Picas: "a música está sempre lá quando se está a mudar o mundo"
A cantora e compositora edita o álbum de estreia em maio.
Picas partilhou recentemente a canção 'Quem Eu Quero Agora', mais um tema que antecipa o álbum de estreia da cantora e compositora com lançamento marcado para o mês de maio.
A artista portuguesa assume a escrita de todas as canções do primeiro registo discográfico que assina, álbum que conta com faixas como '7+7=14', 'Promessas' ou 'Última Vez'.
O novo tema chega como uma "proposta de autorreflexão sobre a duração e a intensidade de momentos partilhados com alguém próximo", conta o comunicado de imprensa. "Em 'Quem Eu Quero Agora', Picas traz as "palavras munidas de uma sonoridade urbana, onde a eletrónica cria espaço para refletir sobre a mensagem emocional que começa no perdão e viaja até à autorreflexão, revelando vulnerabilidade. Na intimidade do quarto, a artista compôs a música, partindo de uma ideia na guitarra e mais tarde juntando a participação de músicos como Bonança (guitarras) e Guilherme Melo (bateria), além da produção de Jon", acrescenta o comunicado. O videoclipe conta com a realização de Victor Hugooli e a produção da Nefelibatas Films.
Picas, natural do Porto, licenciou-se em Ciências da Comunicação com especialização em Cinema. A cantora e compositora estudou Jazz no Hot Clube de Portugal, "tendo tido sempre a escrita como sua companheira".
Oiça a entrevista completa à cantora e compositora:
Vamos primeiro aos teus quinze anos…
Vamos.
Não foi assim há tanto tempo…
Essa pergunta parece um pouco assustadora… (risos)
Pois é. Comecei com um tom um pouco dramático. (risos) Mas sei que começaste a escrever quando eras muito nova. Tinhas quinze anos quando escreveste a primeira canção, certo?
Sim. Eu sempre gostei muito de escrever. Já escrevia antes de compor essa canção. Quando aprendi a escrever, arranjei logo um diário. Sempre tive uma grande paixão pela escrita e sempre adorei música. Mas, na verdade, acho que comecei a tocar porque queria escrever. Não queria cantar coisas dos outros. Queria escrever coisas minhas. Essa vontade foi o meu ponto de partida. Entretanto, comecei a aprender alguns acordes na guitarra do meu irmão, que na altura fazia parte de uma tuna académica. Assim que aprendi os cinco acordes mais básicos, comecei logo a escrever. Ainda nem sabia tocar bem esses acordes e já queria escrever.
Mas o que é que querias expressar nessa altura? Era uma espécie de diário musicado?
Sim. Acho que sim. Era um diário, sim. Escrever e compor, para mim, sempre funcionou como terapia. Se há algo que me incomoda, escrevo sobre o assunto. É uma catarse. Sai e deixa de incomodar. Deixa de estar ali aquele grão de areia. Acho que sou uma pessoa intensa e já o era na fase da adolescência. (risos)
Essa intensidade também faz parte de ser artista, certo?
Sim. A Rita Lee costumava dizer: "eu gosto muito de mim, mas é muito difícil ser eu".
Sim…
Acho que é uma frase muito gira. E é um pouco por aí. Eu gosto de sentir as coisas à flor da pele e de ser intensa, mas há dias em que é difícil lidar com isso. Mas gosto de ser assim. Acho que ser assim é o que faz com que eu tenha a necessidade de encontrar um escape na escrita.
É, de certa forma, um privilégio poder cristalizar a intensidade das tuas emoções em canções. E ainda pode haver muita gente que se identifica com o que escreves…
Sim. Isso é verdade. E é muito compensador. Afinal de contas, estamos a escrever uma coisa que é muito nossa, mas acaba por ajudar outras pessoas. O 'Volta Para Mim' [com o Agir], que é um dos primeiros singles que lancei, foi uma das canções mais difíceis de escrever porque a letra é sobre um amigo meu que faleceu. Era um dos meus melhores amigos e tinha a minha idade. Essa canção surgiu de um lugar de sofrimento, de luto. Foi muito difícil escrevê-la. E, muitas vezes, ainda recebo mensagens de pessoas que estão a passar por fases de luto. Podem ser histórias diferentes, mas há identificação. As pessoas sentem que aquela canção as ajuda. E isso é muito compensador.
