Pelo menos dois mortos no regresso de Mondlane a Moçambique

O regresso ao país do candidato derrotado está a ser marcado pela violência. A investigadora do IPRI Alexandra Magnólia Dias espera Mondlane ajude a acalmar os ânimos.

Venancio Mondlane ainda não tinha chegado a Maputo, capital de Moçambique, e já havia protestos, prontamente reprimidos pela polícia. As autoridades fizeram disparados que vitimaram mortalmente pelo menos duas pessoas. Uma das vítimas é o jovem que foi baleado na cabeça, segundo avançou um advogado em direto na TV Sucesso.

O candidato derrotado, de acordo com os resultados oficiais, chegou ao país durante a madrugada, depois de dois meses e meio a liderar, a partir do estrangeiro, a contestação aos resultados das eleições gerais.

Mondlane chegou ao aeroporto sob fortes medidas de segurança e num comício improvisado prometeu lutar pelo país: “Não estou disposto a aceitar os resultados eleitorais se forem os mesmos que foram anunciados até ao momento. Vou defender este povo e lutar por ele, pela verdade, pela justiça, pelos valores. Eu não fiz esta luta toda para ser chefe, para ter benefícios financeiros ou materiais."

Houve também acusações para o regime, que segundo o candidato “optou por criar uma espécie de um genocídio silencioso” em que “as pessoas estão a ser sequestradas nas suas casas, executadas extrajudicialmente nas matas” e revelou que “estão a ser descobertas valas comuns com supostos apoiantes de Venâncio Mondlane”. “Há um crescimento geométrico de assassinatos”, atirou.

Apesar dos protestos com o seu regresso a Moçambique, Alexandra Magnólia Dias, investigadora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade NOVA de Lisboa, espera que possa acalmar os ânimos de quem contesta os resultados eleitorais.

“Este regresso é fundamental para que não haja uma expansão de motins e de infiltração de esquadrões da morte. (…) É preciso tentar acalmar este clima de agitação política para que não assistamos a uma viragem mais grave e a uma escalada desta violência que na base tem um motivo legitimo que é a contestação e não aceitação da manipulação dos resultados eleitorais por parte do partido no poder”, afirma a investigadora.

Confrontos entre a polícia os manifestantes já provocaram quase 300 mortos e mais de 500 pessoas baleadas desde 21 de outubro, segundo organizações da sociedade civil que acompanham o processo.

Alexandra Mangólia Dias fala do simbolismo deste regresso

Alexandra Magnólia Dias alerta que é preciso garantir a segurança da Venâncio Mondlane, sob pena do candidato derrotado correr risco de vida, e considera que este regresso está carregado de simbolismo: “É um enorme ato de coragem. Em termos de observadores externos há uma responsabilidade em garantir que o destino de Mondlane não é semelhante ao de Alexei Navalny, que de patriota passou a mártir. Esperamos que este regresso não seja seguido de atos que tem precedentes em Moçambique de eliminação de opositores."

A contestação aos resultados das eleições gerais de 9 de outubro de 2024 tem estado agitado o ambiente político e social de Moçambique.

Em 23 de dezembro, o Conselho Constitucional, última instância de recurso em contenciosos eleitorais, proclamou Daniel Chapo, candidato apoiado pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo, no poder), como vencedor da eleição presidencial, com 65,17% dos votos, bem como a vitória da Frelimo, que manteve a maioria parlamentar. Venâncio Mondlane, candidato apoiado pelo partido Podemos, ficou-se pelos 24,19% dos votos.