David Fonseca: "quero que as canções sejam lugares que as pessoas possam visitar"
O músico edita hoje 'Nada a Perder', single do novo álbum que vai chegar inteiramente em português.
David Fonseca edita esta sexta-feira (13 de fevereiro) 'Nada a Perder' - single de avanço do novo álbum que vai ser editado ainda durante este ano. É o décimo disco a solo do músico de Leiria e vai chegar inteiramente em português.
O single, que já está disponível em todas as plataformas digitais, antecipa um álbum no qual "a música surge como espaço de liberdade, aventura e risco, revelando a energia criativa que acompanha o cantor desde a adolescência", como conta o comunicado de imprensa.
"O tema nasceu do encontro inesperado com uma cassete antiga, gravada em casa dos pais, onde a curiosidade e o entusiasmo de um adolescente se fizeram ouvir. Essa descoberta inspira um single que é, ao mesmo tempo, uma homenagem à essência de quem começou a escrever música por impulso e uma celebração da ideia de seguir caminhos sem garantias, de arriscar antes de medir", lê-se ainda na nota que apresenta a nova canção.
David Fonseca vai apresentar o novo álbum na Super Bock Arena, no Porto, a 21 de novembro, e no Sagres Campo Pequeno, em Lisboa, a 28 de novembro.
Oiça aqui a entrevista completa:
'Nada a Perder' é um título interessante. Na descrição do single podemos ler que "o tema nasceu do encontro inesperado com uma cassete antiga gravada em casa dos pais, onde a curiosidade e o entusiasmo de um adolescente se fizeram ouvir". As pessoas da nossa idade gravavam diversas coisas nos gravadores, tu gravavas canções...
Gravava muitas canções. Tocava canções dos outros, canções que fui aprendendo. Na altura, tinha um órgão EKO, que os meus pais me ofereceram quando tive aulas de piano. Tinha entre os oito e os dez anos e foi a única vez que tive aulas de música. Acabei por ficar com o órgão. Aos treze, catorze anos, como tinha um gravador, comecei a gravar coisas. Era uma forma de matar o tempo. Sou da Geração X, não havia telemóveis.
Somos!
Somos, pois. Não havia telemóveis. Mas o tempo tinha um valor incrível. Tínhamos de ocupá-lo de alguma forma. Como morava numa pequena aldeia, em Marrazes, Leiria, havia muito tédio. Na verdade, acho que o tédio é essencial na vida das pessoas. Não só na vida dos artistas, mas na vida de toda a gente. As pessoas lutam contra isso, mas acho que aprendemos muita coisa em momentos de tédio. Esse sítio onde não acontece nada é muito necessário.
E estimula a criatividade...
Estimula muito. Então, naquela altura, resolvi ocupar o meu tédio com gravações parvas que ia fazendo no meu gravador. Às tantas, além de gravar canções de outros, comecei a criar músicas. Inventava canções, uma pior que a outra…
E quais eram as temáticas dessas canções?
Nessa altura, como ouvia muito os Doors, eram letras muito apocalípticas. Há uma canção da qual nunca me esqueci. O título era, 'Um Dia Vamos Todos Morrer'. Acho que era uma coisa muito típica para um miúdo de doze, treze anos escrever. Talvez muita gente não pense nisto, mas, sendo eu um criador, acho que por trás de uma música muito drástica tem de haver uma disponibilidade muito grande para entrar nesse tipo de território. Se uma pessoa estiver muito deprimida, muito em baixo, às vezes, pode ser complicado entrar em territórios mais duros. Mas, naquela altura, eu não tinha problema nenhum com isso porque não era propriamente esse o meu estado de espírito. Podia falar dessas coisas à vontade. Então, nessa altura, todas as músicas que fazia eram sobre a morte ou sobre coisas terríveis que aconteciam. As minhas músicas pareciam o fim do mundo. Agora acho muita piada àquilo. Havia uma certa inocência na forma de olhar o mundo. Apercebi-me disso quando voltei a ouvir as cassetes. Já não as ouvia há mais de trinta, quarenta anos.
Quando voltaste a ouvi-las o que é que sentiste?
