Rita Rocha sobre álbum de estreia: "sinto que segui o meu caminho e disse a minha verdade"
A cantora e compositora atua no Coliseu do Porto a 20 de março.
A 20 de março, Rita Rocha, de 19 anos, estreia-se no palco do icónico Coliseu do Porto para apresentar "8 ou 80" – álbum de estreia, cuja segunda parte foi editada em fevereiro. A jovem cantautora portuguesa será a mais nova a pisar o palco do coliseu portuense em nome próprio.
A cantora e compositora "levará o público aos polos das emoções do disco: enquanto o 8 sussurra, o 80 grita. Juntas, as duas partes formam uma obra coesa, honesta e geracional", conta o comunicado de imprensa sobre o espetáculo.
O álbum – disponível nas várias plataformas digitais - conta com as participações de Pedro Abrunhosa, Carolina Deslandes, pipika, Guga e Diogo Piçarra.
Os bilhetes para o concerto estão disponíveis para venda nos locais habituais e no site da Blueticket. O preço dos bilhetes varia entre 20 a 35 euros.
O início do espetáculo está marcado para as 21h30.
Rita Rocha ficou conhecida do grande público quando em 2021 participou no programa televisivo da RTP, "The Voice Kids". Nessa altura, lançou o single 'Mais ou Menos Isto' que chegou à proeza da dupla platina.
Oiça a entrevista completa:
Quero começar pelo tema 'Leva-me', a nova canção que partilhas com a Carolina Deslandes. Como foi voltar a colaborar com a Carolina?
É uma canção amorosa porque eu e a Carolina adoramos escrever sobre amor. Simplesmente adoramos. É um [assunto] clássico das duas. É um tema que fala sobre a fase inicial do amor, aquela fase em que é tudo muito bonito. É a fase em que, por exemplo, se a outra pessoa desafiar-te a ir viver para Berlim, tu optas por largar tudo e ir. A canção surgiu num contexto em que nada foi previamente combinado. Fizemos o tema numa sessão para o ‘Saudades Tuas’, que é um dos primeiros singles da parte “8” do disco. Às tantas, como já não tínhamos nada para fazer, a Carolina disse-me: "apetece-me fazer uma canção nova". E eu, como adorei a ideia, respondi-lhe, "vamos fazer". E lá fizemos a canção que acabou por sair de uma forma muito natural. Lembro-me de fazer a viagem de Lisboa para o Porto a ouvir o tema em loop. Não houve um segundo silêncio nessa viagem. Apaixonei-me pelo tema. Gostava de ter uma canção com a Carolina em todos os projetos. É o meu sonho. (risos) Além de nos darmos muito bem, acho que pensamos da mesma forma. E não só na música, na vida também. É muito bom compor com ela. Estou muito orgulhosa e feliz com essa canção.
Creio que a Carolina é também uma referência para ti. O que é que mais admiras nela?
Eu admiro muitas coisas na Carolina. Primeiro, admiro o facto de, claramente, ser uma pessoa que luta pelos direitos de todas as pessoas que vivem mais silenciadas. Ela está constantemente a ser alvo de críticas e mesmo assim continua a lutar por essas pessoas. Não se deixa influenciar pelas críticas negativas. Aliás, parece que todas essas críticas ainda lhe dão mais força. Admiro muito o facto de ser uma pessoa que se mantém fiel a ela própria. Manifesta sempre a opinião em assuntos que considera não serem falados o suficiente. É algo que admiro imenso, porque sinto que há muitas pessoas que escolheriam ficar caladas se soubessem que iriam ser tão criticadas. E ela não quer saber. Acha que é mais importante dizer do que ficar calada. É por isso que a admiro muito nesse aspeto. Depois admiro-a como artista no que toca a escrever canções. Acho que nunca vamos ter mais nenhuma Carolina Deslandes. É uma compositora absolutamente extraordinária. É versátil, verdadeira. É tudo e mais alguma coisa no que toca à escrita e à composição de canções. É genial. É um génio, literalmente. E comigo tem sido uma pessoa muito altruísta. Acreditou em mim antes de eu própria acreditar. E nunca esteve à espera de receber nada em troca. Vou estar eternamente grata por isso. Se não fosse a Carolina, provavelmente não estaríamos a ter esta conversa.
E que outros artistas respeitas e admiras, sejam estes portugueses ou lá de fora?
Admiro muito os artistas de cá e já colaborei com alguns. Admiro muito a Bárbara Tinoco, por exemplo. Admiro o Pedro Abrunhosa, que também foi uma pessoa extremamente altruísta comigo. Eu cresci a ouvir estas pessoas. Agora sou amiga da Carolina e da Bárbara, mas, antes de sermos amigas e de termos construído uma relação, eu já era fã delas. Era obcecada pelas canções delas, o que acaba por ser engraçado e estranho ao mesmo tempo. Lá fora, a artista que mais admiro e oiço é a Billie Eilish. Oiço-a muito. É uma artista que também começou a carreira muito nova. Admiro a imenso a caminhada que fez até aqui. Acho que é uma artista inacreditável.
