RAYE em noite de gala no Kalorama

Burna Boy também atraiu uma grande multidão. Grandes concertos dos dEUS e dos Yard Act nos palcos secundários.

RAYE surgiu no palco maior do festival MEO Kalorama com glamour de Hollywood à antiga e vestido alva de gala. Raye foi acompanhada na branquidão do guarda-roupa pelos seus sete músicos: um trio de metais, um guitarrista, uma baixista, uma teclista e um baterista.

Rachel Agatha Keen [o seu verdadeiro nome] foi sempre faladora, muitas vezes espontânea, mas de vez em quando com comentários preparados, tipicamente de showbizz. Mas os seus trunfos foram sempre musicais. A voz com que tanto falava era enorme e flutuante no ato de cantar, um autêntico prodígio.

Depois de abrir o espetáculo com ‘The Thrill Is Gone’, RAYE olha para trás e pergunta à banda só para se certificar: “este é o nosso primeiro espetáculo em Portugal?”. A resposta veio afirmativa - ou será que RAYE já sabia a resposta? Depois, abriu-se um pouco sobre si e afirmou:  “Vou cantar-vos uma música esperançosa, não tenho muitas”. Era 'Worth It', antes de pôr à votação a música que queriam que cantasse: uma das duas opções era ‘Oscar Winning Tears’, segundo o critério de RAYE - interpretaria essa música à mesma?  

Com tantos músicos em palco e tantos encargos num espetáculo caro, RAYE deixou sempre que a sinceridade do momento se impusesse. E voltou a perguntar: “O que é que eu fiz para merecer isto?”, em deleite com a vista para o numeroso público que tinha do palco. Depois fez um discurso sobre vícios, que definiu como: “é o que não consegues dizer não”. E depois cantou sobre o assunto em ‘Mary Jane’, de joelhos no chão, esplendorosamente. Tira umas pestanas postiças e comenta que aquela canção já está a durar há muito tempo ainda a meio da interpretação. Só RAYE poderia ter um momento daqueles. A transparência é a sua força.

Depois alertou que a música seguinte era “tristíssima”. “Não gosto de a cantar, mas tenho que o fazer. É sobre tentativa de violação”. A canção era evidentemente ‘Ice Cream Man’, em que RAYE recorda a tentativa de assédio que sofreu de um produtor - “He told me, ‘Come to catch a vibe and make some music’ / But when I got there, should've heard what he was saying / Tryna touch me, tryna fuck me”. A difícil canção termina como a declaração da sua força enquanto mulher, sem conseguir esconder as lágrimas após a ovação.

Sempre uma tagarela (elogio), RAYE avisou que a fresquinha ‘Genesis’ seria “a última música triste” que iria cantar. É um tema sobre a ansiedade e a falta de auto-estima delegada e viciada nas redes sociais, e outra vez o fantasma autobiográfico: “I don't wanna be alive, but I don't wanna die / A fistful of pills and rivers in my eyes”. É uma canção homérica e tripartida, que termina no jazz de big band que RAYE tem à sua mercê. 

Num momento talvez encenado, uma espécie de truque de showbizz, a cantora londrina olha para o relógio e pergunta pelas horas. “Ainda tenho meia-hora pela frente. Agora vamos entrar noutro género”. E cantou a versão do tema de James Brown, ‘It's a Man's Man's Man's World’, numa prova do seu enorme fôlego vocal e da sua capacidade de se metamorfosear.

O cruzeiro musical entra na meia-hora final na festança electrónica, é tempo das vibrações positivas. O nome de Raye ao fundo do palco passa a faiscar ao ritmo das batidas. A cantora passa a abanar mais a cabeça. Mas o trio de sopros continua a fazer ouvir-se.

Raye repara numa cartolina de madrilenos a dizerem que a tempestade na capital espanhola não os impediu de virem a Lisboa - tempestade essa que afetou vários dos concertos do Kalorama em Madrid neste fim-de-semana.

Antes do final, canta uma versão rocker de 'Prada' e termina com outra canção não tão positiva, 'Escapism', sobre a fuga à realidade de um desgosto amoroso afundado em líquidos alcoólicos e na cocaína. “Façam amigos” foi o último conselho de RAYE, num concerto inesquecível.

De tranças rasta, o nigeriano Burna Boy também atraiu uma massa de gente considerável no palco maior do recinto do Parque da Bela Vista. Com um número difícil de contar de músicos e dançarinas em palco, há ali uma população a acompanhar o nigeriano. Há dois bateristas e um staff considerável de músicos do sopro, vários fogachos em palco, e imagens de coisas tão diversas como pizzas, aviões e táxis nova-iorquinos.