Não senti nostalgia porque não sou uma pessoa nostálgica. Lembro-me, sobretudo, do entusiasmo que tinha [a fazer essas gravações]. Ficava muito contente. Não ficava contente por estar a ouvir-me mas por estar a tocar e a cantar aquelas coisas. No fundo, estava a fazer algo que era só meu. E quando criamos algo nosso temos a sensação que o mundo deixa de existir. O que existe ali é uma coisa só nossa que ganha vida a dada altura. A música e todo o tipo de criação são como ouvir um pensamento vivo. Uma pessoa pensa em algo e o pensamento torna-se real. Seja uma música, um quadro. Qualquer coisa que um artista sinta que tem de exprimir. Nunca na minha vida pensei que iria ser artista. Fazia aquilo só porque sim, não por querer ser artista. Não tinha esse pensamento. Tudo aquilo era muito inocente. Mas, por outro lado, reconheço que estava lá a vontade de querer fazer algo que, afinal de contas, era meio inato. Quando ouço as gravações penso: "olha, já estava lá". Já existia, sem eu saber, sem pensar muito nisso ou sem ter plano. O importante é reconhecer isso e eu, felizmente, tive esse espaço. Há quem não tenha. Hoje, por incrível que possa parecer, ainda é a minha vida. Acabou por ser a minha profissão.
Estou muito curiosa para perceber que tipo de adolescente eras. Sinto que, ao longo do teu percurso artístico, continuaste com esse adolescente dentro de ti, mas sempre um pezinho no futuro. De alguma forma, esse mergulho no passado emergiu como uma espécie de renovação?
Não sei. Confesso que nunca penso no passado. Não há um momento em que o passado me assalte. Dou-te um exemplo muito prático. Todos os anos, faço listas de coisas que quero fazer. Quando acaba o ano, olho sempre para a lista que fiz. E não há um único ano em que tenha cumprido mais de vinte por cento das coisas que lá estão. O que é que isso significa? Significa que o presente é muito atarefado. Sinto que tenho imensas coisas que gostava de fazer, mas que a falta de tempo não deixa. Algo que tive de aprender na idade adulta é que também preciso de tempo para não fazer nada. Preciso de tempo para estar com as pessoas de quem gosto. Houve uma altura na minha vida em que usava o tempo para fazer tudo e mais alguma coisa. Isso não é positivo. Não é positivo para mim nem para a minha saúde física e mental. Não sei exatamente o que é que o passado faz por mim porque olhar para trás não é algo que esteja presente na minha vida. Talvez devesse fazer isso mais vezes…
Não é quem és...
Não. Não é. E nem sequer acho que haja alguma glória nisso. As pessoas gostam muito de somar. É aquela coisa de dizerem, "já tenho não sei quantos anos disto". E eu estou-me a borrifar para isso. Até podia ter começado ontem. É-me completamente indiferente. Não acho que dê mais ou menos valor àquilo que eu faço. O valor não é medido pelo trabalho que uma pessoa teve a chegar a determinado ponto. Por exemplo, quando uma canção custa mais a desenvolver, posso demorar três anos a compô-la. Mas também posso fazer com que uma canção aconteça em cinco minutos. E a canção que levou mais tempo a fazer não tem mais ou menos valor que a outra. Acho que as coisas não se medem assim. Medem-se pelo valor intrínseco do que temos à frente. (...) Não olho para o valor do tempo das coisas. Interessa-me a coisa em si. (...) E na minha vida acontece o mesmo. Não reflito sobre se vivi muito ou se fiz muito. É-me completamente indiferente porque sempre que faço alguma coisa sinto que estou a começar do zero. O facto de fazer isto há muito tempo pode não ser uma vantagem. É esperado algo de mim que nem sempre sei se está ou não lá. Quando parto para uma canção não faço a mais pequena ideia sobre o que vai acontecer a seguir. Não sei se vai ser boa, se vai ser má. Se vai ser mais rock ou uma balada. Nem sei sobre o que é que o tema vai falar. É tudo um mistério para mim. E isso, no fundo, é muito parecido ao que é ser adolescente. Nessa idade a vida também é um mistério. Sinto que para a minha profissão é uma condição sine qua non manter uma criança dentro de nós.
