Reabre o CAM da Gulbenkian: o jardim aproxima-se da arte

O engawa, a pala japonesa, é uma das grandes novidades do edifício.

Reabre ao público a partir deste sábado o remodelado Centro de Arte Moderna [CAM], da Gulbenkian, em Lisboa após a festa oficial de inauguração que decorre na noite de sexta-feira, com as presenças do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas.

Engawa

Um dos maiores impactos desta renovação do CAM é, sem dúvida, o engawa [na foto em cima], a nova estrutura que liga o edifício ao jardim, da autoria do arquiteto Kengo Kuma. O engawa é uma espécie de alpendre, mas ao modo japonês, com um revestimento de mais de três mil azulejos, e uma cobertura que permite, por exemplo, refrescar o próprio edifício do CAM. Todo o material usado é português, tal como desejou Kengo Kuma.

O engawa é o espaço social das casas tradicionais japonesas que não é dentro da casa, nem é fora. Este símbolo para nós é muito importante porque se queremos que o museu seja acessível da mesma maneira que o engawa, então o museu não serve só para contemplar as obras, mas para experienciar a arte de maneira mais dinâmica”, em que o engawa possa ser também “um espaço de encontro””, afirma o diretor do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, Benjamin Weil, em entrevista à nossa rádio. 

Benjamin Weil

Debaixo da cobertura do engawa, vão decorrer várias conversas – como entre Benjamin Weil e Kengo Kuma às 14h00 de sábado, dia 21 -, festas e a aposta na “partilha da cena artística de Lisboa”, defendida pela diretora-adjunta do CA, Ana Botella, durante o encontro com o jornalistas durante este mês.

Novo jardim
O Jardim da Gulbenkian alarga-se até à rua Marquês da Fronteira, num espaço verde novo que é projetado pelo arquiteto paisagista Vladimir Djurovic, num espírito de continuidade ao trabalho de Gonçalo Ribeiro Telles (e não só), em décadas anteriores. Velhas árvores foram preservadas e podadas. Foram incorporadas plantas ciprestes e sobreiros. E teve-se em conta a biodiversidade, como o ecossistema de insetos.

A água é uma protagonista central deste jardim alargado, de forma visível, através do novo lago no lugar de uma antiga clareira, e de forma invisível, através de um sistema subterrâneo de irrigação, com uma recolha que tira proveito das chuvas. A entrada passa a ser feita também por via deste novo jardim, num percurso em descida suave, que beneficia este sistema de irrigação. “Quando se entra para o CAM, a primeira coisa que vamos encontrar é a natureza. Então, o acesso à cultura é através dessa experiência do jardim”, para uma nova entrada no edifício”, onde “antes estava fechado completamente fechado”. Hoje, uma enorme estrutura de vidros substitui a antiga parede cinzenta. 

O renovado CAM da Gulbenkian

Maior transparência, mais espaço
Tendo em conta as frestas para o jardim tão defendidas por Gonçalo Ribeiro Telles, que criticava a arquitetura do edifício original inaugurado no início dos anos 80, o hall do CAM abre-se agora totalmente ao jardim, a norte e sobretudo a sul, pleno de luz solar. Segundo o arquiteto Lourenço de Andrade, que trabalhou no processo de reconstrução do CAM e que participou no encontro com os jornalistas, a transparência entre o edifício e os jardins dá à natureza o protagonismo principal, salientando também “o novo poço de luz” que passa a raiar sobre o centro educativo, no piso inferior, que era, antes das obras, um espaço fechado, onde há mais de 20 anos ensaiava e laborava a extinta companhia do Ballet Gulbenkian. 

O espaço expositivo do CAM teve um aumento considerável, que permite uma programação mais reforçada e diversa do que antes. Há novidades com que o público pode passar a ter à sua disposição, como o caso das Reservas Visitáveis, em que às segundas-feiras pode selecionar e ver as obras da coleção (centenas) que não estão expostas, mediante reserva. Algumas das Reservas Visitáveis vão rodando em exposição durante sete dias da semana, as 24 horas por dia. Como define à imprensa a conservadora e curadora do CAM, Ana Vasconcelos, as Reservas Visitáveis permitem ao público “aceder às entranhas do museu”. 

A sala de som e a sala de desenhos são outros espaços que surgem no CAM, à semelhança do H Box, uma espécie de máquina instalada com algum impacto no centro do hall e muito defendida por Benjamin Weil. O H Box é um espaço de acesso gratuito, de 16 vídeos de escolha táctil. 

A nível de serviços, o novo restaurante “A Mesa do CAM” vai ocupar o antigo espaço da cafetaria, com novo mobiliário e dois menus diários. A livraria passa a ser uma loja mais abrangente e muda de local, para mais próximo da nave das exposições principais.

Programa gratuito até 7 de outubro 
A programação que agora arranca no CAM vai ser de acesso gratuito até 7 de outubro: exposições, concertos, conversas, visitas, oficinas, festas e outras atividades.

Benjamin Weil destaca-nos várias exposições, como o caso de Leonor Antunes na Nave e no nível superior, no Mezanino, “Da desigualdade constante dos dias de Leonor”: “É quase como uma floresta. É um espaço imersivo. Não é só algo para se divertir com os olhos, mas para se divertir com o corpo inteiro”. Para Rita Fabiana, curadora e conservadora da coleção do CAM mais ligada à escultura, “tudo se passa entre o chão e o teto, com objetos suspensos”, nesta exposição de Leonor Antunes, cujo título se inspira num desenho de Ana Hatherly de 1972 (ano do nascimento de Leonor Antunes), inspirado num poema lírico de Camões: “Descalça vai para a fonte / Leonor pela verdura / vai formosa e não segura”. Todas as obras expostas de Leonor Antunes têm nomes de mulheres importantes no movimento modernista. Leonor Antunes, radicada em Berlim, teve carta branca para a curadoria da exposição no nível superior da Nave, com obras desconhecidas de artistas, como o caso da obra escultórica de Helena Almeida.

Benjamin Weil

Outra exposição em foco é a do luso-brasileiro Fernando Lemos e da sua relação com o Japão, através de uma série de desenhos e fotografias inéditos. A exposição está dividida em seis momentos: “desenho da palavra no lugar”; “a vida é uma curva”; “quanto mais vejo mais invento o que vejo”; “a vertigem é de baixo para cima”; “não sei desenhar o meu endereço”; “nem sempre nos conhecemos para sempre”. A exposição conta com 209 obras e vai merecer a publicação de dois livros, em colaboração com a editora Tinta da China

A exposição inspirada no 25 de Abril, “Linha de Maré” (só com obras da coleção do CAM), a instalação de Gabriel Abrantes de 4 vídeos fantasmagóricos de teor apocalíptico, ou a exposição do artista japonês Go Watanabe integram uma programação tão recheada quanto difícil de resumir. 

A festa de abertura, curada pela Filho Único, acontece no Anfiteatro Ao Ar Livre e no Jardim da Gulbenkian, com atuações neste sábado de Nala Sinephro (às 20h30), Nídia (às 21h30) e de Tim Reaper (às 23h00).

Espera-se do novo CAM mais live art e mais arte experimental e inclusiva, numa política ainda mais apostada em parcerias externas com outras instituições.