Quando poemas se escrevem em folhas de pauta
No Dia Mundial da Poesia, escolhemos dez letristas de canções de qualidade literária.
No Dia Mundial da Poesia que é hoje, lembramos dez músicos que têm literatura nos versos que escrevem. Amor, sexo, pobreza ou medo são alguns dos impulsos temáticos com que as canções se agigantaram, por parte de quem nos habituou a dar à música algo de mais profundo que a função lúdica.
Sérgio Godinho
O cantor nascido no Porto tem sido um dos melhores observadores portugueses da humanidade há mais de 50 anos, conseguindo medir o pulsar da sociedade e individualizando o olhar a cada individuo em particular, em cada situação, em cada época, em cada hora. Tem também o dom perfurante de ir "ao fundo" da alma de uma mulher, como é o caso de 'Espalhem a Notícia': "A terra tremeu ontem / Não mais do que anteontem / Pressenti-o / O ventre de que falo como um rio transbordou / E o tremor que anunciava / Era fogo e era lava / Era a terra que abalava / No que sou".
Chico Buarque
Um dos músicos que tem elevado a nossa língua a um patamar muito alto tem sido Chico Buarque. Tijolo por tijolo, verso a verso, canção a canção, Chico Buarque construiu uma obra literária dentro do seu próprio reportório, que transbordou para uma bibliografia respeitável. Em 'Minha História (Gesubambino)', foi parar ao leito de uma mulher pobre: "Ele assim como veio partiu não se sabe p’ra onde / E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe / Esperando, parada, pregada na pedra do porto / Com seu único velho vestido, cada dia mais curto”.
Rui Reininho (GNR)
Empurrado por "profanos desejos" e "aparentemente sem moralizar", Rui Reininho tem sido um provocador, um campeão dos trocadilhos e um humorista desempoeirado, ao serviço dos GNR. Salgou-nos com o seu imaginário de 'Dunas', numa maré de palavras que continua viva: "Bebemos dos lábios refrescos gelados / Selamos segredos / Saltamos rochedos /Em câmara lenta como na TV / Palavras a mais na idade dos porquês”.
Leonard Cohen
Mesmo que com herança judaica, interesse bíblico e experiência budista, a espiritualidade avassaladora de Cohen nunca apagou as suas fraquezas de um humano e por isso nos tocou tão proximamente com o seu sentido de humor. Poeta antes de se ter tornado cantor, Cohen confessou-se o homem feio a quem a mulher desejada "faria uma exceção" ou que tocava no "corpo" feminino "perfeito" só com a sua "mente". Nem nas maiores perdições perdia o cavalheirismo, como na carta que escreveu ao marido da sua amante, na letra de 'Famous Blue Raincoat', com que termina com um "Sincerely, L. Cohen”": "And you treated my woman to a flake of your life / And when she came back she was nobody's wife".
Patti Smith
Antes de se ter tornado música, Patti Smith já era escritora e publicava livros. Quando se cruzou com o rock, brotava literatura em tudo o que cantava e interpretava. As letras de canções nunca eram meras letras, eram algo urgentemente encadernável nesse objeto precioso a que chamamos livro. O controverso 'Rock 'N' Roll Nigger' era só um exemplo de um bom hábito de escrita que se repetia: "I was lost in a valley of pleasure / I was lost in the infinite sea / I was lost, and measure for measure / Love spewed from the heart of me / I was lost, and the cost / and the cost didn't matter to me / I was lost, and the cost / was to be outside society".
Jim Morrison (The Doors)
Jim Morrison não explorou só os limites do seu corpo (com muito álcool e drogas) como atravessou muitas linhas vermelhas nas suas letras de músicas dos Doors, incluindo a visão macabra de um assassino em 'The End'. O frontman que alavancou o rock para uma transcendência literária, fez das letras de canções mais do que uma experiência de poeta. Em 'Riders On The Storm', Jim Morrison volta a imaginar um assassino em série, desta vez a pedir boleia: "There's a killer on the road / His brain is squirmin' like a toad / Take a long holiday / Let your children play / If you give this man a ride / Sweet family will die".
Serge Gainsbourg
O músico francês foi obstinado, controverso, endiabrado e genial na escrita sobre sexo. Trocou as voltas a corpos de letras e fez truca-trocadilhos nos mais variados ângulos. Entrelaçou-se sempre com outras vozes femininas, como a sua mulher Jane Birkin, no escaldante dueto 'Je T'aime, ...Moi Non Plus': "Comme la vague irrésolue / Je vais, je vais et je viens / Entre tes reins / Je vais et je viens /Entre tes reins / Et je me retiens".
Lou Reed
Em cada esquina de Nova Iorque, o guitarrista dos Velvet Underground deixou um olhar, sobretudo nas ruas para onde escoavam todos os problemas às horas mais sombrias. Num raro momento de alívio otimista, 'Perfect Day' é uma das suas letras mais românticas: "Just a perfect day / You made me forget myself / I thought I was someone else / Someone good".
Nick Cave
O cantor australiano tem sido um dos rockers mais completos: visionário de grandes melodias, performer carismático que não cabe num palco e um superior letrista. A sua escrita desdobrou-se ecleticamente em várias fases. No álbum "The Boatman’s Call" (de 1997), a sua escrita apropriou-me mais das estruturas clássicas da poesia. Havia uma dor amorosa de perda para aliviar, como em 'West Country Girl': "Her unborn baby crying, 'Mummy' / Amongst the rubble of her body / Her lovely lidded eyes I've sipped / Her fingernails, all pink and chipped / Her accent which I'm told is 'broad' / That I have heard and has been poured".
Gil Scott-Heron
Visto por muitos como o inventor do rap, Gil Scott-Heron foi também venerado como o grande poeta da soul. Logo no álbum de estreia de 1971, "Pieces of a Man", percebeu melhor que ninguém o que não se via apenas e se sentia na alma de um homem pobre americano, como no tema-título, na sina trágica de 'Pieces of a Man': "Pieces of that letter / Were tossed about that room / And now I hear the sound of sirens / Come knifing through the gloom / They don't know what they are doing / They could hardly understand That they're only arresting / Pieces of a man".