Sim…
A criança tem sempre uma certa curiosidade, não é? E uma certa inocência. Esse lado tem de ser mantido. A vida adulta empurra-nos para estarmos dentro de um certo padrão. Define o que é que uma pessoa de determinada idade faz, como se comporta ou qual o papel que deve desempenhar. A sociedade e a nossa forma de pensar empurram-nos [para esses papéis]. Eu sou contra isso tudo. Acho que as pessoas não devem ter um papel específico em função da idade. (…) Parece que temos de nos ir encaixando ao longo da vida. A determinada altura é suposto fazer isto, noutras é suposto fazer ou dizer aquilo. Acho que todas as fases da nossa vida são fases para fazermos o que nos apetece. Gosto muito da ideia da liberdade. No fundo, é isso. E é por isso que tenho de manter esse lado vivo cá dentro.
Acho que o teu percurso artístico reflete isso mesmo. Ainda assim, quero perguntar-te se ao longo da tua carreira, de alguma forma, sentiste que tiveste de limitar esse impulso por alguma razão...
Senti isso no início. E explico poorquê. Venho de um universo que não é propriamente mainstream. Nunca tive ídolos, nunca tive muita proximidade com aquilo que toda a gente gostava. O meu universo era, portanto, feito de figuras que quase ninguém conhecia. E quando o projeto dos Silence 4 se tornou extremamente popular tive uma dificuldade imensa em lidar com isso. Eram os Silence 4, mas, durante um ou dois anos, senti que estava numa banda com uma popularidade quase extrema. Sentia-me observado todos os dias. Sentia que toda a gente sabia mais ou menos quem eu era, o que na altura foi uma sensação muito estranha. Era muito estranho sair à rua e ouvir as pessoas a dizer o meu nome. Fazia-me muita confusão. Levei muito tempo a entender que isso não era necessariamente uma desvantagem. Hoje não olho para isso como uma coisa necessariamente má. Antes pelo contrário. Praticamente todas as interações com desconhecidos que me abordam por causa da música são extremamente positivas. São interações alegres. Alegram o meu dia. E acabo por conhecer pessoas que, de outra forma, nunca teria a oportunidade de conhecer. Nem que seja durante cinco minutos trocamos ali uma ideia ou outra. É sempre uma vantagem. Demorei muito tempo a entender que era uma vantagem na minha vida. Mas também por causa da timidez. Era muito tímido na altura.
Voltando ao single 'Nada a Perder'...
Sim.
Há pouco, em off, estavas a falar do videoclipe para o tema. Não sei se já podes falar oficialmente sobre o vídeo, mas, ao escutar o tema, eu estava a imaginar-te num cenário de libertação, a dar o grito do Ipiranga, algo do género…
Sim, é por aí...
Porquê este single agora?
Quando faço as canções nunca sei exatamente qual é que será o single. Não faço ideia. Mas quando fiz este tema gostei logo da mensagem da canção. É sobre algo que ando a apregoar há muito tempo. Há algumas canções que estão mais perto da minha forma de ver e de pensar. Há muitos anos, estava a discutir política com um amigo meu e ele disse-me que não sabia se eu era um libertário ou um libertino. E eu disse-lhe que era ambos. E esta canção fala muito sobre isso. Fala sobre a sensação de que as coisas estão sempre a começar. Tenho essa sensação muitas vezes na minha vida. Há uma frase da qual gosto muito. A minha mãe tem essa frase num azulejo da cozinha. As pessoas gostam muito de dizer que vivem o dia como se fosse o último. E a frase que a minha mãe tem na cozinha diz o contrário. Diz para vivermos o dia como se fosse o primeiro. Gosto muito mais dessa ideia. Acho que não há utilidade nenhuma em ser o último dia. O último dia seria um disparate. Se fosse o meu último dia, garanto que iria fazer muitas asneiras. Mas se fosse o primeiro seria diferente. O primeiro dia faz-nos pensar que ainda está tudo por descobrir. (…)
Está tudo em aberto...
