Rita Redshoes: "fiz um disco aberto, que procura o diálogo"

Sai nesta sexta-feira o novo álbum, "Fala", com uma seleção feminina de letristas, de Márcia a Mafalda Veiga, de Joana Espadinha a Ana Bacalhau.

“Fala” com ela, porque ela já está a falar connosco. Ela é Rita Redshoes e está a procurar-nos a todos, mulheres e homens, neste novo disco, a partir de um ponto de vista feminino.

São dez canções de dez mulheres letristas, num mundo de tranças, saias e pétalas, mas também de pedido de compreensão para com os homens que também podem chorar. Há em “Fala”, corações desarrumados, maternidades e libertações, num disco em que se pede também tempo e silêncio, num mundo devorado pelo ruído da ansiedade.

Repetimos, a Rita Redshoes “fala” connosco. Oiçamo-la nesta entrevista.

Feminilidade e feminismo estão a par neste disco, “Fala”?
Inevitavelmente, sim, apesar de eu não achar que o disco se centra nestas questões. Para mim, é um disco que fala sobre vários temas que nos dizem respeito a todos enquanto seres humanos que convivemos uns com os outros, mas escrito pela mão feminina e cantado pela minha voz, como mulher. Aliás, há letras muito concretas em que os pais e os homens também são convidados a estarem na letra, a serem referidos quanto à sua importância.

Sim, “um homem também chora” [em citação a uma das suas canções novas, ‘Fala Bem’]. 
Os homens também choram. Há pais, há mães, há um cansaço numa das canções, que pode dizer respeito tanto aos homens quanto às mulheres. Há um colo e quem não precisa de colo? Homens e mulheres. E por isso, eu diria que é um disco escrito com o intuito de enaltecer a voz feminina na escrita, mas é um disco de abertura ao diálogo, no fundo, e não tanto num sentido de separação, pelo contrário. Aliás, o nome do disco é isso, é “Fala”, a abertura ao diálogo.

O feminismo é uma reclamação de igualdade entre pessoas, é comunitário, não é separatista.
Exatamente. [Parece] que estamos em guerra. Mas para quem possa eventualmente cair um bocadinho nessa interpretação, queria deixar isso esclarecido, que não é de facto um disco fechado nas problemáticas [femininas], se é que há algumas que só dizem respeito às mulheres, que eu não acredito muito nisso. Na verdade, acho que dizem respeito a todos nós. É um disco aberto, apenas escrito só por mulheres.

Apesar de aberto, o disco é um apelo à melhor compreensão da mulher?
Sentiste isso? É, talvez… eu acho que sim. A premissa para mim ao convidar estas autoras foi de muita liberdade, ou seja, expliquei o conceito, de onde é que veio esta minha ideia, que é uma ideia antiga, que veio de uma turné e que eu sempre fiquei com esta vontade de fazer mais qualquer coisa com a ideia.

É uma ideia que já vem desde 2012, não é? 
Em 2012, eu fiz uma turné que se chamava “The Other Women”, onde eu só interpretava canções escritas por mulheres, neste caso do mundo todo, e aqui, neste disco são só mulheres portuguesas. Portanto, eu fiquei sempre com esta vontade, no fundo, e só expliquei este conceito e disse: a liberdade é total. Podem ser temas que, se calhar, são mais evidentes para as mulheres, ou pelo menos são mais falados pelas mulheres, mas não tem que ser. No fundo, estas compositoras foram por caminhos interessantes e diferentes em cada uma das músicas, que me surpreenderam também. Eu juro que eu pensei que iria receber muito mais canções fechadas nestas questões mais feministas, e não, o que eu comecei a sentir, ao ouvir as maquetas, as sementes vindas das casas delas, é que era mesmo um disco para toda a gente, mas pela voz de uma mulher.

Às vezes, a personagem das tuas canções pode ser um homem. 
Exatamente.

Como é que tu interagiste com esta seleção feminina de letristas? 
Estão estas dez autoras, há muitas mais que eu admiro, das novas gerações também. Fico muito feliz, porque isso foi uma realidade que foi ficando diferente ao longo dos últimos 20 anos.