É um lugar de conforto, não é? E quando eras mais nova ias procurar conforto a que canções? O que é que ouvias quando começaste a descobrir música?
Eu sempre ouvi um pouco de tudo. Quando estava a crescer, gostava muito de ouvir os discos de música brasileira que a minha mãe tinha lá em casa. Mas também ouvia álbuns de jazz. Sempre gostei imenso de jazz, tanto que acabei por ir estudar para o Hot Clube. Mas também amava indie-rock. Adorava ouvir Arctic Monkeys, The Vaccines e todas essas bandas desse universo. Ao mesmo tempo, sempre tive muito respeito pela música pop. Sempre gostei de ouvir música mainstream desde que seja bem feita e que eu ache que é feita com bom gosto. Na verdade, sempre ouvi um pouco de tudo. Sei que é uma resposta dada por muita gente, mas no meu caso é mesmo verdade. Só existem dois estilos musicais que não tenho o hábito de ouvir: o metal e o reggaeton.
Como disseste, o teu percurso passou pelo Hot Clube. Como foi essa experiência? Sentiste que tinhas necessidade de explorar essa vertente musical?
Na minha família ou no meu meio nunca tive ninguém envolvido no mundo da música. Eu adoro música, mas não sou daquelas pessoas que nascem numa família de músicos. Também não tenho ninguém mais próximo que seja músico. Não, nada. Absolutamente zero.
Só tinhas o teu irmão numa tuna, certo?
Só tinha o meu irmão na tuna. Era a única coisa. Exatamente. (risos) Tinha a música dentro de mim mas não tinha explorado assim tanto esse meu lado. Não acreditava que fosse possível viver da música, fazer da música uma profissão. Mas tinha um bichinho muito grande. (…) Sempre que ia ver concertos tinha a sensação que conseguia fazer aquilo. Sentia que queria estar ali. E isso foi crescendo ao ponto de se tornar quase uma urgência. Então, quis perceber o que é que podia fazer em relação a isso. Já escrevia, cantava e tocava guitarra, com aquilo que fui aprendendo sozinha no YouTube, mas nunca tinha estudado música. Estava no curso de Comunicação [Social] porque, lá está, gostava muito de escrever. E decidi inscrever-me também no curso do Hot Clube. Queria explorar mais a sério o meu lado musical. Eram bastantes horas de aulas semanais. E depois ficávamos a tocar uns com os outros. Sinto que, enquanto lá estive, entrei numa espécie de imersão. Absorvi imenso durante os anos em que estive no Hot Clube. Tinha muita sede de aprender e vontade de explorar mais a música. Queria ter um maior conhecimento musical.
Antes de falarmos sobre o motivo que te trouxe aqui, que é o teu novo single, quero saber como é que o cinema influencia a tua música. Gostas muito de cinema, não é?
O cinema influencia muito [as minhas canções] e de várias maneiras. Eu adoro a sensação de estar a visualizar a canção que estou a ouvir. Gosto quando a canção é muito visual. E adoro quando os compositores fazem isso. O Chico Buarque faz muito isso. Quando estamos a ouvir uma canção dele, parece que estamos a ver um filme. Ainda ontem estava a ouvir a canção 'A Última Vez', do Tim Bernardes, e aconteceu-me isso. Parece que estava a ver um filme do início ao fim. Acho incrível. Penso muito nisso quando estou a escrever. Mas também acontece o contrário. Os filmes também me inspiram para compor. No álbum que vou lançar em breve há uma canção que se chama 'Priscila' e esse tema foi inspirado no filme "Priscila" [sobre a Priscila Presley] da Sofia Coppola. É uma das minhas realizadoras preferidas. Gosto da forma como ela pega em personagens femininas que ficam um pouco mais na sombra e dá-lhes o destaque. Também o fez com a Maria Antonieta, por exemplo. A Priscila Presley passou a vida na sombra do Elvis, mas a Sofia Coppola deu-lhe o papel de protagonista. Eu gostei muito desse filme. Posso dizer que, de certa forma, é uma farpa porque mexe com questões relacionadas com a posição da mulher, mas fez-me refletir muito.
Sim, sim…
Fez-me refletir muito e é um exemplo de como o cinema pode entrar na minha música.
Vamos então falar da canção 'Quem Eu Quero Agora'. Qual é a história desta canção?
