QR Codes, quizzes e curiosidades: a nova forma de ler "Os Maias"
Ler Os Maias e perceber todas as referências históricas, culturais, políticas e sociais que Eça de Queiroz espalhou pelo romance. É esse o desafio da nova edição da Quetzal, apresentada na York House, em Lisboa, e que promete aproximar novos leitores de um dos maiores clássicos da literatura portuguesa.
Há livros que atravessam gerações e há edições que procuram construir pontes entre esses livros e os leitores de hoje. Foi precisamente esse o objetivo da nova edição de Os Maias, da Quetzal, apresentada esta semana na York House, em Lisboa.
Para Francisco José Viegas, editor da Quetzal, a principal novidade desta edição está na capacidade de contextualizar o universo criado por Eça de Queiroz, oferecendo ao leitor ferramentas que ajudam a decifrar referências que, mais de um século depois, deixaram de ser evidentes.
“Explica os Maias”, resumiu o editor. “Dá os instrumentos para que uma pessoa saiba tudo aquilo a que Eça de Queiroz se refere.”
Ao longo da leitura, o romance é acompanhado por notas e recursos digitais acessíveis através de códigos QR. O objetivo é simples: permitir que qualquer leitor, especialmente os mais jovens, possa descobrir rapidamente quem eram figuras como Voltaire, Guizot ou Lord Beaconsfield, compreender referências políticas e culturais da época ou localizar os cenários onde decorre a ação.
“Se um miúdo de 14 anos não sabe quem é o Voltaire, basta clicar e aparece-lhe tudo sobre o Voltaire. Ou tudo sobre o Aterro de Santos, onde se passam algumas das cenas dos Maias”, exemplificou.
A edição funciona, nas palavras de Francisco José Viegas, como um verdadeiro “mapa” do romance. Uma ideia inspirada numa conhecida reflexão do escritor Vladimir Nabokov sobre o Ulisses, de James Joyce. Questionado sobre a forma de ensinar uma obra tão complexa, Nabokov respondia que os alunos deviam começar por comprar um mapa de Dublin para saber por onde andavam as personagens.
“É um bocadinho isso que nós fizemos com Os Maias”, explicou Viegas. “O livro tem um mapa de todas as referências dos Maias.”
Entre explicações sobre vestuário, gastronomia, política, imprensa ou costumes da época, o leitor encontra respostas para curiosidades tão diversas como o significado de expressões hoje esquecidas, a identidade de figuras históricas mencionadas no romance ou até o nome do célebre gato do Ramalhete, o reverendo Bonifácio.
Mas a experiência não termina na última página. A nova edição inclui ainda um quiz com cem perguntas destinadas a testar os conhecimentos dos leitores. Algumas são simples; outras exigem uma atenção quase detectivesca aos detalhes do romance.
“Quem responder às cem perguntas pode dizer: ‘Eu sei tudo sobre Os Maias’”, brincou o editor.
Francisco José Viegas, editor da QuetzalAna Bernardino
Mais do que uma edição anotada, a proposta da Quetzal procura combater a distância que muitos leitores sentem perante os clássicos. Através da tecnologia e da contextualização histórica, a leitura transforma-se numa experiência mais dinâmica, sem perder a riqueza literária da obra original.
Francisco José Viegas acredita que esta abordagem poderá ajudar a mudar a relação de muitos estudantes com livros que frequentemente surgem associados à obrigação escolar. Em vez de uma leitura marcada pela dificuldade das referências desconhecidas, a nova edição convida à descoberta constante.
O projeto não ficará por aqui. A coleção deverá continuar com novas obras fundamentais da literatura portuguesa, incluindo Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano, e outros clássicos.
O objetivo mantém-se o mesmo: devolver aos leitores as chaves necessárias para compreender plenamente textos que ajudaram a construir a literatura portuguesa.
“Hoje ignoramos muitas dessas referências”, reconheceu Francisco José Viegas. “O que pretendemos é restabelecê-las, torná-las comuns e fazer com que as pessoas percebam de que é que Eça fala.”
Uma missão que poderá tornar Os Maias menos intimidantes para os estudantes e, ao mesmo tempo, mais fascinantes para todos os que continuam a regressar ao universo de Carlos da Maia, Maria Eduarda e do inesquecível Ramalhete.
QR Code na nova edição de Os MaiasAna Bernardino