Sim. Tudo em aberto. E esta canção fala muito sobre isso. O título 'Nada a Perder' tem a ver um pouco com a ideia de uma pessoa sentir que a vida está quase sempre a começar. Sinto isso muitas vezes. Aliás, uma das melhores coisas que faço quando acordo é pensar: "o que é que será que vai acontecer hoje?". Porque nunca sei o que vai acontecer. Podem ser coisas boas ou coisas muito más. E nem acho que seja uma injustiça, quando acontecem coisas terríveis. Acho que isso tem a ver com o facto de ter crescido numa família muito católica. A ideia do mundo católico é o de que a vida é difícil. Eu gosto de pensar que, de facto, a vida é não é desenhada para ser fácil. Há coisas para ultrapassarmos todos os dias. As pessoas querem muito que a vida seja um mar de rosas, mas é exatamente o contrário. E, às vezes, encontramos uma rosa no meio dos espinhos. E isso é o milagre que devemos perseguir todos os dias, aceitando também que o resto pode ser mais complicado. (…) A vida de um animal é bem mais fácil. Só tem de sobreviver. Não têm de pensar muito. Não há pensamento, só há ação. Os animais só têm de sobreviver, só têm de ser felizes. E, por isso, os cães são um elemento fulcral no vídeo desta canção. Tem muitos cães. Toda a gente sabe que gosto muito de cães, de gatos, de animais no geral. Para mim, os animais simbolizam uma coisa que, às vezes, nos falta na vida. Para eles todos os dias são uma novidade. Os animais não se lembram do dia anterior e não sabem como é que vai ser o dia de amanhã. Só se lembram do momento que estão a viver. Obviamente, que têm memórias de coisas muito específicas, como os cheiros, os donos ou os sítios que gostam. Têm essa memória ativa e reagem. Mas aquilo que gosto mais nos animais é que eles vivem literalmente o momento presente. Vivem o momento que está aqui. (...)
Reparo nisso todos os dias com o meu gato. Parece que está sempre a ver as coisas pela primeira vez. E nós vemos tudo como uma novidade adquirida…
Eles ficam muito intrigados com tudo. E os miúdos também são assim. Ficam a olhar para as coisas, a pensar. E depois fazem perguntas "parvas", que para nós são óbvias. Um dia destes, estava a falar com o meu filho acerca das grandes invenções da tecnologia. E, para mim, uma das maiores invenções de sempre é o YouTube. Porque, atualmente, quando tenho uma dúvida, vou ao YouTube e há sempre um "maluco" qualquer com a resposta. Eu sou a pior pessoa a lidar com máquinas. Não sei arranjar nada. (…) E no outro dia, a minha máquina de lavar loiça avariou-se. A máquina não funcionava e eu não estava a perceber porquê. E, claro, fui ao YouTube. Escrevi, "como é que se arranja isto?" e encontrei um senhor sueco que me ajudou. Ou seja, pela primeira vez na minha vida, consegui arranjar uma coisa. Liguei, inclusivamente, a amigos meus só para lhes dizer que tinha conseguido arranjar a máquina de lavar loiça. Era algo que não entendia e que alguém me explicou como se eu fosse um miúdo. Eu sou de uma geração completamente diferente. Quando comecei a revelar fotografias no meu estúdio improvisado na casa de banho dos meus pais, as fotografias saíam quase todas pretas. E eu não conseguia entender porquê. Demorei três meses a entender que isso acontecia porque tinha obtido uma informação errada na loja de fotografias. Ora, o senhor da loja disse-me que podia revelar as fotografias com luz vermelha ou com luz amarela. E eu optei pela luz amarela, o que acabava por queimar as fotografias. Se na altura existisse YouTube, teria descoberto logo qual era o problema.
Só tinhas as Páginas Amarelas…
Exato. Mas, por outro lado, aprendi a lidar com a frustração. Aprendi a ser resiliente. Durante três meses não desisti. E quando descobri a forma correta de fazer aquilo deu-me muito gozo ver o resultado. Acho que isso perdeu-se nos dias de hoje.
