Quatro em cada dez doentes em Portugal não cumprem a medicação prescrita
Falta de literacia em saúde agrava problema, dizem especialistas.
Quatro em cada dez doentes em Portugal não cumprem a medicação prescrita de forma consistente, apesar de reconhecerem a importância da terapêutica na gestão da doença crónica. A conclusão resulta do estudo “Adesão à Terapêutica na Doença Crónica – A Visão dos Doentes”, divulgado esta quarta-feira, a propósito do Dia Mundial da Adesão, que se assinala dia 27 de março.
Doentes omitem incumprimento ao médico
O inquérito, que envolveu doentes com patologias crónicas como hipertensão arterial e dislipidemia, revela que cerca de 35% dos inquiridos não fala com o médico ou farmacêutico sobre o facto de não cumprir a medicação. Entre quem falha as tomas, um em cada três omite essa informação ao profissional de saúde, sobretudo por não considerar o tema relevante (57,5%), e não por vergonha ou medo. Ao mesmo tempo, dois em cada três doentes referem que o médico pergunta sempre se estão a cumprir a terapêutica, o que evidencia um desfasamento entre a perceção clínica e o comportamento real.
Doenças silenciosas, risco subestimado
No universo de doentes avaliados, 53,3% referem colesterol elevado, 43,7% hipertensão arterial e cerca de 26% indicam sofrer simultaneamente de hipertensão e dislipidemia, duas das doenças crónicas mais prevalentes e com maior impacto no risco cardiovascular. A maioria está medicada: 91,2% dos doentes com colesterol elevado e 73,1% com hipertensão arterial dizem estar em tratamento. Ainda assim, entre os que não fazem qualquer medicação, cerca de sete em cada dez afirmam não ter receio de agravamento ou descontrolo da doença, o que os autores do estudo associam ao caráter “silencioso” destas patologias e à tendência para subestimar um risco que se acumula ao longo do tempo.
Esquecimento é principal causa de não adesão
Em teoria, a adesão à terapêutica é valorizada por quase seis em cada dez inquiridos (59,7% dizem estar altamente conscientes da sua importância), mas essa consciência não se traduz sempre em prática. Cerca de 40% dos doentes admitem não tomar a medicação tal como foi indicada pelo médico, sublinhando a necessidade de estratégias que promovam a continuidade e a criação de rotinas. Entre os que nem sempre cumprem, o esquecimento surge como principal motivo (94,8%). Face ao estudo realizado no ano anterior, aumenta a percentagem de doentes que deixam de tomar a medicação por “se sentirem bem” (32,9%, face a 21,9%) e a proporção dos que não têm acompanhamento médico regular (20,5%, face a 14,1%).
Questionados sobre os fatores que mais contribuem para o incumprimento, 33,2% apontam a ausência de sintomas, 17,2% a gravidade percecionada da doença e 15,8% a posologia (frequência e complexidade da toma). Paralelamente, cerca de metade dos inquiridos acredita que a não adesão impacta diretamente o controlo da doença crónica, e entre aqueles que valorizam o cumprimento da medicação, nove em cada dez associam a falta de adesão ao não controlo da doença. Aproximadamente metade considera ainda que o incumprimento pode aumentar o número de internamentos ou de idas às urgências.
Falta de literacia em saúde agrava problema
Quase metade dos doentes inquiridos (46,4%) é classificada como “não literada” em saúde, isto é, não dispõe de conhecimentos nem de competências suficientes para compreender a informação necessária à gestão da própria doença e aplicá-la no dia a dia. Este “fosso” entre a linguagem da medicina e a realidade dos doentes também se reflete na relação com os meios de comunicação: mais de um em cada cinco participantes considera que as notícias e a comunicação sobre saúde nos media são difíceis ou muito difíceis de entender.
O estudo mostra ainda que 87,8% dos inquiridos toma medicação para a sua doença crónica. Mais de metade (55%) toma mais de dois medicamentos diferentes, 18,5% toma quatro ou mais fármacos e 46,3% está em tratamento regular há mais de cinco anos, o que reforça a complexidade da gestão terapêutica neste grupo.
Dia Mundial da Adesão com apoio alargado
Em Portugal, as iniciativas associadas ao Dia Mundial da Adesão contam com o apoio da Associação Nacional das Farmácias, Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Portugal AVC, Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, Sociedade Portuguesa de Aterosclerose, Sociedade Portuguesa de Cardiologia, Sociedade Portuguesa de Hipertensão, Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde, Sociedade Portuguesa de Medicina Interna e Servier Portugal. Em conjunto, estas entidades pretendem sensibilizar profissionais e doentes para a importância de uma adesão consistente à terapêutica, em particular nas doenças crónicas silenciosas, em que o impacto do incumprimento se sente sobretudo a médio e longo prazo.
