Rafael Gallo: "Ter um retrato feito por Daniel Mordzinski é saber que se entrou num círculo muito especial"

Escritor brasileiro e Prémio Saramago destacou a importância da obra do fotógrafo argentino durante a inauguração da exposição patente no Centro Português de Fotografia, no Porto.

Para Rafael Gallo, estar representado numa fotografia de Daniel Mordzinski é mais do que fazer parte de uma exposição. É integrar uma galeria simbólica composta por alguns dos maiores nomes da literatura mundial.

O escritor brasileiro não escondeu a emoção ao encontrar o seu retrato entre as imagens expostas no Centro Português de Fotografia, no âmbito do BABELL – Festival Literário do Porto.

"Todo escritor conhece o trabalho dele", afirmou. "Há uns dez anos participei num clube de leitura cuja curadoria era feita a partir de uma exposição do Daniel. Lembro-me de olhar para aqueles escritores: Adriana Lisboa, José Saramago, Mario Vargas Llosa e pensar: estes são os grandes."

Na altura, Gallo dava os primeiros passos na carreira literária. Hoje, ao ver-se fotografado pelo artista argentino conhecido como "o fotógrafo dos escritores", reconhece o significado especial do momento.

"Eu pensava que, se um dia tivesse um retrato feito pelo Daniel Mordzinski, saberia que tinha chegado lá. Não no sentido da vaidade, mas por poder entrar, de alguma forma, nesse círculo. É uma honra imensa e uma alegria tremenda."

A fotografia exposta foi captada durante a participação do autor no festival Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim. Como é habitual no método criativo de Mordzinski, a sessão surgiu de forma espontânea.

"Ele cruza-se connosco e diz: 'vamos agora para a praia'. Tem ideias repentinas e muito bonitas", recordou. "Pedia para pegar num pano, mudar de posição, deixar o vento entrar na imagem. Fizemos dezenas de poses."

Para Gallo, essa procura constante de novos enquadramentos aproxima o fotógrafo dos escritores que retrata.

"Ele tenta sair do óbvio. Não quer a fotografia tradicional do intelectual sério. Procura quebrar a imagem anterior para construir uma nova. E isso é o que todo o grande artista faz."

A exposição apresenta escritores distribuídos por diferentes núcleos temáticos ligados à liberdade, à resistência e à capacidade transformadora da palavra. Questionado sobre essa ligação, Rafael Gallo defendeu que a literatura também desempenha um papel fundamental na construção de uma sociedade mais livre.

"Tenho de ser humilde o suficiente para saber que não sou alguém da linha da frente, um mártir ou um grande soldado. Mas a arte tem uma função importante: conversar com as pessoas e oferecer histórias que mostrem que é possível pensar a vida de outra maneira."

O autor considera que a literatura pode desafiar visões estabelecidas e ampliar horizontes. "Vivemos muitas vezes numa lógica centrada apenas no trabalho, no dinheiro e no lucro. A literatura mostra que existem outras coisas de enorme valor, coisas que ampliam as janelas através das quais vemos o mundo."

Essa visão está presente também na sua própria escrita. Gallo procura questionar estereótipos e expectativas sociais através das personagens que cria. "Gosto de escrever histórias que mudem o ponto de vista sobre determinados tipos de pessoas. É esperado que uma mãe seja de uma determinada maneira, ou que um músico seja de outra. Mas cada pessoa pode ser muitas coisas."

Para o escritor, essa possibilidade de imaginar outras formas de existir constitui uma das expressões mais profundas da liberdade. "Só isso já é uma ideia de liberdade muito grande. Como leitor, foi sempre essa liberdade que me inspirou. E, como escritor, tento agora participar dessa mesma comunidade e dessa mesma troca."