É outro lado da moeda…
Quando as coisas não funcionam, não entro em fusão como os miúdos entram. (…) Acho que é uma coisa boa da minha geração, mas ainda bem que agora não é assim. Naquele tempo também teria sido mais divertido aprendermos mais depressa. Eu aprendi tudo muito devagar, com muita paciência. Aprendi tudo com os livros. Tinha de ler com muita atenção, duas ou três vezes. Mas isso ajudou-me noutras coisas, não é? (…) Quando o meu filho está a mexer no computador, eu estou sempre a pedir-lhe para "ir mais devagar" de forma a conseguir acompanhá-lo. Os miúdos têm uma rapidez que eu não tenho. (…) Portanto, eles agora têm este mundo, o meu é outro. Sou especialista no meu e eles são especialista no deles. Ainda bem que é assim.
O melhor será cruzar esses mundos diferentes e criar um equilíbrio entre os dois...
Claro, sim.
E o que é que já podemos saber sobre o novo álbum?
Posso dizer que o novo álbum vai ser todo em português.
Porquê essa opção?
Quando começo a fazer música nova penso muitas vezes no que é novo para mim naquele momento. Penso, no fundo, no que me apetece fazer naquela altura. E, por incrível que possa parecer, só fiz um disco em português ao longo de todos estes anos. E gostei muito de fazer esse álbum. Foi, aliás, um dos que mais gostei de fazer porque tinha precisamente a característica de ser uma novidade. Foi como fazer um disco pela primeira vez e nem sabia como é que iria fazê-lo. E isto já foi há cerca de dez anos. Agora pensei que se fizesse outro [álbum em português] seria o "difícil segundo disco". E adorei a ideia. Ficou na minha cabeça e já não saiu. Se é difícil, é para fazer. Quando é muito fácil perco a vontade. E também me atraiu a ideia de fazer uma coisa que já não faço há muito tempo. O disco está numa fase avançada. E estou a gostar muito de fazê-lo. Se bem que estou sempre a mudar de ideias. Às vezes, sinto-me o Kanye West dos discos (risos). Faço um tema que acho que vai ser incrível, chego a gravá-lo mas, passado uma semana, decido que, afinal, o que gravei já não vai entrar no álbum. Tenho feito muitas canções. Felizmente, não tenho aquilo a que se chama de writer's block [bloqueio criativo]. Mas também porque aprendi muito sobre o bloqueio artístico noutra área que não a da música. Quando tirei o curso de cinema havia uma disciplina, na qual era péssimo, que era a escrita de argumento. Nunca sabia o que escrever. Gosto muito de cinema mas sei que há pessoas que têm mais facilidade a escrever, a inventar situações e depois a transformar tudo isso num argumento. Quando tive de escrever um argumento pela primeira vez não sabia o que havia de fazer. Estive semanas sem conseguir apresentar nada. E na altura disse ao meu professor que nem sabia por onde começar. Disse-lhe que tentava e que era muito frustrante não conseguir. Foi então que ele sugeriu um método para me ajudar. Disse-me para escrever algo todos os dias, à mesma hora. Achei aquilo um bocado estúpido e perguntei-lhe o que devia fazer, caso não surgisse nenhuma ideia. E ele respondeu-me: "ficas lá sentado". Com isso aprendi uma lição para a vida inteira porque foi precisamente o que comecei a fazer. E percebi uma coisa muito interessante sobre o tempo que podemos dedicar a algo. Se me sentar todos os dias, à mesma hora, para estar três horas dedicado a uma coisa, nem sempre tem de acontecer algo. O que tem de acontecer é a dedicação a essa coisa. É assim que trabalho nos dias de hoje. Não sinto bloqueio porque, na realidade, o bloqueio está sempre lá. Eu tenho é de estar lá durante esse bloqueio. Dedico três ou quatro horas àquilo, mesmo que não aconteça nada. (…) Fico lá durante esse tempo todo, brinco com os instrumentos e até posso ter ideias. Mas no final ouço e acho que ficou tudo uma porcaria. Vou para casa e nem fico triste. Aprendi que isto é apenas uma parte do processo. Até que há dias em que as coisas acontecem. E depois é como uma bola a descer uma montanha. A bola vai começando a ficar cada vez maior e o entusiasmo começa a crescer. Resumindo, tem a ver com disciplina – algo que é tão necessário nesta profissão como noutra profissão qualquer. Há quem diga que não aprendeu nada na faculdade, mas eu fartei-me de aprender. E essa foi uma das minhas aprendizagens. Aprendi que a disciplina é necessária no trabalho artístico. Quando ouço alguém dizer, "ah, não estava inspirado", dá-me alguma vontade de rir. A inspiração é algo que acontece, sim, mas não posso deixar que o fruto do meu trabalho esteja dependente de uma coisa que pode acontecer sabe Deus quando. Como não sei, evito que a minha vida dependa disso. O trabalho é uma coisa muito mais séria. Como costumo dizer, "tem de ser dar as horas".