Esta canção é daquelas que não exigem grande esforço, que não são muito pensadas. A canção simplesmente aconteceu. Estava em casa, a tocar guitarra e escrevia o tema de uma forma muito rápida. Acho que vem daquele sítio em que temos de aceitar que nem todas as relações duram para sempre e que está tudo bem. Às vezes, podemos sentir que determinada pessoa é quem queremos em determinado momento, e, mesmo assim, sentir que a relação tem uma espécie de prazo de validade. Mas além disso, neste caso em específico, também é sobre a capacidade de perceber que uma relação já não é particularmente boa. É sobre o momento em que detetamos as chamadas red flags (sinais de alerta), porém, ainda não estamos prontos para deixar ir. Esse processo pode demorar. E, por outro lado, o storytelling da canção tem uma parte de autorresponsabilização que considero importante. Também falo sobre coisas não tão boas da minha parte.
Acho que, muitas vezes, o storytelling das canções de breakup (fim de relacionamentos) foca-se sobretudo no apontar o dedo ao outro. E eu gosto disso. É o que acontece no tema ‘La Perla’, da Rosalía, por exemplo. Eu adoro essa canção, mas a 'Quem Eu Quero Agora' tem uma visão um pouco diferente. Na ponte do tema eu canto, "agarro-me em silêncio e diz que me perdoas, eu estou a tentar ser melhor pessoa". Ou seja, é sobre a ideia de olharmos também para nós e não apenas para o outro. E há alguma vulnerabilidade nisso. É fácil dizer, "tu fizeste isto mal", mas dizer, "eu sei que fiz isto mal e sei que não fui perfeita" é sempre mais difícil. É mais vulnerável.
Mas é essencial. Neste caso, estamos a falar de uma relação romântica, mas vivendo nós num mundo cada vez mais polarizado, em que as pessoas não se escutam e fecham-se nas suas opiniões ou no seu algoritmo, é importante termos a capacidade de "calçar os sapatos dos outros"…
Sim. E eu tinha algumas músicas que eram um bocadinho mais raivosas, de apontar o dedo ao outro. Mas, a ouvi-las, pensei que precisava da autorreflexão do outro lado. Isso é que é a verdade. Faz sentido o que estou a dizer?
Todo.
E eu quero ser verdadeira. É verdade quando aponto o dedo ao outro, porque é a dor que senti. Mas também é verdade ser vulnerável e conseguir dizer que estou menos bem. Estamos aqui para aprender.
Lançaste uma trilogia de singles, com as canções 'Tatuagens', 'Última Vez' e 'Promessas', que vai fazer parte do álbum. Esta trilogia conta uma história, tem uma narrativa…
Sim. Tem uma narrativa. As três canções foram escritas na mesma fase. E as três contam a mesma história.
E essa história, por sua vez, vai encaixar na narrativa do álbum…
É uma história amorosa. Mas o álbum toca também noutros temas. Não é apenas sobre essa história de amor. Fala sobre o que é ser um artista a começar o seu projeto.
O que é, para ti, ser um artista a começar, a editar o primeiro álbum…?
É desafiante, no mínimo. (risos) Por um lado, sinto-me grata por ter a coragem de ir atrás dos meus sonhos. Isto pode soar a cliché e parecer uma coisa pirosa, mas acho que é importante darmos valor a nós próprios. O meu maior medo na vida é um dia mais tarde, já com outra idade, olhar para trás e pensar, “eu não tentei, não fui atrás”. Estou mesmo feliz por estar a lançar o meu primeiro disco e estou satisfeita com o trabalho que tenho feito. Agora, por outro lado, há muitos desafios. Há, por exemplo, o desafio artístico. Eu sempre escrevi as minhas músicas à guitarra, mas quando vamos para estúdio surgem uma série de questões como perceber ao que é que quero soar ou qual é exatamento o conceito que procuro. Às vezes, acaba por ser um exercício de overthinking gigante.
Gostas de cruzar a sonoridade com a mensagem ou fazer alguns jogos entre as palavras e os sons, não é?
