Prémios PLAY: os vencedores, a força dos discursos e a merecida homenagem ao enorme Jorge Palma
Canção do Ano para Vizinhos, com 'Pôr do Sol', Mizzy Miles vence Melhor Álbum, Sara Correia distinguida como a Melhor Artista Feminina e Plutonio foi eleito o Melhor Artista Masculino.
Esta quinta-feira, 23 de abril, decorreu a 8.ª edição dos PLAY - os Prémios da Música Portuguesa que este ano distinguem os melhores da música portuguesa ao longo de 2025.
A entrega de prémios, apresentada por Filomena Cautela, Alexandre Guimarães e Teresa Oliveira, teve lugar no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e teve transmissão em direto na RTP1, RTP Mundo, RTP África, RTP Play e RTP Antena 1.
A cerimónia ficou marcada por uma série de momentos e discursos fortes o suficiente para, pelo menos, abrir espaço à reflexão, especialmente, nos tempos que estamos a viver. Escutámos discursos pela defesa da preciosa liberdade e da importância da cultura. Palavras contra o ódio e contra a violência do nada escrupuloso algoritmo e ouvimos apelos à urgente e essencial união. Mas vamos por partes, há muito para relatar.
Os Play de 2026 reconheceram o enorme e Jorge Palma com o Prémio Carreira. O músico e compositor histórico, que tantos (e com toda a justiça) gostam de chamar de mestre, recebeu a estatueta de reconhecimento pelas mãos do Secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, que antes de entregar a distinção ao homenageado agradeceu ao músico em nome de todo o país.
Marisa Liz, Sérgio Godinho, Inês Marques Lucas, Tim, Miguel Luz, Francisco e Vicente Palma (filhos de Jorge Palma) musicaram o tão merecido tributo com um medley que passou por canções (tesouros nacionais) como 'Canção de Lisboa', 'Dá-me Lume', 'Bairro do Amor', 'Portugal, Portugal', 'Frágil' e 'A Gente Vai Continuar'.
Quando subiu ao palco, Jorge Palma, claramente emocionado e surpreendido, agradeceu à sala lisboeta de braços abertos. "Uau. Um Prémio Carreira não é todos os dias!", começou por exclamar. "Quero agradecer aos PLAY. E muito obrigado a todos os que, ao longo da vida, me têm ajudado, ensinado, tratado e curado", continuou. "Estou a falar dos médicos, enfermeiros, auxiliares e técnicos do Serviço Nacional de Saúde.... e com os meios que têm. Há muita coisa por fazer, há muita coisa por dizer", acrescentou.
"Há três anos, quando o Sérgio Godinho recebeu o Prémio Carreira, falou das diferentes gerações que trabalham na música portuguesa. Falou em pujança e em diversidade. Era preciso que os políticos e os governantes tivessem a visão suficiente para pegar neste potencial, nesta energia e neste talento todo e fizessem deste país um país substancialmente melhor do que é. O atual primeiro-ministro disse que a Cultura em Portugal é sistematicamente menosprezada, subvalorizada. Estou à espera que, de facto, se faça uma reforma eficaz para que as nossas forças não se gastem em vão”, disse o homenageado.
"Malta, não podemos deixar que o 25 de abril se torne numa memória distante, que seja uma imagem a esvanecer-se, lá longe. Temos de reinventar o espírito de Abril sempre. Liberdade, democracia, justiça e, como canta o Sérgio Godinho, a paz, o pão, a habitação, saúde e educação. Malta, mãos à obra. Vamos fazer deste país o país que merece ser, um país melhor. Viva o 25 de Abril, viva a Liberdade, viva a Democracia", acrescentou Jorge Palma por esta altura debaixo de uma forte ovação.
Rita Redshoes e Samuel Úria entregaram o Prémio da Crítica aos veteranos Mão Morta, com o álbum "Viva La Muerte". Adolfo Luxúria Canibal mostrou surpresa com o prémio, mas manifestou alegria pelo reconhecimento ser, como disse, numa “categoria que não está ligada a qualquer feito quantitativo”. O músico usou ainda o tempo de antena para explicar a razão da criação do álbum premiado. “Resta-nos desejar que a pulsão de morte que domina a miserável época em que vivemos, com as suas manifestações de ódio e de intolerância, não progrida até ao ponto do não retorno. E que saibamos estancar a tempo o alastrar da peste dos fascismos. Essa ratazana nojenta que corrói por dentro os alicerces da liberdade. Foi para isso que 'Viva La Muerte' foi criado e é por isso que continua a percorrer as salas deste país", afirmou o homem dos Mão Morta.
