Rita Braga: mortos-vivaços num fadistão com palmeiras
Entrevista à música lisboeta que pega no Portugal antigo e o leva a viajar no tempo e no espaço.
A cantora e instrumentista Rita Braga apresenta ao vivo hoje e amanhã o seu novo álbum “Fado Tropical”, respetivamente no RCA Club, no Porto (às 21h00) e na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa (às 22h00).
Em 11 canções apenas, Rita Braga transporta o fado antigo para o futuro e leva-o a uma viagem transatlântica, até à América tropical e também insular. Do fado dos anos 20, do século XX, para o fado dos anos 20 do século XXI, Rita Braga faz a travessia de forma singela, com uma vestimenta sonora singular, onde têm grande influência a marimba e o violoncelo, sem esquecer, como é evidente, o ukulele ou o banjolele.
A arqueologia do fado e da velha boémia lisboeta é apenas o ponto de partida para um ato de criação e renovação que tem tudo para se assinalar como um dos melhores e mais refrescantes discos de música portuguesa dos últimos anos.
Se a inspiradora fadista dos anos 20 Ercília Costa galgou fronteiras, é a própria música de Rita Braga que o faz em “Fado Tropical”. A cantora residente no Porto não vê só o Atlântico dos dois lados, atravessa o Pacífico até às ilhas paradisíacas.
Como é que é mergulhares no fado sem seres fadista?
Foi um desafio que submeti a mim própria, porque tenho vindo a fazer música há vários anos. É o quinto álbum. Fiz versões e compus em variados estilos. Estava eu no Brasil e fazem-me aquela pergunta da praxe: "[como] portuguesa, canta o fado?" E eu pensava: "Não têm noção, o fado é uma coisa muito específica". Mas depois pensei [melhor] e realmente já fiz tanta coisa na música e nunca abordei o fado. Comecei a juntar uma série de ideias, a partir de uma pesquisa e de uma abordagem muito própria. Eu interesso-me por coisas muito antigas, de música, arquivos. Já tinha ouvido a Ercília Costa, que era a maior fadista dos anos 20, foi a primeira fadista internacional. E interessou-me explorar coisas que estão esquecidas do fado, mas dando-lhes uma nova abordagem musical.
Colocas-te no lugar de uma criadora que vê o fado de fora?
Penso que sim.
No ‘Fado Tango’, surge este verso: "há quem ao cantar a morte, transporte o rir na garganta". Estás a falar de ti também? Sinto sempre um certo lado folião na tua música.
Essa frase é uma contradição, mas eu achei giro nesses textos também falarem do fado como uma coisa tão espontânea e emocional, que nem sabes se se está a rir ou se está a chorar. Pensando mais uma vez no Brasil, o samba que tem aquela coisa da alegria e da melancolia ao mesmo tempo.
Vais para vários sítios, quase que dás um salto no Atlântico. Deve ser por isso que chamas ao álbum de “Fado Tropical”, não?
Eu chamei Fado Tropical também por brincadeira, para distinguir que tem a ver com o fado. Foi muito inspirado também em discos dos anos 50 e 60, do chamado estilo exotica, do Martin Denny, dos artistas da Califórnia. Eles pegavam em ilhas paradisíacas ou lugares assim semi-imaginados e tocavam uma data de percussões, mas eram eles que estavam a fabricar: imitavam pássaros a cantar. Portanto, eram lugares meio imaginados. Isso também é um bocado parte de canções atuais, canções que de facto existem, de repertório esquecido, em que os instrumentos não são os tradicionais. É também uma invenção.
Até tocas instrumentos como o banjolele, que é uma mistura de banjo com ukulele.
Sim, e que era muito tocado cá. Não se vê muito, mas também foi muito popular na época, nos anos 20 e 30. As pessoas tocavam ukulele, mas havia muito banjolele, que é tocado muito rapidamente. São as cordas do ukulele, com o corpo do banjo. Portanto, é um som mais metálico.
Quando é que começaste a tocar o banjolele?
O ukulele já tenho há mais de vinte anos. O banjolele comprei na Alemanha, numa das maiores lojas de ukuleles da Europa. Eles nem estão geralmente abertos ao público. Eu conhecia [a loja] da internet, mas fui lá, é uma terriola. Pedi para visitar [a loja] e mostraram-me e eu no meio daquilo tudo encontrei um banjolele que achei muito curioso e foi aí [que comprei]. Agora tenho dois.