Burna Boy mostrou em mais de uma hora de espetáculo a sua geografia musical pan-africana e transatlântica, entre as potências musicais da Nigéria e da Jamaica, entre o afrobeat abundante e o reggae e respetivos derivados neo-milenares.

Nesta última noite do Kalorama, o Parque da Bela Vista estava uma terra fértil em concertos de intensidade exemplar. Foi o caso da atuação dos belgas dEUS no Palco San Miguel, que estão a tocar melhor hoje do que nos anos 90, sem as maldições técnicas que atormentavam as suas experiências ao vivo de há mais de 25 anos, mas que não impediam uma glória épica (como no mítico concerto na lisboeta Aula Magna de 1997, terminado com uma invasão de palco). ‘How To Replace It’ inicia a hora da atuação com baquetadas pesadas na percussão, numa toada dramática de várias camadas e coros, em consanguinidade musical com outras bandas europeias como os alemães Einstürzende Neubauten ou os portugueses Mão Morta. Em francês bem fluido do poliglota Tom Barman, esta abordagem de diseur fica ainda melhor, ao som de ‘Quatre mains’. Depois, a coisa ganha ginga em ‘The Architect’, noutra pérola dos dEUS deste século que muito do público presente parecia desconhecer. Absorver era ainda o verbo que caracterizava o comportamento da multidão. Há mais trinta anos ao lado de Tom Barman, Klas Janzoons tira o foco nas teclas e pega no arco do violino, o instrumento onde começou por se destacar. 

Tom Barman continuava mais diseur que cantor no tema de há 30 anos, ‘W.C.S. (First Draft)’, altura que aproveita para anunciar que os dEUS vão tocar no próximo ano todo o álbum de estreia de 1994, “Worst Case Scenario”, ao qual pertence este rascunho, ou manifesto de liberdade, ou devaneio de jazz, ou como quiserem chamá-lo, num sublinhado forte de um baixo com volumetria excecional de contrabaixo, como o de Alan Gevaert.

Tom Barman mostra o seu impecável português, como o de outro ícone indie dos anos 90, Mark Sandman (o memorável líder dos Morphine), mas sem o sotaque brasileiro do norte-americano, ao afirmar: “ainda temos uma hora para tocar”. E o que tinham para tocar nos segundos seguintes era o tema ‘Instant Street’, a primeira música mais popular dos dEUS do concerto, com aquela primeira metade fofinha e com uma segunda parte sempre em crescendo, a tocar na essência apoteótica do rock & roll, em tornados sucessivos de alta voltagem.

Se a metade final de ‘Instant Street’ toca na essência apoteótica do rock & roll, ‘Fell Off the Floor, Man’ acerta na essência dos próprios dEUS, numa balbúrdia híbrida transformada milagrosamente em canção, cheia de réplicas de sismos elétricos. ‘Hotellounge (Be the Death of Me)’ é logo sentido pelos primeiros acordes de guitarra elétrica bem afiados, numa balada que é quase uma canção de embalo ao modo do rock alternativo - e no quadro de honra dos anos 90. Já ‘Bad Timing’ prefere alimentar-se de uma tensão de Guerra Fria, quase a explodir qualquer coisa, sempre em suspense, a prenunciar um fecho explosivo com ‘Suds & Soda’ que não aconteceu. Como todos os bons concertos, soube a pouco. Faltaria sempre qualquer coisa, porque dava vontade que os dEUS não parassem de tocar. 

No Palco Lisboa, a intensidade dos Yard Act foi mais festiva, com um punk a empurrar para a dança, com muita vida em palco, sete vidas, aliás, incluindo duas cantoras dos coros em coreografias perfeitas. O vocalista James Smith é enérgico, teatral e sobretudo cómico, rodeado de músicos com talento para o frenesim. A hora de hiperatividade dos Yard Act termina com ‘The Trench Coat Museum’, como uma máquina de fusão “made in England” de Pulp com Fall, de humor com crueza, a inspirar o stagedive na assistência e a mobilizar nova descida dos membros dos coros para o centro do palco, para mais uma enlouquecida e perfeita coreografia junto ao vocalista, agachado a fazer manipulação com a sua maquineta. O baixista co-fundador da banda Ryan Needham fazia anos, tal como um dos técnicos de som - “que sorte estar a trabalhar com a melhor banda do mundo em Lisboa”, gracejava James Smith, com uma certa dose de razão. Mas os Yard Act não precisam de aniversários para fazerem a festa.