Pixies: as fotos de ontem no Campo Pequeno

Duas horas de muitos clássicos mas também de muitas canções novas.

Os Pixies apresentaram-se nesta noite, em Lisboa, ao seu estilo: sem rodriguinhos, sem discursos ou palavras, direitos ao assunto. Com uma multidão que compunha muito bem o circular Campo Pequeno, foi-lhes dado os clássicos que tanto gostam: 'Here Comes Your Man', 'Vamos', 'Gouge Away', 'Monkey Gone To Heaven', 'Debaser', 'Hey' ou a penúltima canção da atuação, 'Where Is My Mind?', só para dar alguns exemplos.

A intimidade que os Pixies têm com estas velhas canções permite-lhes trocar-lhes as voltas, mudando-lhe os tempos, nem sempre facilitando a vida aos muitos pixiemaníacos que gostam de cantar todos os versos das músicas tatuadas nas suas almas no momento certo. As canções dos Pixies estão ainda bem vivas e permeáveis à mudança, numa banda que, apesar das obrigações nostálgicas, não quer perder a etica criativa.

É nessa ética criativa que não abdica do zelo de tocar 11 das 12 músicas novas do álbum "Doggerel", que parecem mais um estímulo para a banda do que para o público. Mas há sempre uma música que remói. Vale sempre a pena a obstinação do autor que desafia o público a sair da sua zona auditiva de conforto para sons menos familiares e novos. Claro que há quem aproveite os momentos mais mornos das novas canções para ir buscar uma cerveja, acertar contas fisiológicas ou simplesmente descansar um pouco numa das apertadas cadeiras (para quem estava sentado na bancada).

Sempre ao centro, Black Francis mantém uma boa caixa torácica para berrar e para outras mutações vocais. O guitarrista principal Joey Santiago usa agora a pala do boné para distorcer o seu instrumento elétrico na parte instrumental de 'Vamos'. A baixista Paz Lenchantin é mais discreta que a mítica Kim Deal. E o baterista David Lovering continua a ser o ponteiro de relógio que tem que responder aos tempos e humores do líder Black Francis. Como é apanágio destes monstros do indie rock norte-americano, no risco de alteração de alinhamento de concerto para concerto, o erro técnico está sempre a ameaçar. Black Francis rompe uma corda da guitarra enquanto canta a balada 'Motorway to Roswell' e a banda tem um falso arranque no tema-título do último álbum "Doggerel", mas nada que perturbe aquele andandamento de locomotiva expresso com pouquíssimas paragens. Ao fim de 35 músicas, ninguém reclamou encore. Já não era necessário.

Num lugar privilegiado onde muitos dos fãs dos Pixies gostariam estar, Rúben Viegas teve três músicas para nos mostrar tudo deles e do palco. Cada um pode escolher que detalhes gosta mais de ver, se a madeira gasta da guitarra acústica de Black Francis, se a sua caixa de pedais, se a flor artificial presa no cabo do baixo de Paz Lenchantin, ou os bonés de Joey Santiago e de David Lovering. Mas pouca coisa bate as expressões faciais de Black Francis no olho dos seus furacões vocais... por cortesia de Rúben Viegas, nesta galeria de fotos.