Qualquer dia tens uma coleção de banjoleles.
Sim, não tenho muitos, mas tenho alguns. Tenho um ukulele também havaiano que toquei no disco, que é mesmo um instrumento histórico de 1920. É assim uma peça de museu que eu nem toco ao vivo, só se for assim uma ocasião muito especial. Mas usei-o nas gravações.
O Júlio Pereira tem uma parede inteira de cavaquinhos, por exemplo.
Tenho uma pequena parede de ukuleles e banjoleles.
Nunca te interessaste por cavaquinhos?
É outro instrumento, é outra afinação. Eu gosto muito de cantar. Para acompanhar a voz, o cavaquinho não é o ideal. O cavaquinho tem outro timbre.
Fazes arqueologia linguística, com palavras antigas como “banza”, “faia”, “benquista”, “alijado”, “fado liró”, que se ouvem no disco.
Sim, como é o meu primeiro disco todo em português, achei que também era interessante mergulhar na língua, sobretudo em palavras que estão esquecidas. Banza era como chamavam a guitarra e encontrei muitos mais textos.
As tuas músicas são como o Dia de Los Muertos, não é? Estou a pensar no tema ‘Cinza e Pó’. Quase que dás um lado quase lúdico à morte.
Sim, sim. Há também um videoclipe que acompanha, em que fui buscar àqueles desenhos animados da Disney, da dança dos esqueletos, que era também uma coisa que já vinha da Idade Média, aquela imagem. Achei curioso esse livro marcante, que se chama “História do Fado”, que saiu no início do século passado, que é o primeiro estudo de fado. Ele [Pinto de Carvalho] andou mesmo nas tabernas a entrevistar imensa gente e recolheu imensos textos e vi muitas quadras soltas que falavam de esqueletos e de cemitérios. Então eu compilei essas quadras e compus esse tema do ‘Cinza e Pó’.
O que te atraiu na voz do JP Simões?
Eu gosto imenso do timbre da voz do JP, do estilo. Oiço-o desde o tempo dos Belle Chase Hotel, quando andava na [escola secundária de artes] António Arroio. O Quinteto Tati [também]. E ele também tem uma ligação ao Brasil. Mas, acima de tudo, achei que ele tem um timbre muito bonito, tem uma dicção perfeita. Já falava com ele há dois anos, para o convidar para uma colaboração e achei que fazia sentido acontecer neste disco e com um tema brasileiro [‘Chão de Estrelas’]. Depois, achei que era um bom tema para ele e fiquei contente com o resultado.
Sentes que a marimba ajuda a desbravar as fronteiras deste teu imaginário de fado?
Sim, partiu muito de querer explorar o fado com o ukulele e a marimba. Isso seria o Fado Tropical. Inicialmente pensei em ukulele, marimba e violoncelo. Depois, também acabou por entrar o saxofone barítono do Cabrita. Foi mesmo explorar uma linguagem nova e testar. E eu achei que estava a ir de encontro a algo interessante.
Também foste buscar para o disco o Tó Trips e o Paulo Furtado [Legendary Tigerman]. Foi fácil persuadi-los?
Foi estranhamente fácil. Fiquei-lhes muito agradecida. Foram muito queridos, todos muito recetivos. Com o Paulo Furtado, eu tinha já colaborado no [álbum] “Femina” há bastantes anos e eu achei que também era interessante agora tê-lo num disco meu. Com o Tó Trips, nunca tínhamos colaborado, mas respondeu muito bem ao convite.
Como é que vais transpor “Fado Tropical” para palco?
Isso é o que eu agora estou a trabalhar. Portanto, tenho em mente dois formatos possíveis: em duo, ou trio com o saxofone barítono. Acho que não é um disco para tocar a solo, ao contrário do que eu tenho feito até aqui. Eu estava a tocar também muito teclado e caixa de ritmos. Este aqui é mesmo pensado em termos de colaboração. Portanto, estou a ensaiar agora no Porto com o Rui Rodrigues, que toca marimba, vibrafone e outras percussões. Estamos a fazer algumas músicas, que vão ter um arranjo específico para o formato ao vivo. Em Lisboa, será a estreia com o saxofone do Cabrita.
E violoncelo?
Eu acho que isto pode ir variando, mas para já, vai ser com duo ou com trio, com percussões e saxofone barítono, mas acho que no futuro adorava também ter participações dos convidados que entram no disco.
