PZ mostra "Álbum de Família" com uma canção por mês até ao final do ano

Entrevista ao músico e produtor portuense. Os dois primeiros temas contam com a participação de Samuel Úria e Joana Espadinha.

PZ é Paulo José Pimenta, “poeta surrealista do quotidiano, conhecido pela sua veia satírica e irónica onde o nonsense é palavra de ordem”, conta a descrição do músico e produtor que no ano passado assinalou 20 anos de carreira.  

2026 é o ano em que PZ mostra a todos o projeto "Álbum de Família" – disco composto por 12 temas, sendo que cada uma das faixas tem um convidado especial. 

A proposta do artista portuense é lançar um single por mês até ao final do ano. Em dezembro, a última canção vai culminar com a edição do vinil “Álbum de Família, reunindo as faixas e imagens que documentaram um ano inteiro de criação”, refere o comunicado de imprensa. 

O primeiro single – intitulado 'Todo o Santo Dia' – conta com a participação do cantor e compositor Samuel Úria e foi lançado em janeiro. No mês de fevereiro, PZ editou 'Quem é Que Vai Lavar a Banca', canção para a qual convidou a cantora e compositora Joana Espadinha. 

“Gravadas nos estúdios Arda, no Porto, todas as sessões vão juntar Zé Nando Pimenta na captação e direção de som, Vasco Mendes na captação e direção de imagem, Rui Murka na fotografia, ficando o Estúdio Eduardo Aires na direção de arte e identidade visual”, lê-se ainda na nota.

Cada tema será acompanhado por um videoclipe, com imagens captadas na sessão de gravação, e por uma entrevista, conduzida por PZ, a cada um dos músicos convidados. As entrevistas a Samuel Úria e a Joana Espadinha já estão disponíveis na plataforma YouTube.  

"Um álbum de família é isso mesmo: um conjunto de fotografias que fixam momentos. Aqui, cada música é um desses retratos — dias repetidos, rotinas partidas, pequenas coisas que se tornam memória", explica o músico do Porto, com quem conversámos há uns dias, na descrição do projeto.  
 

Oiça a entrevista completa:

Entrevista a PZ sobre "Álbum de Família"

Quero saber como é que o projeto “Álbum de Família” começou a fervilhar na tua cabeça… 

Acho que, conscientemente, começou a fervilhar durante o período da Covid-19. Nessa altura, estava a desenvolver músicas na minha cabeça. Como estava em casa com a minha família, com os meus filhos de 12 e 8 anos, ia fazendo música para eles de modo a aligeirar um pouco as coisas. Já costumava cantar para eles quando eram bebés. Tinha músicas para o meu filho e outras para a minha filha. Mas depois comecei a criar canções sobre situações caseiras, como é o caso do tema 'Quem é Que Vai Lavar a Banca' ou do 'Empadão na Bimby', sendo que esta última ainda não saiu. Eram coisas muito familiares e em tom de brincadeira. Mas há cerca de um ano ou dois comecei a pô-las em prática e a gravá-las no meu estúdio. A certa altura, quando já tinha as bases de algumas músicas, fiquei tão contente com o resultado que quis elevar a fasquia. Foi então que decidi convidar músicos que aprecio ou com quem trabalhei anteriormente para me ajudarem a elevar as canções. No fundo, alarguei a família à família musical com a qual me revejo. E depois tive a ideia de lançar o álbum da forma como uma pessoa vive a vida ou vive um ano. É por isso que todos os meses lanço uma música nova. O verdadeiro álbum de família - com todas as canções que vou lançar ao longo do ano - vai sair no final de 2026 em formato vinil. 

 Portanto, o lançamento dos singles é uma espécie de calendário de advento… (risos)

É um ano que resume uma vida com lançamentos mensais. Todos nós somos programados pelos horários e pelas rotinas. Cada ano é um novo ano. À medida que a Terra vai andado à volta do Sol, vamos acumulando memórias. E eu quis fragmentar um pouco esse processo e contar uma história que seja quase um fractal da vida que as pessoas levam mas muito baseada nas minhas experiências familiares. Umas são mais ligeiras, outras são mais introspetivas. Mas [todo o processo] está a ser desenvolvido num ritmo caseiro. 

Tens, por isso, uma ligação umbilical a este projeto, uma vez que é feito dessas emoções mais familiares. Mas em relação aos convidados, gostaria de saber quais foram os critérios para a escolha do elenco. Acredito que sejam pessoas com quem tens cumplicidades pessoais ou artísticas. Já conhecemos dois, o Samuel Úria e a Joana Espadinha… 

Foi o que disseste. Convidei pessoas com as quais me identifico ou admir. E também pessoas com quem já trabalhei. São, no fundo, pessoas com quem sempre quis colaborar. Após ter as bases das canções prontas comecei o processo de identificar os convidados que encaixassem melhor em cada uma das canções. Dou como exemplo o 'Todo o Santo Dia'.