É um ótimo conselho para as novas gerações de artistas...
Acho que é bom para tudo. Não só na música mas em qualquer atividade criativa. Especialmente numa atividade criativa. Parto do princípio de que quem faz uma atividade criativa está feliz, certo? Acho que toda a gente gosta. Uma pessoa que gosta de criar coisas está, como se diz agora na gíria moderna, numa espécie de safe space [lugar seguro]. É um sítio maravilhoso. Não vejo razões para uma pessoa se negar a dar tempo a esse lugar. A estar mais tempo nesse sítio, a fazer as suas coisas e a inventar. Por vezes, pode ser frustrante, mas é uma frustração que acontece nesse tal safe space. Não é frustrante na vida real. Também é frustrante estar dentro de um carro durante quatro horas a caminho do emprego. Acho que isso é ainda mais frustrante. Portanto, não acho que seja algo negativo. Mas isso sou eu que sou muito lírico. Há quem ache que sou lírico demais ou muito positivo. Mas acho que não. Acho é que há um lado positivo em tudo na vida. E se não for positivo, pode, pelo menos, ser engraçado. O humor está sempre presente. Até nas maiores tragédias da vida há sempre qualquer coisa absurda que pode ser extremamente engraçada. Acho que é algo que faz parte do espírito humano e o que nos diferencia dos animais. É podermos ver o absurdo que, por vezes, a vida é. E o quão random [aleatória], tão maluca pode ser. Só precisamos de estar atentos. As pessoas nem sempre estão atentas porque estão muito ligadas aos problemas intrínsecos do dia a dia, o que é compreensível porque são muitos. A vida pode ser uma chatice. Mas acho que devemos estar atentos.
É como diria Leonard Cohen na canção 'Anthem', "há uma fissura em tudo, é por onde a luz entra"…
Mas é mesmo. Há qualquer coisa no dia a dia que me apaixona. As pessoas costumam gostar de grandes eventos, eu prefiro os pequenos. O melhor que me pode acontecer são os pequenos eventos. Falo das pequenas coisas que acontecem...
Sim, as tais "rosas" de que falámos há pouco...
São as pequenas coisinhas que vão acontecendo ao longo do dia. Por exemplo, o que as pessoas dizem no supermercado. Estou sempre muito atento às conversas alheias. Gosto de ouvir as conversas dos outros. Acho fascinante olhar para os pormenores das coisas. Gosto de observar as pequenas maneiras que as pessoas têm de ver, de viver. Eu gosto muito de fotografia e de fotografar. E fotografar é isso mesmo. Fotografar é olhar para o mundo e perceber como é que funciona. Acho que isso acontece também na comédia, por exemplo. Tenho muitos amigos que estão na área do humor. E quando os observo no dia a dia, e estamos em situações que não têm nada a ver com a profissão, reparo que eles simplesmente não conseguem desligar das pequenas coisas que vão acontecendo à nossa volta. É engraçado. No fundo, é uma forma de desmontar o mundo que vai acontecendo mais direitinho. A música, o humor e a arte em geral são um exercício de desmontar o dia a dia que é inevitável que aconteça. (…) Nós estamos constantemente em modo automático na vida mas se olharmos com mais atenção, acontecem coisas engraçadíssimas. São engraçadas e emotivas ao mesmo tempo. São coisas com um determinado grau de emoção que passa ao lado das pessoas porque estão demasiado focadas no dia a dia. Acho que o meu papel, como artista ou como músico, é olhar para esses detalhes com mais atenção e depois escrever sobre eles. Tento que as pessoas consigam entender isso e que possam exultar esses detalhes de uma forma mais positiva. Acho que é isso.
