Rádio Macau: a estrela não se apaga

Concerto de mais de duas horas ao mais alto nível e repleto de memórias.

O primeiro concerto da despedida dos Rádio Macau, que ocorreu nesta noite no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. teve a grandeza do irrepetível, que nenhum festival conseguiria afunilar. O concerto foi cheio de canções e de pormenores, em mais de duas horas, na sua nação afetiva, diante dos seus fãs. Nesta noite, os Rádio Macau conseguem atravessar todos os momentos da sua carreira discográfica, de 1984 a 2008 e isto só se consegue num espetáculo em nome próprio.

Por volta das 21h40, uma cortina transparente permite a visão de uma estrela ao fundo. Nós conhecemos essa estrela da capa do terceiro álbum, o mais impactante “Elevador da Glória”, que está estampada nas t-shirts e merchandise que estão à venda nas instalações do Coliseu.

A cortina transparente evidencia as figuras dos Rádio Macau como silhuetas. Depois a cortina sobe e vemos Xana a vestir um fato claro listado como nunca a vimos. O tema inicial é uma cartada fora do baralho, ‘Logo Se Vê’. Flak faz os seus grooves com a sua guitarra canhota, o baixista Alex e o baterista Samuel Palitos encorpam um tema aparentemente comedido. Há ainda uma tensão nervosa no ar que nos prende a todos.

Ja ‘O Hábito Faz o Monstro’ é rock & roll em carne viva, renascido com um outro arranjo enquanto Xana tira o casaco e deixa mais à vista a sua camisa de seda. A cantora faz a seguir o aviso: “este é o primeiro dia da nossa despedida”, a lançar a deixa para ‘Amanhã É Sempre Longe Demais’. Flak e Alex ladeiam-se numa amizade com muitos anos, enquanto uma mulher corajosa desinibe-se e dança sozinha no corredor central da plateia sentada. O público começa a aquecer a voz e arranha o refrão. Quando o corpo instrumental acalma, Flak aproxima-se do público e Xana bate palmas e encoraja a cantoria do refrão que escala de apogeu em apogeu, numa versão ao vivo ainda mais grandiloquente, que faz esquecer o nervosismo inicial. Xana dedica depois o tema ‘Levo-me no Voo das Minhas Asas’ a um amigo que partiu há poucos dias… Jorge Palma, claro. Várias pessoas se levantam. A estrela do fundo do ecrã vai mudando de coloração, como um camaleão. Em ‘Entre a Memória e o Sonho’, cintilam os teclados de Luís Filipe Valentim, naquela suavidade muito à Rádio Macau. Flak faz a sua primeira aproximação à plateia e contempla a vista enquanto tece os seus acordes.

Na música ‘É Tão Fácil’, a banda prova-se muito bem ensaiada, com os pára-arranca nos tempos certos. A ignição é recente mas a máquina já está bem oleada. Procura-se em vão a ferrugem, mas só encontramos frescura e uma renovação de arranjos. Xana está já a cantar na plataforma mais alta por trás de Samuel Palitos. E depois passa para a outra ponta lá atrás para dar voz a ‘De Azul em Azul’, uma espécie de trip-hop mas com a nossa melancolia portuguesa. É o tema a solo de Flak que semeou o regresso dos Rádio Macau em 2000 depois do longo interregno. Os sons em ‘De Azul em Azul’ são poucos mas todos preciosos. A música sobrevoa-nos como as nuvens, e faz-nos virar a cabeça para cima..

Em ‘Quebra de Atenção’, Xana trata o gongo como um brinquedo sagrado que mal se pode tocar. Já nos teclados de Valentim, cabe todo o Extremo Oriente, enquanto os dedos de Flak parecem ter bicho carpinteiro na guitarra. ‘Acordar’ é mais um momento especial, tão sereno quanto espaçoso e belo. Xana ergue os braços e Samuel Palitos canta o tema com um entusiasmo de criança mesmo quando a sua boca está longe do microfone, logo ele que está intimamente ligado ao desenvolvimento do tema em 2003.

