Portugal todo junto por Pedrógão

Espetáculo Juntos por Todos arrecadou mais de um milhão de euros e vai merecer um disco ao vivo.

O Live Aid português aconteceu esta noite no MEO Arena, em Lisboa: vinte e cinco nomes de topo da música nacional atuaram num pavilhão lotado por 14 mil pessoas, numa noite que rendeu mais de um milhão de euros (1 153 000 euros, para sermos mais precisos) em donativos para as vítimas do incêndio de Pedrógão Grande, entregues no final (e em cheque gigante) à União das Misericórdias Portuguesas. Acrescenta-se a isto tudo o facto inédito de vários rádios nacionais (incluindo a nossa) e locais se terem unido na mesma emissão em direto, tal como os três canais de TV abertos: TVI, SIC e RTP.
 
O espetáculo Juntos por Todos vai ainda merecer um disco ao vivo, segundo revelou à rádio Marisa Liz, a vocalista dos Amor Electro, uma das bandas participantes neste evento humanitário.
 
Na quarta fila, sentado ao lado de Ferro Rodrigues (Presidente da Assembleia da República), estava o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, a assistir a uma catadupa de emoções fortes de mais de quatro horas, repleta de atuações e discursos acalorados, que é concluída de forma esmagadora com um momento musical superior do muito ovacionado Salvador Sobral. Fazendo uma ponte entre 'A Case of You' e o eurovisionado 'Amar pelos Dois', a sua flexibilidade jazzística permite-lhe uma elasticidade brilhante ao piano e na voz, com que fez efeitos especiais de trompete (homenagem ao seu ídolo Chet Baker?)… Até que Salvador Sobral tem um momento inusitado destes: "Sinto que posso fazer qualquer coisa que vocês aplaudem. Vou mandar um peido para ver o que acontece". Raramente uma gargalhada é tão geral num pavilhão cheio da grandeza do MEO Arena.
 

 

O Juntos por Todos esteve fadado para vários fados: desde o 'Desfado' de Ana Moura em modo festivo e elegante, ao dueto inter-geracional de dois gigantes como Carlos do Carmo e Camané no sinal de optimismo de 'Por Morrer uma Andorinha'; desde a solenidade suprema de Carminho em «Meu Amor, Marinheiro' acompanhada por um acordeonista, ao fado mais folclórico e bem humorado de Gisela João em 'O Senhor Extraterrestre'; do fado mais bairrista de Hélder Moutinho à maior hibridez actual de Raquel Tavares (de calças de couro muito rock & rollers) a conquistar o palco através de 'Meu Amor de Longe'.
 
Não foi só no fado que houve duetos. Jorge Palma ao piano e Sérgio Godinho tiveram direito a duas canções ajustadas para a ocasião, o despertador de consciência 'Portugal Portugal' (dos tempos do Palma's Gang) e O Primeiro Dia, com um refrão bem entoado pelo público. Luís Represas e João Gil trouxeram as memórias dos Trovante, ou melhor as poéticas 'Memórias de Um Beijo'.  

Mas há mais recordações de um beijo, Rui Veloso lembrou-se do seu 'Primeiro Beijo', que o público do MEO também conhecia bastante bem. Também do pop-rock granítico do Porto, Pedro Abrunhosa lança o alento de que "a tempestade há de passar" no pedido de socorro de 'Toma Conta de Mim', enquanto que Miguel Araújo vai sozinho à guitarra eléctrica ao baú dos Azeitonas para cantar 'Anda Comigo Ver os Aviões'.

Não faltaram baladas apianadas ao longo do espetáculo Juntos por Todos. Agir (o primeiro a atuar) cantou com o público 'Como Ela é Bela', enquanto que David Fonseca despe instrumentalmente à essência 'Someone That Cannot Love'.
 
Houve o rock eletrónico dos Amor Electro, a suavidade pop de Aurea, o romantismo com pézinho de dança do angolano Matias Damásio, o hip hop apopalhado dos D.A.M.A., ou o indie muito feminino de Rita Redshoes (com direito a quarteto de cordas). Mas a diversidade não se ficou pelo palco. Houve também discursos para vários gostos, durantes as curtas entrevistas dos apresentadores João Manzarra, Fátima Lopes e Sílvia Alberto.
 
Se o leiriense David Fonseca falou dos afectos que tem com a região próxima de Pedrógão Grande que bem conhece, Jorge Palma falou da importância da prevenção e Rita Redshoes, ainda mais incisiva, pede responsabilidades políticas em honra dos mortos pelo incêndio. Tudo isto dito com Marcelo Rebelo de Sousa a poucos metros. Raquel Tavares desafia um toque mais humano: ir a Pedrógão dar um abraço àquelas pessoas.
 
Não faltaram grandes aplausos de pé aos bombeiros presentes no MEO Arena, bem como aos locais de Pedrógão Grande e Castanheira de Pêra presentes na sala lisboeta.
 
Portugal mostrou o seu caráter solidário. Dificilmente se repetirá uma noite tão bem sucedida como o Juntos Por Todos.