Isso leva-me a outra pergunta. No álbum anterior apostaste numa componente visual muito forte. Estás a pensar em fazer algo do género neste disco?
Sempre que faço uma coisa muito complicada visualmente a primeira coisa que digo mal chego a casa é, “nunca mais faço isto”.
Do género, “nunca mais bebo”…
É mesmo isso porque sinto que estou a sair de uma espécie de ressaca. É um defeito meu. Meto-me sempre em aventuras que, ao início, penso sempre que são muito simples. Mas depois não são. Antes pelo contrário. São extremamente complicadas e demoram muito tempo a fazer. E a meio do processo faço sempre a mesma pergunta, “mas qual é que foi a razão de me meter nisto?”. Só que depois acabo por me esquecer do trabalho que aquilo deu porque quando olho para trás não é disso que me lembro. Só me lembro do resultado e não do trabalho que deu a fazer. Mas quando estou no meio do turbilhão arrependo-me mil vezes. É a parte que as pessoas não veem, nem têm de ver. São processos que demoram muitas horas. Chego a estar durante semanas seguidas metido num estúdio a editar ou em reuniões. Tenho de ir às lojas comprar plásticos também. (…) Uma coisa boa é que, à medida que os anos vão passando, gosto cada vez mais da minha profissão. Cada vez gosto mais de fazer tudo isto. Ponho as partes mais complicadas para trás das costas. Por isso, não sei se vai ser visualmente tão interessante como o outro. Posso dizer agora que não e daqui a pouco já estar a fazer uma coisa muito complicada. É o costume. (...) Eu não gosto de ter tudo extremamente planeado. Não gosto quando está tudo no sítio. Gosto de uma certa dose de caos.
Improviso também...
Dou como exemplo o vídeo [do novo single] que acabámos de filmar. Como foi gravado ao ar livre, andámos a adiar o vídeo durante muito tempo por causa da chuva. Às tantas, continuava a chover e eu não podia adiar mais. Tive de tomar uma decisão e dizer, “vamos fazer o vídeo, de uma ponta à outra, à chuva”. Então, estive seis horas à chuva. E, atenção, chovia torrencialmente. Mas pensei, “não faz mal”. Senti que se calhar teria mesmo de ser assim. E, de repente, o vídeo transformou-se noutra coisa. Havia uma ideia inicial que se tornou completamente diferente porque a chuva deu um ar mais dramático àquilo tudo.
Sim…
Eu não tenho medo de andar à chuva. Ando à chuva, se for preciso, na minha bicicleta. Até achei que foi mais divertido. Foi pior para a equipa técnica. Estavam completamente encharcados. Pedi-lhes desculpa mas também lhes disse que foi a vida que escolheram (risos).
Como já disse, tens sempre um pezinho na renovação, no futuro e já deste muito à música portuguesa. Também és assim no palco, parece que há sempre algo novo prestes a acontecer nos teus concertos. Quero por isso saber se já podes contar alguma coisa sobre os espetáculos que vais dar na Super Bock Arena e no Sagres Campo Pequeno em novembro. Sei que ainda falta algum tempo e há sempre ideias que podem surgir até lá…
Já sei algumas coisas. Porque nós debatemos muito sobre os espetáculos. Digo nós porque, embora seja eu a dar a cara, ao vivo há um grande grupo de pessoas envolvidas. E nós falamos muito sobre o que vamos fazer a seguir. Sinto que os espetáculos são o melhor sítio para mostrar às pessoas aquilo que está na minha cabeça. Até mais do que as canções. Os espetáculos ao vivo são uma espécie de entrada no meu universo pessoal e da forma mais próxima possível. É por isso que, ao longo destes anos, temos vindo a construir uma espécie de persona de espetáculo. O espetáculo cruza imagens, truques de magia, música, breakdance, storytelling e humor. E sinto que esse percurso começou há cerca de quinze anos quando comecei a entender o que efetivamente queria fazer em cima do palco. Passo a passo, vai sendo levado de uma forma diferente sobretudo quando sinto que estou mais à vontade nesse universo. Estes espetáculos vão ser uma continuação desse universo mas com uma dimensão maior. Este ano, também vamos fazer um espetáculo de teatros, que se vai chamar "Viagem Sem Mapa". É uma coisa muito maluca e meio estranha. Vou convidar as pessoas para o meu processo artístico e vou explicar-lhes como é que as canções efetivamente se fazem na minha cabeça. (…) Vou tentar explicar ao vivo como é que o processo criativo funciona e porque é que pode ser tão absurdo. É um convite a uma zona onde há uma espécie de liberdade total de pensamento. É onde vale tudo. Desde a conversa que estamos a ter, à comida que estamos a comer até à palavra que acabámos de ouvir. Tudo tem a ver com o processo criativo. Vou explicar como é que essas coisas se cruzam para a criação de uma canção ou de outra coisa qualquer criativa. Os concertos já vão ter alguns elementos desse projeto. E depois têm a banda, o que promove um maior diálogo musical. Acho que vou misturar tudo isso. Cada vez mais quero afastar-me do espetáculo tradicional. Quero que as canções sejam lugares que as pessoas possam visitar. É como entrar no universo da Alice no País das Maravilhas. Mas durante aquelas duas horas vão entrar no meu universo. (...)