As emoções intensificam-se na ‘Cidade Fantasma’. A banda soergue-se no ar como na letra, o sorriso de Xana abre-se e o público levanta-se. É um momento de comunhão e de felicidade para toda a gente na sala. Xana faz então as apresentações e não se esquece dos letristas da banda Vitinha e Pedro Malaquias, antes de cantar ‘Bom Dia, Lisboa’, uma das cartas de apresentação da banda ao público em 1984. Xana canta a inclinar o suporte de microfone, num tema em que Flak é o único que não canta, tal o empenho coletivo de toda a banda. ‘Um Dia a Mais’ tem o turbo do pós-punk no motor sonoro da banda. Xana vai-se soltando cada vez mais, sentindo-se o seu gozo em palco, saltando, dançando e procurando o público, para quem acena os braços no ar.

‘Entre a Espada e a Parede’ apanha os Rádio Macau numa profundidade poética, sempre com a luz da beleza melódica. Xana, de rosto suado, entrega-se totalmente à canção antes de sair para uma muda de roupa, aproveitando o interlúdio instrumental, com Flak numa percussão quase baiana, ao mesmo tempo que o ecrã projeta imagens de um povo migratório (serão os palestinos?). Xana regressa com uma camisa prateada e umas calças escuras, para cantar ‘Guarda a Faca’, tema que apesar do seu arsenal de programações está cheio de garra rock em palco. Quando os Rádio Macau tocam ‘Tarde Demais’, desfilam murais de contestação no ecrã, com frases como: “Vocês pensam no fim do mundo, nós pensamos no fim do mês”. Para a ‘Cantiga de Amor’, o dedilhado delicado de guitarra do tema exige a Flak algum tempo de afinação e preparação, rumo a um romantismo de noite de luar com todas as suas nuances. Assim que se ouve ‘Aos Meus Amores’, sentimos os Rádio Macau na excelência do seu encanto outonal. O solista Flak faz mais um brilharete na guitarra, tomando a frente do palco. Xana está cada vez mais efusiva a cantar, quase que dobrando o suporte de microfone.

O ‘Elevador da Glória’ é o nome do funicular lisboeta, talvez a subir, mas aqui no Coliseu o tema ascende como um foguetão, num momento de alta voltagem para todos, sobretudo para o público que se ergue verticalmente. ‘O Elevador da Glória’ abre espaço para Xana cantar por uns segundinhos ‘Gloria’ de Van Morrison (mitificado também por Patti Smith) no auge da música. Na canção ‘O Anzol’, até nos camarotes as cadeiras se tornam objetos esquecidos. Xana pega na guitarra acústica e o solo de Flak é agora na harmónica, num fôlego reforçado por um trio de metais que surge no final. A banda sorri cada vez mais. Estamos já na descompressão. Flak passeia-se pelo palco sem parar, Xana aconchega-se junto de Alex e Flak aparece entre os dois, os eternos amigos e uma adolescência que vive dentro deles, mesmo que com mais de 60 anos.

O público pede encore, cantando a melodia d’O Anzol. Os Rádio Macau fazem-lhes a vontade e regressam ao palco, para tocar ‘Era uma Vez (E Não Sei Mais)’, imerso na eletrónica, mas em que Xana assume as emoções e os dilemas humanos. Altera-se o alinhamento, a banda troca umas impressões, risca-se um tema ou outro do alinhamento e Xana bem que avisa: “vamos voltar a 1985”. E eis ‘A Vida num Só Dia’, demasiado importante para não ser vivido de pé, é o que acha pelo menos o público. As dedadas finais de Alex no baixo continuam a deixar as marcas, como pegadas de um animal gigante. O tema que teve honras de maxi-single é maximizado na duração e na sua grandeza no Coliseu dos Recreios. O trio de metais está lá metido. A grandeza do tema desaconselha o fim, ninguém quer que o concerto dos Rádio Macau termine. O que é bom custa a terminar. Os Rádio Macau viveram “como por magia” as suas vidas num só dia. Belo concerto!