A fadista Sara Correia foi distinguida como a Melhor Artista Feminina, vencendo Bárbara Bandeira, Carminho e MARO – as restantes nomeadas. A cantora dedicou a estatueta a todas as mulheres, desde as mulheres do bairro onde cresceu (em Chelas) até “à última aldeia do país”, como disse, com franco entusiasmo, quando subiu ao palco para receber o prémio.
Plutonio foi eleito o Melhor Artista Masculino, muito pelo sucesso estrondoso nas plataformas de streaming do álbum “Carta de Alforria”. O rapper, que esteve representado pela irmã, agradeceu o reconhecimento pelo trabalho que tem feito e a todas as pessoas que o ouvem. Ainda pela voz da irmã, dirigiu palavras a todos os músicos que, mais do que outros, têm mais muros para derrubar na indústria musical. “Volto a lembrar a todos os artistas que vêm de realidades semelhantes à minha que nesta indústria temos de trabalhar e apresentar resultados pelo menos três vezes maiores do que os demais para finalmente podermos ter um terço do reconhecimento”, disse. “A minha maior premiação é ter conseguido mudar o meu passado, levar a música além do Bairro da Cruz Vermelha, sobreviver ao ódio da polícia e ao desprezo das elites, até não ser mais necessário contornar as portas da frente. Viver as histórias da minha life, vestir perto e vermelho, fazer por amor e sacrifício para, com a Carta de Alforria, ser finalmente um negro alforriado e poder dizer Veni, vidi, vici (Vim, vi, venci).” Plutonio aproveitou o momento para dar uma novidade e anunciar que vai editar o quinto álbum ainda durante este ano.
Mizzy Miles conquistou a estatueta de Melhor Álbum com o disco “Fim do Nada”, vencendo a Carminho, com “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir”, Gisela João, com “Inquieta”, e os Calema com “Voyage”. “Eu estava à espera disto, sim. Chamem-lhe ilusão, maluquice ou excesso de confiança, mas foi graças a essa maluquice e a esse excesso de confiança em mim que hoje posso estar aqui a honrar este prémio”, disse Miles. O músico e produtor ainda falou do espírito de união de culturas que o álbum galardoado representa e enalteceu o papel dos produtores, sublinhando que, embora mais longe do foco, também são artistas.
A distinção de Canção do Ano (que é votada pelo público) foi conquistada pelos alentejanos Vizinhos, com o tema 'Pôr do Sol'. A banda foi a última a subir ao palco e aproveitou os holofotes para “agradecer a Portugal inteiro”. "A música portuguesa está bem de saúde", disseram os Vizinhos, fazendo, de certa forma, um resumo da série de momentos de celebração musical que se viveram esta noite no coliseu lisboeta. O grupo também anunciou que vai editar o álbum de estreia a 8 de maio e que no horizonte já tem um concerto para dar no coliseu, a 28 de novembro.
Os NAPA venceram a estatueta de Artista Revelação. Inês Marques Lucas, Miguel Luz e os Vizinhos eram os restantes artistas que estavam na corrida.
O PLAY para Melhor Grupo, apresentado por Tim e Blaya, foi parar novamente às mãos dos irmãos Calema, categoria que ganham pela quarta vez nos Prémios da Música Portuguesa. Os pais representaram a dupla de irmãos que não esteve presente na cerimónia. “Viemos representá-los com muito orgulho de uma caminhada tão longa e promissora”, disse a mãe de António e Fradique Mendes Ferreira quando recebeu a estatueta.
A estatueta de Melhor Videoclipe foi para o vídeo que ilustra 'Moleirinha', canção que juntou os Karetus, Isabel Silvestre (com vozes de Manhouce), Conan Osiris e Júlio Pereira. O videoclipe vencedor foi realizado por Gonçalo XZ.
Carminho, a artista mais nomeada na edição deste ano dos PLAY, conquistou o galardão de Melhor Álbum Fado com o disco “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir”.
O Melhor Álbum Jazz foi para João Barradas, com “Aperture”, e o premiado com o Melhor Álbum Música Clássica/Erudita foi Luís Tinoco, com “Kokyuu”. Luís Tinoco dedicou a estatueta ao pai, o pianista e compositor José Luís Tinoco que morreu na semana passada.
Toy e Eduardo Madeira apresentaram o Prémio de Melhor Canção Ligeira e Popular que foi parar às mãos de Khiaro, Luís Fialho, Marotos da Concertina, com a canção ‘Oh Clementina’.