Já viste o filme "Almost Famous", do realizador Cameron Crow?
Claro que vi. Toda a gente que gosta de música gosta desse filme.
Vou roubar uma fala do filme que, na verdade, é uma pergunta que uma das personagens, que é jornalista de música, faz a um dos elementos da banda que centra a narrativa. O que é que mais gostas na música?
Eu ouço muita música. Eu ouço mais música do que faço. Acho vai ser sempre assim. O que eu gosto na música não é necessariamente a música que faço, essa tem outro papel na minha vida. O que eu gosto na música é o que a música me traz quando a ouço. Funciona como um portal. Quando ouço música sinto que entro num sítio que não sei exatamente onde é. Gosto muito de ver pessoas a dançar. Algumas a dançar sozinhas, de olhos fechados. Quando olho para essas pessoas penso: "olha, aquela pessoa também está nesse tal sítio". Não tem a ver necessariamente comigo, mas é um sítio para onde a música tem a capacidade de me levar. (…) Há músicas que me põem num estado emotivo imediato e não consigo perceber porquê. Às vezes, questiono: "será que é a letra?" E não é. É qualquer coisa na sequência dos acordes, na voz das pessoas ou nos instrumentos. É algo que tem o condão de me levar para outro sítio. Acho que isso é uma coisa absolutamente maravilhosa. É um som, uma mistura de sons que alguém fez com muita arte, com muita dedicação. E a música é, de facto, uma coisa extremamente complexa, embora muito intuitiva. A música tem muitas fases e coisas muito técnicas. E tudo isso misturado elabora um som que consegue chegar a um sítio. As duas coisas que gosto mais na música é quando me leva para um sítio extremamente emocional sem que perceba porquê. É quando provoca arrepios, sabes? (…) E a outra coisa é quando as canções, por si só, exultam a criança e o adolescente que existem em mim. Há canções que assim que começam metem logo o meu corpo a mexer. (…) Acho que o poder que a música tem é algo muito raro. Não acontece com quase mais nada. A música tem o poder de nos tirar de uma certa solidão. O facto de haver uma música que nos junta é uma coisa maravilhosa. É por isso que quando vou aos concertos quero sentir o que está a acontecer a todas as outras pessoas ao mesmo tempo. Gosto muito da ideia de estarmos todos juntos - o que no mundo moderno é cada vez mais difícil. Julgo que a música é uma das últimas coisas que nos junta de alguma maneira. É a música que nos põe a falar uns com os outros, que desmancha preconceitos, desentendimentos ou visões do mundo que nos parecem contrárias. Acho absolutamente mágica a ideia de concordância na música. É o que mais me fascina e continua a fascinar - tanto como criador mas essencialmente como ouvinte. Até diria que, na maior parte das vezes, gosto mais de ser ouvinte do que criador. Criar pode ser algo muito complexo. Pode ser duro e demorar muito tempo. E ser ouvinte não. Para ser ouvinte basta carregar num botão.
