e a subsequente atuação das autoridades levou a que mais pessoas se quisessem juntar.
“Acho que é ótimo, em democracia, expressarmos as opiniões que entendermos. (...) Sou muito sensível - e reconheço-me - no que é um aumento do custo de vida muito intenso na vida das pessoas, particularmente na área da habitação”, atirou o autarca.
Sobre a abertura de inquérito à atuação policial pela Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI), divulgado já pela comunicação social, Pedro Duarte disse que “tudo o que possam ser inquéritos, vão ajudar”, achando “ótimo”, por ser “muito importante que seja esclarecido, a bem de todos”.
Afirmou não ter razões “para não confiar” nos depoimentos e comunicado da PSP sobre a carga policial, depois de a autoridade alegar que houve “resistência” por parte dos manifestantes, que a negam, e afirmou-se como “um verdadeiro democrata”, e que as autoridades devem defender as leis para proteger a democracia.
Questionado sobre a denúncia dos manifestantes que, já na madrugada de hoje, alertaram para a “infiltração” de elementos de grupos alegadamente de extrema-direita na concentração, afirmou ter questionado as autoridades sobre isso.
“Julgo que a polícia está atenta, porque o Porto não é uma cidade que gosta de extremismos, sejam eles quais forem, extrema-direita, extrema-esquerda”, referiu.
Tendo saudado o inquérito, bem como a necessidade de “transparência”, o autarca não avançou, no entanto, para um inquérito à Polícia Municipal, por não ver, de momento, “nenhuma razão para isso”.
“A intervenção da Polícia Municipal foi essencialmente de acompanhamento. (...) Mas, por princípio, se houver alguma coisa, evidentemente também seguirei essa lógica”, esclareceu.
Os jornalistas questionaram o autarca por várias vezes sobre que elementos foram encontrados entre a concentração que motivou a carga policial, bem como se não estranhou não terem sido detidos quaisquer manifestantes nesse momento, mas preferiu não comentar “matéria operacional da polícia” e que, a haver comunicação desses elementos, essa fosse da parte das autoridades.
“Eu não quero inflamar, é o contrário. A minha intervenção, mesmo que às vezes possa ter sido interpretada doutra maneira, são no sentido de: o Porto é uma cidade pacífica, muito tolerante, que gosta muito da liberdade de toda a gente. Devemos estar focados em dar expressão a quem se quer manifestar, mas não escalar uma conflitualidade que é muito artificial”, destacou.
Lembrou ainda, como tem feito nos últimos dias, a habitação pública na cidade, que tem o maior parque de habitação social do país, mas também mais de 1.500 pedidos em espera.
Na noite de quinta-feira, a partir das 19:00, cerca de três mil pessoas concentraram-se para manifestar pelo direito à habitação, na sequência de uma acampada que começou no sábado e teve intervenção de limpeza municipal na segunda-feira, primeiro, e uma carga policial na madrugada de quinta-feira, depois, da qual resultaram quatro dezenas de feridos, com a organização a garantir ter sido sempre pacífica e a PSP a defender que houve "resistência".
A última concentração deslocou-se, durante alguns minutos, até à Câmara do Porto, em frente à qual o protesto decorreu antes de regressar à Praça D. João I em que tem decorrido desde que começou.
Os organizadores apelaram ao regresso no sábado ao local, com autorização camarária, durante todo o dia, em paralelo com a ação convocada para esse dia pela CGTP, estando a “avaliar” novo regresso já hoje.