Achei que o Samuel Úria iria identificar-se com essa canção, tendo em conta as canções que faz e as letras que escreve. Felizmente, foi o que aconteceu. Ele identificou-se e quis participar. E depois ver os convidados no estúdio a integrarem-se no tema é uma sensação que tem superado as minhas expectativas. Acho que a ideia está a resultar muito bem. Sempre gostei muito do timbre de voz da Joana Espadinha e da forma como ela aborda as temáticas. É muito “tu cá, tu lá”. 

Sim…

E tem uma forma muito independente de apresentar as ideias. Foi por isso que a convidei para ser a minha esposa musical no tema ‘Quem é que Vai Lavar a Banca’. Eu desenvolvo a música e depois o nome dos convidadados acaba por surgir. Isto também vem na sequência do último álbum que lancei como PZ. Falo do disco "O Fim do Mundo em Cuecas" que lancei em 2024. Eu - que nunca tinha trabalhado com outras pessoas nas minhas músicas - decidi convidar 20 artistas portugueses para a faixa número 20 do álbum. Essa canção chama-se ‘Fim’. Mandei-lhes o beat do tema a eles gravaram as vozes. A profundidade da voz da Joana Espadinha tocou-me. A gravação desta canção foi a minha primeira experiência de produção com outros artistas. Ter de posicionar 20 vozes diferentes foi uma bela empreitada. (…) Acabei por conhecer as pessoas, embora com algumas o contacto tenha sido por telefone. E esse tema deu-me indicações sobre as pessoas que poderia convidar para este novo trabalho, sendo que neste projeto a contribuição vai além da voz. A ideia é estarem mesmo integradas numa determinada temática e numa música específica. 

E na escolha dos convidados andaste por universos musicais muito diferentes do? 

Sim. Acho que este álbum está bastante eclético. Cada música explora um género diferente. Se bem que nunca fui muito de entrar em géneros específicos. Cada música pede uma voz que esteja habituada a ambientes e a géneros diferentes. No caso da Joana Espadinha e do Samuel Úria vejo uma ligação maior com os dois. Mas o álbum vai ter cartas fora do baralho. Acho que vão ser surpreendentes. 

E estás a fazer entrevistas aos convidados. Como é que está a correr essa experiência?


É uma forma de agradecer-lhes e de valorizar o trabalho que fizeram comigo. E, além de ser uma forma conhecê-los melhor, também ajuda a manter um ambiente mais relaxado, caseiro e até introspetivo. É isso que quero manter neste “Álbum de Família”. E também faço questão que as pessoas conheçam o percurso dos convidados. Há certas perguntas que gosto de perguntar a todos. Gosto de saber, por exemplo, quem é que nas suas famílias os despertou para a música. E depois cada conversa desenvolve-se em águas diferentes. 

Quem é que na tua família te apontou o caminho para a música?

Foi sobretudo o meu pai. Habituou-me a ouvir música durante as refeições ao fim de semana. Também me levava a muitos concertos. Levou-me aos concertos dos Nirvana, dos Pearl Jam, do David Bowie e do Michael Jackson, por exemplo. Levou-me a muitos espetáculos. Eu era muito novo para ir sozinho, e ele fazia questão de incutir esse gosto pela música a mim e ao meu irmão. Apesar de nunca ter tido formação sempre tive facilidade e memória auditiva para conseguir desenvolver as minhas músicas desde pequeno. Foi algo que sempre adorei fazer. E depois tenho um irmão mais velho, que está comigo na editora Meifumado Fonogramas, que, na altura dos anos noventa, me influenciou muito na utilização de tecnologias na música. Foi nessa altura que começámos a pooder construir as músicas sozinhos. Atualmente, é o responsável por fazer estas sessões de gravação adicionais e por misturar as músicas do álbum. Aliás, o meu irmão tem misturado todos os meus álbuns de PZ. Por isso, tenho uma ligação muito forte com ele também através da música. 

E já que estamos a falar em família, fala-me do single 'Quem é Que Vai Lavar a Banca'. Antes de ouvir a canção achei que tinha a ver com a banca financeira mas depois percebi que não…
 
Muita gente achava isso. (risos) Acho piada. Mas mantive o título.

