Portugal está entre os países com menor mortalidade materna, mas "há espaço para fazer melhor"

Relatório da Organização Mundial da Saúde mostra que Portugal está entre os países onde o risco de mortalidade materna se manteve estável nas últimas duas décadas.

O presidente da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e Ginecologia vê como positivo que Portugal esteja entre os nove países do mundo onde o risco de mortalidade materna não diminuiu entre 2000 e 2023, tendo-se mantido estável. A conclusão está num relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) conhecido esta segunda-feira.

Diogo Ayres de Campos diz que “ao longo dos últimos 80 anos” reduziu-se “o risco de mortalidade materna para níveis que é difícil reduzir mais”. O também diretor do serviço de obstetrícia e ginecologia do Hospital de Santa Maria destaca, no entanto, que na última década tem havido “uma ligeira subida da mortalidade materna” em Portugal, devido à “dificuldade que algumas populações migrantes têm no acesso aos cuidados de saúde”.

Ayres de Campos sobre a mortalidade materna nos últimos anos

Ayres de Campos sublinha que esta esta tendência não é exclusiva de Portugal, mas diz que há espaço para melhorar: “Podemos voltar aos números que tivemos há cerca de dez ou 15 anos, quando os acessos eram mais fáceis para todos. Temos muitos migrantes que, às vezes, não têm a capacidade de comunicar adequadamente com as autoridades. Temos assistido a uma redução da qualidade do atendimento devido a um desconhecimento sobre a forma mais correta de aceder aos cuidados de saúde”.

Especialista em obstetrícia e ginecologia diz que é possível fazer mais

O relatório da OMS revela ainda que perto de 92% das cerca de 260 000 mortes de mulheres devido à gravidez e ao parto em 2023 ocorreram em países de baixo e médio rendimento.

“Há uns anos, havia vários países que tinham valores acima de 1 000 mortes maternas por cada 100 000 nascimentos. Atualmente, não há nenhum país que tenha mais de 1 000. Isso é um ganho enorme para a humanidade, mas é claro que continua a haver grandes discrepâncias. Os países da África Subsariana e os do sul da Ásia têm mortalidades maternas muito mais elevados que os países com maiores recursos, sublinha Diogo Ayres de Campos.

O presidente da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e Ginecologia avisa que é preciso fazer mais para reduzir estas desigualdades: “Em muitos países africanos não falta propriamente conhecimento, mas falta a acessibilidade das pessoas aos hospitais. Às vezes são as estradas que não estão transitáveis, a própria cultura faz com que as mulheres quando chegam aos hospitais estão em fases muito avançadas das suas doenças e que já difícil fazer alguma coisa”.