Sim. A produção que podemos dar a uma canção pode ser tão diferente. A mesma canção pode resultar em duas canções completamente diferentes. Existem tantas possibilidades que, às vezes, pode ser mais difícil tomar a direção. Nas primeiras idas ao estúdio, quando comecei a gravar o álbum, foi difícil perceber o caminho. Acabou por ser uma aprendizagem gigante. Agora já sei como quero que as coisas soem, o que quero dizer. Então, acho que um primeiro álbum é sempre uma grande descoberta, uma grande aprendizagem. E também há desafios da indústria que nem sempre fáceis. Tenho, aliás, uma música dedicada a essa questão no álbum. A canção chama-se 'Popstar' e, apesar do tom irónico e engraçado, também é uma crítica.
Também é necessário ter a coragem de escrever sem amarras. Sentes que escreves sem amarras?
Sinto, sim.
E num mundo que parece cada vez mais condicionado, isso é ouro…
Há pouco estávamos a falar sobre o facto de eu escrever para me libertar das emoções que sinto. A raiva pode ser uma dessas emoções. Se estiver chateada com algo ou se estiver a testemunhar injustiças no mundo ou naquilo que me rodeia, pego nisso para escrever uma canção.
A Nina Simone achava importante que um artista refletisse os tempos, as lutas sociais na sua arte. Numa altura em que vivemos no meio de tanta dispersão, tens isso assente no teu percurso artístico? Isto é, o não ficares em silêncio perante o que vês.
Sim, eu tenho muita dificuldade em ficar calada e deixar coisas por dizer. (risos) É verdade. Acho que esse traço acaba por se refletir na forma como escrevo que é bastante unfiltered (sem filtros). Mas concordo com a Nina Simone. Uma canção não vai mudar o mundo mas ajuda a mudar mentalidades. Há certos momentos artísticos na História que fizeram parte de revoluções. Não é a música que muda o mundo, mas a música está sempre lá. Ajuda muito. A música está sempre lá quando se está a mudar o mundo.
Como é que a que a tua geração olha para a força interventiva da música antes do 25 de Abril?
Eu gosto muito de História. Acho que na altura da Revolução, a história da música portuguesa é mesmo incrível, com muitos artistas incríveis. Eu gosto imenso do José Mário Branco e das canções de intervenção que ele fazia. A canção de intervenção é algo incrível. E agora temos visto alguns artistas a fazer isso, como é o caso da Garota Não. Vê-se um crescimento desse tipo de música. Eu acho assustador pensar na ideia de existir um lápis azul [censura].
Ou teres de inventar palavras que funcionem como metáforas para a censura não perceber, não é?
É mesmo muito estranho pensar nisso. Há pouco [em off] estávamos a falar um bocadinho sobre a cultura de cancelamento, que é uma coisa totalmente diferente. Não é uma ditadura. Mas acho que, às vezes, dou por mim a escrever uma frase e a pensar: "ai, se calhar isto não é nada politicamente correto e vai ser mal interpretado", mesmo que não seja essa a minha intenção. Não sei se faz sentido o que estou a dizer ou esta comparação.
Sim, sim.
Temos liberdade de expressão, mas também…
Há consequências…
Também existe o medo de sermos mal interpretados, de tocar em temas sensíveis e poder dizer algo de uma forma que não vai ser percecionada como nós desejaríamos. Acontece o mesmo com o sentido de humor. Recentemente, ando a explorar muito mais o sentido de humor na canção. E há coisas que têm piada mas que são território que podem não cair tão bem a outras pessoas.
Se vier de um lugar sincero e se sabes que não querias ferir qualquer tipo de suscetibilidade, que o que pode acontecer é uma má interpretação. Se calhar precisamos de mais calma para refletir antes de julgar…
Sim, sim. Há artistas que eu admiro que, às vezes, dizem coisas mesmo muito arrojadas, mas que eu não interpreto dessa forma. Mas também não se pode agradar a gregos e a troianos. Vai sempre haver alguém que pode ficar ofendido.
A liberdade é tudo. E voltando à Nina Simone, ela também dizia que a "liberdade é não ter medo"…
Gosto bastante da Nina Simone.
Quero saber como é que vais levar o teu disco para o palco? Já sabes?
Sim. Já estou na fase de preparação. Posso dizer que vou atuar com a banda que me acompanha e da qual gosto muito. São grandes amigos e grandes músicos. Gostava que a apresentação ao vivo do disco fosse muito fiel ao que está produzido. Quero que soe ao que está gravado porque estou mesmo muito orgulhosa das produções. E ao vivo também gosto muito de contar a história de cada canção, dar esse contexto ao público.
É um grande sinal de respeito por cada canção…
Sim.