Mas não é bem isso e acho que há muita gente que se vai identificar com esta canção porque, na minha opinião, é uma ode à rotina de todos os dias da vida de muitos pais… 

Sim. É sobre as discussões familiares à volta de quem é que vai levar [a criança] à dança. Eu gosto de integrar estes elementos familiares nas músicas e nos videoclipes, que, aproveito para dizer, estão a ser realizados pelo Vasco Mendes nos Estúdios Arda. É onde temos as nossas sessões de gravação. A minha filha vai à dança quatro vezes por semana. E adora aquilo. Então, lembrei-me de convidar a escola de dança da minha filha para o vídeo. A ideia - lá está - é a de manter a ligação familiar nos temas. É uma conversa que tenho quase todos os dias com a minha mulher. Mas faz parte na relação de um casal. Estamos a oferecer aos nossos filhos rotinas e formas de se expressarem. É importante deixarmos o ego de parte e focarmo-nos também na vida dos nossos filhos. Apesar desses momentos de tensão, olhamos para trás e sentimo-nos bem connosco quando conseguimos partilhar rotinas e afazeres. Ficamos contentes quando os restantes membros da família estão felizes com o nosso apoio. 


Também incluíste o teu sobrinho, não é? É o menino que nesse tema está na percussão… 

Sim. É o David, o filho do meu irmão. Ele tem um jeito inato para a percussão. Participa a sério na música. Aliás, não só participa como a elevou. Acho que no futuro também vai estar muito ligado à música. Foi mais um elemento da família a participar no álbum. Fiquei super orgulhoso com a participação dele.  

E a tua filha também deve ter ficado extasiada com a possibilidade de dançar no videoclipe… 

Ficou toda contente por participar com a escola de dança que frequenta [a We Dance] e com as amigas. Estão todas muito à vontade, muito descomplexadas. Este álbum também é um pouco voltar às raízes. É sobre voltar à liberdade e à inocência que sentimos outrora mas que fomos perdendo ao longo do tempo, à medido que nos fomos tornando adultos. Os ingleses usam a palavra “play” [brincar] para tocar música. E é isso que eu sinto quando estou a desenvolver música. Sinto-me como se fosse uma criança. Não há regras. É apenas expressão musical e criativa. Expressão sem filtros 

E manter isso é essencial. Em dezembro, vais lançar a última faixa que reúne o ano inteiro, certo?

Posso revelar o nome da faixa. Chama-se 'Tens a Faca e o Queijo na Mão'. Gostava de ter a participação de todos os convidados. Mas ainda não sei muito bem como é que vou fazer isso. Não sei se vão gravar nos próprios estúdios ou em casa. Mas queria que fosse um momento mesmo de catarse do "Álbum de Família". Ainda estou a ver. Também estou a organizar os dois concertos de apresentação que deverão acontecer em dezembro. A ideia é dar concertos no Porto e em Lisboa. E eu queria que a maior parte dos convidados participasse nestes dois concertos especiais. 

Ainda é alguma logística envolvida…


Sim. Estou a convidá-los a todos. E eles, como são os maiores, têm estado a dizer que sim. Está a ganhar forma. É uma produção grande, tal como disseste. A logística não é fácil, mas vai acontecer. 

A criação deste álbum de família tem a ver com o facto de recentemente teres feito vinte anos de carreira e de, eventualmente, estares na fase de balanço de quem vai a meio da existência?

Acertaste. É quase uma crise de meia-idade de músico. Cheguei a uma altura em que olhei para trás e pensei: "já fiz tudo, agora quero o meu Porsche". (risos) Ao início, parecia um pouco irreal ter 12 convidados, 12 músicas e 12 videoclipes. Mas decidi andar para a frente. Parecia um sonho irrealista, mas quando comecei a contactar as pessoas e a alargar a equipa de produção vi que era possível. Está a ser incrível. O Rui Murka, que já foi meu manager, está a fotografar todas as sessões. O meu irmão está a gravar todas as faixas. E este projeto também me levou ao realizador Vasco Mendes que está a fazer um trabalho incrível [com os videoclipes]. Os estúdios Eduardo Aires estão a fazer a parte do design. Não seria possível apenas com uma pessoa. É preciso ter uma equipa que acredita no projeto. É um cliché, mas é mesmo importante. Se não houvesse uma equipa a trabalhar para o mesmo e a querer elevar o processo de criação, nada disto seria possível.   

E o que podes revelar mais sobre o álbum?

Posso dizer que a próxima faixa também vai estar relacionada com o tema familiar. Chama-se ‘Sou Pai de Filhos’. Vou estar acompanhado por uma banda muito particular que são os Retimbrar. Eles estão mais ligados à música tradicional. Já fiz a sessão de gravação e estou muito contente com o resultado. Em princípio, [o novo tema] vai sair no Dia do Pai [19 de março].