Poemas tornados canções
Camões, Pessoa ou Lispector cantados por Amália, Zeca ou Ney, e mais, numa seleção de 12 temas a propósito do Dia Mundial da Poesia.
Hoje, Dia Mundial da Poesia, selecionamos 12 canções que nasceram de poemas de alguns dos maiores poetas. Muitos destes poemas são arrebatados pela paixão amorosa, outros inspiram-se em certos momentos trágicos da nossa história, como o linchamento popular de negros enforcados em árvores no sul dos Estados Unidos, nos anos 30 (o tema ‘Strange Fruit’, primeiramente cantado por Billie Holiday); a bomba atómica de Hiroshima (‘Rosa de Hiroshima’); ou o fuzilamento de 23 membros da Resistência Francesa durante a II Guerra Mundial (‘L'Affiche rouge’).
Amália Rodrigues, ‘Com Que Voz’ (de 1970), poema de Luís de Camões
Com que voz chorarei meu triste fado
Que em tão dura paixão me sepultou
José Mário Branco, 'Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades' (de 1971), poema de Luís de Camões
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades
José Afonso, 'Comboio Descendente' (de 1972), poema de Fernando Pessoa
No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada
Caetano Veloso, 'Os Argonautas' - a partir de um escrito de Fernando Pessoa
Navegar é preciso; viver não é preciso
Trovante, ‘Perdidamente’ (de 1987) – poema de Florbela Espanca
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Amália Rodrigues, ‘Gaivota’ – a partir de um poema de Alexandre O’ Neil
Que perfeito coração
No meu peito bateria
Meu amor na tua mão
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração
Barão Vermelho, ‘Que O Deus Venha’ (de 1986) – poema de Clarice Lispector (de 1973)
Que O Deus Venha
Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É o inesperado
Secos e Molhados, ‘A Rosa de Hiroshima’ – poema de Vinícius de Moraes (de 1954)
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
Leo Ferré, ‘L'Affiche rouge’ (de 1959) – poema de Louis Aragon (de 1956)
Tout avait la couleur uniforme du givre
À la fin Février pour vos derniers moments
Et c'est alors que l'un de vous dit calmement
"Bonheur à tous, bonheur à ceux qui vont survivre"
"Je meurs sans haine en moi pour le peuple allemand"
[Tudo tinha a cor uniforme da geada
No final de fevereiro para os seus últimos momentos
E é aí que um de vós diz calmamente
"Felicidade para todos, felicidade para aqueles que sobreviverão"
"Morro sem ódio em mim pelo povo alemão"]
Billie Holiday, ‘Strange Fruit’ (de 1939) – poema de Abel Meeropol (de 1937)
Southern trees bear a strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees
[As árvores do sul produzem um fruto estranho
Sangue nas folhas e sangue na raiz
Corpos negros balançando na brisa do sul
Frutos estranhos pendurados nos choupos]
Leonard Cohen, ‘Take This Waltz’ (de 1986) - poema ‘Pequeño vals vienés’ de Federico García Lorca
Este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar
[Esta valsa, esta valsa, esta valsa,
de si próprio, da morte e do conhaque
que mergulha o rabo no mar]
John Cale, ‘Do Not Go Gentle Into That Good Night’ (de 1992) – poema de Dylan Thomas (de 1951)
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light
[Bons homens, a última onda passou, chorando como brilhante
Os seus atos frágeis poderiam ter dançado numa baía verde,
Raiva, raiva contra a morte da luz]