A própria seleção é transgeracional, vai da Amélia Muge à Emmy Curl. 
Sim, exatamente. Queria um bocadinho ir a esses extremos, porque de facto, até a forma como estas pessoas viveram a vida e as mudanças que aconteceram ao longo destes 20 anos foram imensas. Gostava muito de ter essas perspetivas diferentes. Claro que ficaram de fora imensas compositoras que eu admiro. Se calhar vai haver um Fala II e um Fala III, por que não? Estas também, por uma proximidade maior, foram os primeiros nomes que me vieram à cabeça e que eu peguei no telefone e diretamente disse: "Acabei de ter esta ideia, gostava muito de te ter a bordo".

Tu enviavas as melodias? 
Não. Eu dei total liberdade. Elas apresentaram-me coisas já mais finalizadas ou não. O que eu fui recebendo difere muito de caso para caso, mas com algo comum que é altamente íntimo. Eu tenho gravações, que, enfim, não vou partilhar a não ser que algum dia elas me digam que não há problema com isso, mas coisas gravadas em casa completamente cruas, lindas, de uma generosidade enorme, porque no fundo confiaram: “olha, toma isto e faz com isto o que tu quiseres”, foi mesmo assim, em versões muito à guitarra e ao piano, às vezes trauteada ainda, a letra não estava terminada. Há canções que depois também deram a volta e ainda foram para outros sítios. Portanto, foi assim muito mágico nesse sentido. Essa confiança mútua é aquilo que me foi movendo e me foi agarrando mesmo às canções. Foi eu sentir: “olha, isto foi mesmo oferecido”. Ninguém me deu direções que gostava que a música se faça assim ou mais assado. Zero. Foi completamente um ato de fé e de confiança de parte a parte.

É engraçado porque há um crescimento na música portuguesa destas colaborações. Vê-se muito mais hoje em dia, tu ou outras pessoas a escreverem para outras pessoas, e vice-versa. Há aqui um intercâmbio permanente, que é mimoso e se está a enraizar na música portuguesa. 
Sempre houve colaborações e ainda bem, não é? Porque eu acho que temos todos sempre a aprender e até porque temos admirações mútuas, e, portanto, acho que é muito, além do prazer que isso dá, é mágico: escreveres qualquer coisa com alguém que tu admiras. Eu acho isso muito de salutar, mesmo para a música portuguesa, não haver ou haver cada vez menos esta separação, às vezes até regional que havia. Eu acho que cada vez se sente menos esse separatismo “eu sou daqui ou eu pertenço a esta tribo e tu não és bem da minha tribo ou do meu género musical”.

Tu sentes também que o factor amizade facilita nalguns casos essa colaboração? 
Há aqui autoras com quem eu tenho uma proximidade maior, que me conhecem melhor e, portanto, escreveram algumas das coisas assim, tipo seta, foram diretas ao meu coração porque me conhecem enquanto pessoa. Outras com quem eu não tenho tanta proximidade enquanto pessoa, mas que eu sei que conhecem o meu trabalho e que, portanto, também de alguma forma deixaram-se ir um pouco, por isso, o que também é muito bonito, não é? Porque não é: "Olha, acho que tenho para aqui uma canção na gaveta, vou dar esta", não é? Não, eu não senti nada disso. Senti mesmo que foi algo especial para este disco. As reações para mim foram muito emocionantes, porque é uma responsabilidade grande, apesar de tudo, tu ofereceres uma música a alguém, e de repente não gostares nada do resultado da canção. Eu fico muito feliz, tenho aqui mensagens mesmo emocionantes, mesmo bonitas. Eu já fico assim embargada aqui a falar, a sentir esse lado especial do que as pessoas perderam, tiraram do seu tempo para pensar neste projeto como um todo e fazerem parte dele. E fazerem algo especial para isso. Isso é muito bonito. E às vezes tendem a dizer: "Ah, as mulheres são más umas para as outras". Não, não de todo.

