"Recordar 1755", a memória de uma catástrofe iminente

Um livro do historiador André Canhoto Costa.

Numa altura em que se assinalam os 270 anos do sismo e tsunami que arrasaram Lisboa, André Canhoto Costa lança o livro “Recordar 1755”. O terramoto mudou a história do mundo e dele saiu uma das mais controversas figuras da história europeia: o Marquês de Pombal. Para o historiador e escritor, que esteve também na génese do Quake - o Museu do Terramoto de Lisboa, conhecer a História pode ajudar o presente e o futuro, em caso de catástrofe. E o que aconteceu na capital portuguesa é disso exemplo maior.

André Canhoto Costa - Terramoto transformou Lisboa e desafia a dar a conhecer o impacto que teve

“Esse é um dos aspetos fundamentais do livro. Quanto mais tivermos presente a História rigorosa quotidiana da catástrofe e do enorme leque de questões que esse desastre provocou e o impacto que teve na própria História de Portugal, da Europa e do mundo, mais atentos estaremos àquilo que é preciso fazer na medida das capacidades técnicas e da engenharia e do planeamento e até dos nossos próprios comportamentos. Portanto, mais preparados estaremos para minimizar os danos duma catástrofe desta dimensão que, apesar de tudo, é sempre imprevisível”, explica.

André Canhoto Costa - História ajuda a ficar mais atento e consciente para catástrofes

Para isso, descreve os vestígios da cidade antiga; o quotidiano dos lisboetas, das peixeiras às rainhas; relata a polémica sobre as perdas e os impactos; não faltam as intrigas entre aristocratas, empenhados em salvar Lisboa projetando as suas carreiras políticas; e, claro, os debates científicos do século XVIII e a épica e atribulada decisão de reconstruir Lisboa.

E, neste capítulo, conta com a ajuda da cientista "Mariana", a narradora desta história que é uma visita ao Quake. Nela retoma as pistas deixadas pelo avô "Luís", para que a História não perca. Uma passagem de testemunho e de memória futura que é passada também a quem lê e a acompanha.

André Canhoto Costa - Importância da passagem de testemunho

“Essa história da vocação da "Mariana" é também, no livro, um itinerário pelos temas fundamentais associados ao terramoto de 1755, à catástrofe. O impacto que teve, a transformação filosófica e da história política da Europa e do mundo, mas também em temas de História de Portugal que estão outra vez na praça pública a ser discutidos, como a importância do Marquês de Pombal, o mito dos grandes homens providenciais e as críticas que têm surgido”, revela André Canhoto Costa.

A interpretação que a cientista faz do Marquês é, sobretudo, de alguém que tem “a coragem de trazer racionalidade” e André Canhoto Costa dá o exemplo da falta de consenso sobre o número de vítimas do terramoto de Lisboa de 1755. “É que foi preciso tomar, em horas, uma decisão sobre enterrar os milhares de cadáveres. Porque, se fossem a cumprir os ritos religiosos que estavam previstos, iriam demorar tempo e mobilizar recursos quando existia, por outro lado, enormes riscos de epidemia”, refere.

André Canhoto Costa - Personagem principal tenta compreender temas estruturantes no pós sismo

"Recordar 1755" conta a história do Terramoto, para também consciencializar e alertar a população para a possível ocorrência de um novo sismo, tentando evitar uma tragédia em larga escala semelhante à vivida pelos lisboetas no século XVIII. Missão que é indissociável do objeivo do Quake - o museu do Terramoto.

Reportagem no Quake - Museu do Terramoto