Português no Bahrain relata dias de tensão: "Estamos tranquilos, mas apreensivos"
No coração do Golfo Pérsico, o ambiente é de aparente normalidade, mas com um pano de fundo de tensão crescente.
O treinador português Vasco Valério, a viver no Bahrain, descreve dias marcados por muita tensão perante o escalar do conflito no Médio Oriente.
“A situação é estranha, mas estamos em segurança”, afirma o técnico, que trabalha no Al Khalidiya SC e que, nos últimos dias, optou por afastar-se das zonas consideradas mais sensíveis. A proximidade à base naval norte-americana, que fica a cerca de sete ou oito quilómetros da sua residência, colocou-o inicialmente numa área potencialmente vulnerável. “O ponto do início é sempre mais complicado, porque ninguém está à espera”, recorda. “Mas depois começaram os alertas. Os alertas começaram antes dos primeiros ataques.”
Apesar de sublinhar que não se trata de ataques diretos ao território onde vive, mas sim de intercetações aéreas, Vasco Valério admite que houve momentos em que foi possível “ver, sentir e perceber tudo muito bem”.
Perante a aproximação dos incidentes a zonas residenciais, tomou a decisão de se deslocar com a mulher e outros portugueses para uma área mais a sul da ilha. “Afastei-me da zona principal e viemos para o meio da ilha, mais para Sul. Nesta zona parece que está tudo tranquilo.”
A possibilidade de abandonar o país está em cima da mesa. “Se se prolongar, teremos de sair do país”, admite. No entanto, a logística não é simples. A saída implicaria atravessar a fronteira terrestre para a Arábia Saudita e seguir depois para cidades como Riad ou Medina, de onde poderiam tentar um voo de regresso.
“São viagens grandes, isso envolve sempre alguma preparação e planeamento. Estamos a fazer essa preparação e a tentar perceber qual a dimensão e a continuidade desta situação”, explica, referindo-se também aos colegas portugueses e respetivas famílias que se encontram na mesma circunstância.
Para já, o grupo está instalado nas infraestruturas do clube onde trabalha, perto do Estádio Nacional, que dispõe de bunker. “Cada família tem um quarto, temos boas condições para estar aqui. Estamos seguros, sem qualquer tipo de problema. É só aguardar e perceber a escalada do que é que vai dar.”
Apesar da tensão, o quotidiano no Bahrain mantém-se relativamente estável, sobretudo entre a população local. “Ninguém bahrainita com quem eu tenha falado se recorda de situações semelhantes”, refere.
Segundo o treinador, as zonas mais atingidas são áreas onde residem maioritariamente estrangeiros, enquanto muitos cidadãos locais vivem afastados desses pontos. “Quando falo com os locais, a vida continua. Continuam a ir trabalhar, os supermercados estão abertos. Há um clima de apreensão e alguma urgência, mas no dia a dia as pessoas continuam a fazer as caminhadas, a corrida ao final do dia.”
Ainda assim, reconhece que a normalidade é apenas parcial. “Claro que não é igual e que dá para perceber alguma diferença, mas não sinto uma calamidade, pelo menos na zona onde estamos.”
A informação chega sobretudo através de canais internacionais e portugueses, já que a barreira linguística limita o acompanhamento dos meios locais. Paralelamente, o governo tem emitido alertas regulares através de notificações nos telemóveis.
A prioridade passa por garantir a segurança da família e avaliar, com prudência, os próximos passos. “Tentar sair daqui assim que for possível, caso seja possível, e perceber a dimensão da situação. Esperar que isto se resolva o mais depressa possível e que não haja mais danos.”