A Márcia foi uma das pessoas que mandou uma seta para ti [‘A Tua Trança’]? 
A canção da Márcia foi, se não me engano, a primeira que eu recebi e foi o primeiro single deste disco. Foi uma seta, porque foi das canções que eu ouvi e foi dumas canções em que ela mandou à guitarra, não sei se foi de manhã, se foi de tarde, mas percebias que era a casa dela porque ouvias barulho do marido ou das crianças, e ela não tinha a letra propriamente finalizada, e portanto, em dada altura, ela canta assim umas coisas, que não é a letra final. Aí aquilo tocou-me imenso, porque mal eu ouvi a sequência da melodia, eu disse assim: "Isto é uma canção linda, linda". E foi logo um arranque para mim. Eu pensei: “não sei se tenho mãos, é para pôr estas canções a soarem, a ser justa com elas. E sim, e cantar a canção, todas puxam por lados meus. Houve canções que eu achei: ok, gravar, chegar ao arranjo final, acho que já ouço na minha cabeça. E tenho que referir aqui o Sérgio Mendes, que coproduziu o disco comigo e que fez esta viagem comigo. Há outras que eu não ouvia bem ainda o sítio final, mas que eu sabia o que que eu queria cantar com estas canções. E nessa descoberta, aprende-se muito, porque te obriga a ir para sítios diferentes. Pela primeira vez eu não estou preocupada com a letra propriamente ou com a composição, embora em algumas das canções houve alterações nas estruturas, em parte das harmonias. Eu não estou preocupada com a semente, a semente já está plantada, eu só tenho é que a fazer crescer. E crescer da melhor maneira. E aprendi muito com esse trabalho e é uma coisa que eu adoro faze. No fundo, são arranjos. Portanto, foi mesmo um duplo prazer.

Essas letras entram pela Rita Pereira adentro, ou tu consegues criar uma personagem que interpreta estas letras? 
Eu sou uma chorona, é uma vergonha. O Sérgio estava a gravar-me. Ele estava de costas para mim. Quando eu parava, ele virava-se devagarinho, lá estava eu. Por isso houve canções aqui muito difíceis para mim de gravar, porque me emocionava. As letras, algumas das frases eram mesmo muito fortes e aquilo mexia mesmo comigo. E por não ter sido eu a escrever, não me fica mal dizer, eu acho que há aqui frases e letras incríveis neste disco, que tocam mesmo a fundo se escutarmos mesmo bem. Eu a gravar, às vezes perdia-me completamente no processo, deixava-me ir.

“Desejo-te Boa Sorte” é o tema em que a mulher está mais dependente do outro, mesmo que este outro abale?
Sabes, a história do Desejo de Sorte é muito gira, porque para a imprensa, sai como a canção da Emmy Curl, mas na verdade, quem escreveu esta canção foi a mãe da Emmy Curl. E é muito bonita a história, porque eu pedi à Emmy Curl: "Catarina, por favor, escreve uma canção para o disco". Eu queria tanto. E ela andou ali uns tempos e dizia: "Pá, Rita, não me está a sair nada. Mas eu tenho aqui uma coisa na cabeça que eu tenho que te dizer, que é assim: há uma canção da minha mãe, que ela escreveu há imenso tempo, que eu já tentei gravar. Eu não consigo fazer nada com aquilo e eu acho que tu és a pessoa certa pra fazeres alguma coisa com esta canção, porque eu acho que ela é muito bonita e eu nunca consegui dar-lhe uma direção. Podes ouvir e dizes-me?" Pá, e eu ouvi a canção e gostei muito da canção, até porque acho que dá um lado luminoso aqui no disco, um lado diferente, que é esta ideia de ter a capacidade, seja homem ou mulher, de desejar sorte ao outro. E isso é muito generoso. Isso é bonito, enquanto seres humanos termos essa capacidade. Quem escreveu na verdade a canção chama-se Marília Miranda Lopes, que é a mãe da Emmy Curl, e que eu ainda não conheci pessoalmente, mas que sei que ficou muito contente. E achei esta ideia muito feminina também ao mesmo tempo, que é a filha passar o testemunho à mãe, dar-lhe essa oportunidade. E, de facto, é uma canção muito tocante, muito generosa, no fundo.

‘Sei’ é um prenúncio da independência da mulher?
Completamente, tu leste este disco muito bem. A Ana Bacalhau conhece-me bem. E essa canção, eu por acaso ainda não lhe perguntei, mas eu tenho quase a certeza que veio de uma conversa que nós tivemos, quando fomos as duas convidadas da Garota Não, nuns concertos que ela fez no CCB há poucos meses, uns concertos incríveis, e nós fomos duas das convidadas que fomos cantar com ela. E estávamos na plateia a ver os ensaios de som, estávamos a falar da nossa vida, e eu comentei com ela uma coisa que eu nunca tinha comentado da minha vida pessoal. E eu tenho quase a certeza que foi dessa conversa que ela escreveu esta canção. E quando ela me mandou a canção, foi tipo: "Ah, pá, sacaninha". E senti logo, esta é a canção que vai fechar o disco, porque é muito simples, mas parecem palavras que se repetem, que estás sempre a dizer a mesma coisa, mas é uma coisa muito importante e muito forte e que tem a ver com isso, com esta capacidade de eu saber escolher e saber escolher-me, que nem sempre é fácil na vida. Em muitas situações, em muitas circunstâncias diferentes, eu acho que tive e tenho dificuldade em escolher-me. A Ana acertou em cheio.