Antes de apresentar o galardão, Toy usou a voz para falar da polémica em torno do boicote à Eurovisão devido à presença de Israel na competição. "Eu queria dar os parabéns a quem ganhou o Festival da RTP da Canção. Em relação ao boicote, eu percebo que a rapaziada precisa de se mostrar, sobretudo no início de carreira. É bom para eles. Acho que fazem muito bem. Só que nunca digam que a cultura e a política não se misturam. Porque a cultura é a melhor arma contra alguns sistemas políticos, como o assassino de crianças, [Benjamin] Netanyahu, e como o son of a bitch Donald Trump, em português, filho da p*ta", disse o cantor que mais tarde foi elogiado pela coragem que teve por Filomena Cautela.
Outro ponto alto da noite foi protagonizado pelos cantores Pedro Mafama e Tomás Wallenstein e pelos atores Diogo Amaral e Afonso Pimentel. Os quatro estiveram no palco para dar voz a “Um minuto para calar o ódio”. Antes, Filomena Cautela explicou o propósito do momento. “A violência contra as mulheres está a aumentar em todas as idades. Hoje os crimes são mais graves, mais letais e mais rápidos. Muito pela propagação do discurso de ódio online e pela manipulação digital. O ódio online mata offline. E por isto e muito mais vamos, pelo menos durante um minuto, calar o ódio."
Nos prémios promovidos pela Audiogest, o Prémio Lusofonia foi entregue aos brasileiros Mari Froes e Trinix com ‘Vaitimbora’.
A cerimónia contou ainda com as atuações dos Vizinhos, dos NAPA (com o coro infanto-juvenil da Junta de Freguesia de Benfica e o Coro Skoola), de Nelson Freitas e Nuno Ribeiro, dos Átoa com Luís Trigacheiro e Buba Espinho e de MARO.
Vodafone Canção do Ano
'Amar pela Metade' - Calema'
Champions League' - Mizzy Miles & Slow J & GSon
'Deslocado' - NAPA
'Interestelar' - Plutonio
'Pôr do Sol' - Vizinhos - vencedores
'Tu na Tua' - Átoa, Luís Trigacheiro & Buba Espinho
Melhor Álbum
“Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir” – Carminho
“Fim do Nada” - Mizzy Miles – vencedor
“Inquieta” - Gisela João
“Voyage” - Calema
Melhor Artista Feminina
Bárbara Bandeira
Carminho
MARO
Sara Correia – vencedora
Melhor Artista Masculino
Buba Espinho
Papillon
Plutonio – vencedor
Slow J
Melhor Grupo
Calema – vencedores
Capitão Fausto
NAPA
Vizinhos
Melhor Álbum Fado
“Deles por Mim (e à Antiga)” - Raquel Tavares
“É tempo de ficar” - Carlos Leitão
“Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir” – Carminho – vencedora
“Inquieta” - Gisela João
Melhor Canção Ligeira e Popular
“Ainda Choras Por Mim” - Jorge Guerreiro
“O Beijinho Português” - Rebeca
“Oh Clementina” - Khiaro, Luís Fialho, Marotos da Concertina – vencedores
“Loba” - Ana Duarte
Artista Revelação
Inês Marques Lucas
Miguel Luz
NAPA - vencedores
Vizinhos
Prémio Lusofonia
"Numa Ilha” - Marina Sena
“Sem Querer” - C4 Pedro
“Sequência Feiticeira” - Pedro Sampaio & MC Gw & MC Jhey & MC Rodrigo do CN & MC Nito
“Vaitimbora” - Mari Froes, Trinix - vencedores
Melhor Álbum Jazz
“Aperture” - João Barradas – vencedor
“Cantomilo” - Estela Alexandre Orquestra
“Distopia” - Miguel Ângelo Trio
“Lírio do Vale” - João Mortágua
Melhor Álbum Música Clássica/Erudita
“Kokyuu” - Luís Tinoco - vencedor
“Prix san Prix, vol.1” - Adriana Ferreira & Isolda Crespi Rubio
“The Elvas Project, Vol.1” - Sete Lágrimas
“Six Portraits of Pain & Oscuro” - António Pinho Vargas
Melhor Videoclipe
“Amor de Cinema” - Matheus Paraizo, realizado por Maria Beatriz Castelo
“Deixa-me em Paz” - Herlander, realizado por Valdir Furtado
“Moleirinha” - Karetus, Isabel Silvestre com vozes de Manhouce, CONAN OSIRIS e Júlio Pereira, realizado por Gonçalo XZ - vencedores
“Não Gosta” - Bárbara Bandeira, realizado por Ruben do Valle
Prémio da Crítica
“Alegria Terminal” - Vaiapraia
“Dói-Dói Proibido” - Femme Falafel
“Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir” - Carminho
“Viva La Muerte” - Mão Morta - vencedores
