"Recordar poetas que perdemos, mas cuja poesia não se perderá"

A poetisa Filipa Leal e a importância de assinalarmos o Dia Mundial da Poesia com a porta aberta ao público.

No Dia Mundial da Poesia, o Centro Cultural de Belém tem um lugar guardado para o Poema como “personagem principal”. As poetisas Filipa Leal e Maria Rosário Pedreira estiveram por detrás da organização da programação. Dos atores aos músicos, Filipa Leal conta-nos que “a voz será dada não apenas aos poetas, mas também a quem divulga a poesia”. 

É importante continuarmos a celebrara poesia com o público, de porta aberta, e não apenas na escrita?  

Parece-me que sim. A poesia de todas as artes da escrita é talvez a mais oral. Felizmente há muitos lugares onde o fazemos neste momento no país. Há também esse espaço no online, onde a poesia é dita com frequência por muitos jovens e por vozes mais reconhecidas. 

É o prazer de dizer poesia. Temos uma grande tradição de dizer, desde há muito tempo, que se mantém. Essa oportunidade que se dá aos leitores, e não apenas aos poetas, de dizerem poesia é muito importante para que as pessoas continuem a estar atentas. A perceber que a poesia não é tão afastada da vida, não é uma coisa tão complexa como às vezes se pensa. 

As gerações mais novas continuam a sentir-se atraídas pela poesia?  

A minha experiência nesse aspeto é muito boa. Sempre que faço ou que vou assistir a recitais e a espetáculos de poesia, há sempre muita gente nova. Muitos jovens que participam, que gostam de ler. Não apenas os seus poetas de eleição, mas já há muitos deles que começam a escrever.   

Remete-me à minha própria vida, porque eu comecei a produzir poesia na Casa do Café Pinguim, no Porto, que já há mais de 25 anos se mantém num espaço onde se faz recitais de poesia permanentes. Muito informais, com o microfone aberto, em que há sempre uma pessoa que está à frente - começou por ser o Joaquim Castro Caldas no Porto - e que depois cada pessoa se pode levantar e dizer um poema.  Desde os palcos mais formais - sem nenhuma conotação negativa -, como é o caso, por exemplo, informal do Teatro Campalês nas Quintas de Leitura, no Porto; aos mais informais, como são os cafés, em vários sítios do país.  

Acho que os jovens estão cada vez mais atentos à poesia. Com um gosto particular também em escrever os seus próprios textos, em divulgá-los e partilhá-los com os outros. Parece um exercício de empatia importante, acho que pode ser bom para as pessoas estarem mais próximas e devolverem aquilo que querem criar e escrever. 

O que podemos esperar deste Dia Mundial da Poesia no Centro Cultural de Belém?  

Vai ser um dia de festa, de entrada livre. Começamos com um atelier de ilustração para os mais novos, com a Raquel Caiano em que vão criar um fio de poemas. Vai haver um podcast com Inês Menezes, em que o público pode levar um poema e dizê-lo. 

Vamos contar com uma homenagem a Nuno Júdice, com um filme inédito e mais algumas surpresas. Recordamos também outros quinze poetas, que infelizmente perdemos nos últimos anos. Vão ser feitas leituras por vários atores de poemas de Ana Luísa Amaral, Maria Quintas, Adília Lopes e Maria Teresa Horta, entre vários outros. A Poesia no Fado, com a Aldina Duarte, conversa e música.  

O dia termina com uma viagem por 100 anos da mulher na poesia portuguesa. Um recital com conceção e seleção de textos do João Gesta, poeta e programador das Quintas de Leitura no Teatro de Campo Alegre, no Porto. 

Além disso, mais de quarenta poetas contemporâneos marcam presença numa instalação em vídeos inéditos, que foram gravados exclusivamente para este dia da Poesia no CCB. Nomes que vão desde A. M. Pires Cabral a Ana Paula Inácio, Daniel Jonas, Hélio Correia, José Carlos Bato, enfim. São mais de quarenta vozes que se juntaram a nós e estamos muito felizes por poder dar a voz à poesia neste dia.  

 

O Dia Mundial da Poesia é uma data para relembrar o passado? 

A mim parece-me sempre fundamental não esquecermos quem escreveu antes de nós, em qualquer caso. Ainda mais no Dia Mundial da Poesia. 

Nos últimos anos perdemos grandes vozes da poesia portuguesa e que são importantes de lembrar. O recital de João Gesta vai chamar-se “Os poetas que não perdemos”, vai recordar obras singulares de poetas que perdemos, mas cuja poesia não se perderá. E não perder a poesia passa não apenas por continuarmos a lê-la para nós. É também continuarmos a lê-la em voz alta e continuarmos a divulgá-la em iniciativas como esta. 

Para dar o exemplo, Filipa Leal deixa-nos versos de três poetisas que perdemos no último ano.  

Um poema de Adília Lopes por Filipa Leal

Um poema de Maria Quintans por Filipa Leal

Um poema de Maria Teresa Horta por Filipa Leal