Portugueses mais agradados com melhorias nos municípios do que no mundo
O estudo do ISCTE mostra que maior parte dos portugueses reconhece melhorias nas condições de vida dos seus concelhos.
A confiança no poder local contrasta com a perspetiva do mundo nos resultados do estudo do ISCTE “Os portugueses, a desconcentração e a descentralização das políticas públicas”.
Apenas 18% vê a evolução na última décado no país e no mundo como positiva, mas quando se fala do poder local a percentagem duplica para 39%. Conversamos com Pedro Adão e Silva, que liderou com Isabel Flores a realização do estudo, para compreender as perspetivas dos portugueses sobre a regionalização.
De onde surge a discrepância entre a confiança nos municípios e nos restantes poderes?
Vem da proximidade. Talvez o dado mais impressionante deste estudo seja a confiança nos municípios e a forma como as pessoas acham que na última década o município melhorou. Isso contrasta com a avaliação que as pessoas fazem da evolução do mundo, da Europa e de Portugal, o que significa que a proximidade influencia mesmo a perceção que as pessoas têm.
Quando a avaliação é intermediada, porque nós avaliamos o estado do mundo de forma intermediada, através da comunicação social por exemplo, isso piora a perceção que as pessoas têm das circunstâncias. Eu julgo que é uma mensagem de otimismo, significa que as pessoas continuam a confiar em instituições políticas, mas confiam nas instituições políticas mais próximas, que é naturalmente o poder local.
Faz um paralelo entre a perceção com intermediação e com contacto direto, tem um peso nesta alteração de perspetiva?
A forma como nós percecionamos o mundo, como olhamos para a realidade, é isso que este estudo trata. É muito marcada pela forma como a realidade nos é oferecida e como nós a lemos.
Ora, as instituições de intermediação - os media, mas também as universidades e as escolas - têm esse papel de intermediar a realidade. O que nós podemos constatar é que ao nível do nosso município temos menos intermediação, porque está menos presente na comunicação social mais no dia-a-dia: as respostas, a atividade e a realidade concreta do nosso município.
Quando isso acontece, os inquiridos fazem uma avaliação melhor do que fazem em relação às esferas cuja perceção é construída a partir de instituições de intermediação.
Há uma ligeira diferença nas respostas entre regiões, quais são as razões?
Nós temos uma amostra muito grande para o conjunto do país e que nos permite também analisar cada uma das cinco regiões de Portugal Continental. O que nós notamos é que há algumas variações entre regiões, nos vários domínios. Por exemplo, o Alentejo e a região de Lisboa é onde os inquiridos acham que o seu município melhorou menos. As razões por que isso acontece, não podemos, a partir deste inquérito, saber quais são.
Sabemos, apesar de tudo, coisas importantes. Quando perguntamos também às pessoas por cada domínio das políticas públicas (a educação, a segurança, o turismo) a avaliação é sempre positiva quando se trata do município. A nota mais baixa, mas mesmo assim positiva, é para a habitação. Destaca-se a educação e, curiosamente, a segurança, como sendo um domínio onde as pessoas fazem uma avaliação mais positiva das circunstâncias do seu município. O que remete também para esta ideia de intermediação.
As pessoas avaliam positivamente a segurança no seu município, com 7.0 pontos numa escala de 0-10. No entanto, há todo um discurso público que há problemas de segurança. Ora, se não são de proximidade, é porque não tem a ver com a experiência de cada um com a insegurança, mas com uma experiência projetada comunicacional.
O estudo tentou compreender porque mudou a perspetiva das pessoas nos 28 anos?
Não, só nos limitámos a perguntar se deve voltar a discutir o tema da regionalização. E a resposta é esmagadora: 71% dos inquiridos considera que o tema deve voltar a ser discutido. Depois, quando se pergunta de que forma, a maioria responde que se for feito, outra vez, através de referendo. A vontade de discutir a visualização provavelmente prende-se com esta confiança maior das instituições de proximidade do que das instituições que estão mais distantes da vida concreta dos portugueses.
O que representa esta alteração?
Temos esta vontade, 75% é muito e é transcendente. Para já representa apenas uma vontade que o tema volta a ser discutido.
Não podemos projetar, uma vez discutido, se o resultado seria diferente daquele de há perto de 30 anos, porque provavelmente com a introdução do tema na agenda surgiriam e emergiriam clivagens e divisões que tornariam a matéria mais contestada. A única coisa que sabemos é que há vontade de voltar a discutir o tema. Isso não nos diz nada sobre os termos da discussão se fosse reintroduzida na agenda.
O caso essencial é que as pessoas confiam mais nas instituições políticas de proximidade do que nas restantes e confiam naquilo que são as respostas das políticas públicas dessas instituições. Quando as respostas são na saúde, na educação, no turismo e na segurança são de nível local, há uma maior confiança. Isso é muito importante.
