Petróleo dispara mas impacto económico depende da duração da guerra no Irão

A inflação deverá subir em março.

O conflito entre o Irão e os EUA e Israel está a ter impacto nos preços do petróleo, com o barril de Brent acima dos 100 dólares, mas os efeitos macroeconómicos vão depender da duração desta guerra, segundo analistas.

De acordo com uma análise do BNP Paribas, o conflito no Irão "já está a ter um impacto significativo nos preços da energia, particularmente petróleo e gás", pelo que a inflação deverá subir em março.

"Além disso, a perspetiva dependerá da evolução do conflito, mas a situação permanece altamente incerta", de acordo com a análise, sendo que na maioria dos cenários, haverá pelo menos um impacto adverso temporário.

O BNP Paribas desenhou três cenários face à incerteza atual, com o primeiro a apontar para um regresso à normalidade no mercado num espaço de semanas, o segundo a prever um período de incerteza prolongada no Irão, com subidas moderadas, mas sustentadas do preço do petróleo e o terceiro a envolver uma escalada com bloqueio do Estreito de Ormuz, atirando o barril de Brent para picos de 130 dólares no segundo trimestre, o que representaria um choque estagflacionista (menor crescimento e maior inflação).

Uma análise da Xtb notou também que os preços do petróleo "estão a subir fortemente na sequência dos ataques às infraestruturas petrolíferas iranianas e das medidas de retaliação que agravaram o conflito".

O WTI está a subir mais de 15% para 104,50 dólares por barril, atingindo os 117 dólares por barril, enquanto o Brent está a subir numa escala semelhante para 108 dólares por barril.

"A reação em alta nos preços reflete os receios de um grande choque de abastecimento após o encerramento efetivo do Estreito de Ormuz", indicou a Xtb, acrescentando que passam por esta rota cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia.

Os analistas antecipam uma semana muito intensa, "não só por causa do calendário macroeconómico, mas também devido ao aumento das tensões no Médio Oriente", sendo que o aumento dos preços do petróleo desde o início do conflito aumentou a pressão inflacionista e o regresso dos problemas de inflação é "atualmente uma das maiores preocupações do mercado".

Vladimir Oleinikov, analista quantitativo sénior da Generali AM, também destacou, numa nota de análise, que os mercados iniciam mais uma semana condicionada pelos acontecimentos no Médio Oriente.

"Após a recente nomeação do novo 'ayatollah' iraniano, e contra as pretensões dos Estados Unidos, os mercados iniciam a semana descontando que a guerra no Médio Oriente se prolongará no tempo", o que "já se reflete nas principais classes de ativos, e muito especialmente no petróleo Brent, que já ultrapassa os 100 dólares/barril, uma cotação que não atingia há muito tempo".

O analista ressalvou, ainda assim, que o histórico mostra que os "choques relacionados à energia normalmente provocam apenas quedas de curta duração no mercado de ações".

Nos dois primeiros meses após tais eventos, as ações americanas e da África Oriental caíram em média 3,5% e 4,6%, com quedas máximas de 4,5% e 8,6%, mas após esse período inicial, o desempenho tende a recuperar e "em três meses, os retornos já eram positivos", concluiu.

Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe, salientou, por sua vez, que o conflito entrou na sua segunda semana e não existe um caminho claro nem um calendário previsível para um cessar-fogo, pelo que "não é surpreendente que os 'traders' de petróleo estejam a incorporar nos preços um cenário futuro de redução da oferta, o que está a resultar em preços mais elevados".

"Esta dinâmica tenderá a intensificar-se quanto mais tempo o conflito se prolongar sem uma perspetiva realista de resolução, criando margem para novas subidas no preço do barril", alertou.

Já Henrique Valente, analista da ActivTrades Europe, destacou que os investidores estão também atentos à reunião do G7, sendo que, numa tentativa de conter a subida do petróleo, os ministros das Finanças do G7 anunciaram que vão reunir-se hoje para discutir uma possível libertação de reservas estratégicas.

Os EUA e Israel lançaram em 28 de fevereiro um ataque militar contra o Irão, tendo matado durante a ofensiva o 'ayatollah' Ali Khamenei, líder supremo do país desde 1989.

O Irão encerrou o estreito de Ormuz e lançou ataques de retaliação contra alvos em Israel, bases norte-americanas e outras infraestruturas em países da região como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Líbano, Jordânia, Omã e Iraque.