Instrumentalmente, este é um álbum mais simples?
Embora eu goste de arriscar e de ter instrumentos novos que eu nunca usei, neste disco eu queria especialmente que a palavra passasse e que houvesse essa primazia da palavra. “Isto não é para fazer muita confusão aqui, é para dizer isto”. Eu poderia arranjar aqui mil instrumentos mais contramelodias e mais não sei o quê, mas não foi esse o caminho, não foi esse o meu intuito com o disco, eu de facto queria, até porque sentia que as canções sobreviveriam, tocadas quase só à guitarra, muitas delas, voz ou piano. Por isso, fomos tirando, fomos despindo as canções. Eu acho que também tem a ver com uma fase em que eu, em concerto, sinto cada vez mais isso, que é: fala, diz o que tens para dizer sem grandes subterfúgios e sem grandes artimanhas. Se calhar, também é da idade. E quis isso também para a sonoridade do disco.

Como é que vão ser os concertos agora no Porto, na Casa da Música [a 24 de outubro] e em Lisboa, no Teatro Maria Matos [a 28 de outubro]? 
Vamos tocar muitas destas canções, talvez todas. Gostava que as autoras pudessem ter a oportunidade de estar num concerto ou noutro, de ouvirem as suas canções.

Incluindo a mãe da Emmy Curl? 
Sim, claro. E, por isso, em algumas delas eu tive a oportunidade de as experimentar ao vivo quando foi o Festival Bons Sons, em agosto. E, portanto, vamos trabalhar para construir as canções, adaptá-las obviamente à banda. Há uma espécie de uma temática, uma história contada neste concerto da forma como eu prevejo, que é muito humana. Ou seja, vamos tocar em temas femininos, mas, como o disco, nos dizem respeito a todos. Eu acho que há sempre ali um cantinho em que algum de nós se identificará com alguma das canções ou com alguma das versões também. Também há lugar ao humor. Há pelo menos uma versão do Caetano Veloso que se chama ‘Homem’. E no fundo é brincar um bocadinho com esta ideia, que também é uma ideia que se calhar nestes tempos a mim faz-me sentido. Estamos aqui numa época muito rápida de grandes mudanças. Eu, por mim, não estou a acompanhar isto tudo, confesso.

Eu também não. Perco o fio à meada às vezes. 
Sim, eu acho que às vezes me sinto que sou tipo espectadora a ver o comboio a passar.

É como dizes numa canção tua, em que é preciso “ouvir o mar a enrolar na areia” [no tema ‘Serviços Mínimos’, com letra de Francisca Cortesão]. 
Exatamente. E às vezes é preciso isso, a simplicidade, no fundo. E com estes concertos o que eu gostaria é que houvesse esse espaço. OK, vamos a um concerto, vamos ouvir as letras e pelo menos neste momento não há ecrãs, não há grandes coisas a acontecer, ninguém cai do teto, não há homens-bala, não há nada de grande, há só canções de humanos para humanos.

Já que vais cantar o ‘Homem’ do Caetano, vais cantar a tua ‘Mulher’? 
Vou cantar a minha ‘Mulher’.

A nível de outros projetos, hã, tens alguma coisa em vista em termos de cinema, representação, teatro, outros mundos? Tens alguma coisa em perspetiva? 
Neste momento, tenho um espetáculo que, na verdade, é uma encomenda. Eu tenho um espetáculo infantil que se chama “Chinfrim”, com o qual tenho feito uma turnê bastante generosa pelo país e que tem sido uma experiência muito boa e muito divertida. A propósito disso, fizeram-me uma encomenda, que é criar, no fundo, também um espetáculo à luz um bocadinho do Chinfrim, para São Miguel. Ainda tenho que montar esse espetáculo e essa vai ser o meu foco a seguir.