A Billie é um grande exemplo…
É mesmo.
E agora pulando para o Diogo Piçarra, com quem também tens uma colaboração. Como é que foi compor o tema "Um do Outro"? Creio que partilharam a composição da canção…
Sim, sim.
É uma partilha e têm de encontrar um chão comum para criar uma canção…
É inacreditável. Uma das coisas mais bonitas que o mundo da música que me dá é mesmo essa partilha. Falo da possibilidade de partilhar a nossa arte e a nossa verdade com outros artistas e de contactar com as visões diferentes de cada um. É muito bonito e é uma experiência enriquecedora. Sinto que aprendi muito com o Diogo. Aprendi com a forma como compõe canções, com o processo criativo que desenvolve. E, ao mesmo tempo, sinto que ele conheceu o meu. Houve uma partilha de verdade, de sentimentos. E é estranho, porque estamos a fazer isso com uma pessoa que não conhecemos. Mas também é o que torna tudo ainda mais bonito. Como o Diogo era meu seguidor no Instagram mandei-lhe uma mensagem. Pensei: "não tenho nada a perder, o pior que pode acontecer é não receber uma resposta". Não tenho pudor nenhum em dizer que sou fã de outros artistas. Sinto que no meio artístico há um resguardo por parte de alguns artistas em assumir que são fãs de outros colegas. Eu não tenho [esse resguardo]. Então, mandei uma mensagem ao Diogo para lhe dizer que era fã do trabalho dele e que gostaria muito que entrasse no meu disco. Ele respondeu-me logo e aceitou. A resposta foi: "fica com o meu número. Na próxima semana, vens cá a casa, ao estúdio, eu encomendo comida". O Diogo é das melhores pessoas que conheci neste meio. É um anjo caído do céu. É tão boa pessoa. E foi muito fácil escrever a canção com ele. (…)
Quando estávamos a compor o tema cruzámos as nossas formas de escrever. Foi uma espécie de junção de ideias e de processos criativos diferentes que acabou por gerar uma canção que, na minha opinião, faz imenso jus aos dois. Acho que as pessoas percebem que é uma canção que tanto pode ser minha como do Diogo. Encontrámos o nosso ponto comum. Apercebemo-nos também que temos os mesmos gostos musicais, gostamos dos mesmos artistas, das mesmas canções. As canções favoritas dos nossos artistas favoritos são as mesmas, o que acaba por surreal. Foi um processo super fácil. O Diogo cria um ambiente no qual nos sentimos muito confortáveis. Estou mesmo muito contente com o facto de ele ter aceitado esta colaboração contra todas as probabilidades que estavam na minha cabeça.
E com o Pedro Abrunhosa?
Eu sou uma desavergonhada. Basicamente é isso. Mas com o Pedro foi diferente. Já nos conhecíamos e já tínhamos tocado juntos. A mensagem que lhe mandei foi: "Pedro, tenho aqui uma canção que ficava mesmo bem com os acordes do 'Momento' [canção que Pedro Abrunhosa editou em 2002]". Depois, perguntei-lhe se ele queria tocar piano. Ao que ele respondeu: "claro que sim". Passado um dia, mandou-me um verso e disse-me: "olha, já agora escrevi aqui alguma coisa." E eu agradeci. Quando ouvi o verso que ele enviou "chorei baba e ranho", mas isso já são outras paradas. (…)
E como é que o processo de composição acontece na tua cabeça?
Eu vivo sempre a pensar em ideias. (…) Ainda nem sequer comecei a compor a canção e já tenho o título para o tema. Acho que estar constantemente a ter ideias é algo intrínseco aos artistas no geral, não só na música. Nós vivemos numa "luta" com a criatividade e, ao mesmo tempo, andamos de mão dada com essa mesma criatividade. É sempre assim. Estou sempre a pensar em tudo e mais alguma coisa. Aliás, é a minha parte favorita de todo o processo. É o facto de conseguir expor a minha criatividade, de ouvir a criatividade dos outros artistas e dos produtores e depois conseguir juntá-las numa só. A parte criativa e tudo o que envolve a composição das canções é o que me dá mais prazer na música. É a parte mais importante e divertida.
E o processo resulta em discos como o "8 ou 80". Que álbum é este? O que é o "8" e o que é o "80"?
Este disco reflete muito o que vivi em 2025, que foi um ano caótico. Acho que dá para perceber pelo título do disco. Mas sinto que este álbum também dá a voz aos adolescentes. E esse foi o meu principal objetivo. Quando ouvimos uma canção sobre adolescentes cantada por um adulto podemos nos relacionar, é certo, mas quando é cantada por uma pessoa que tem exatamente a mesma idade que nós, é outro tipo de relacionamento. Parece que naquela voz encontramos um melhor amigo. Sentimos que a canção está a dar-nos um abraço, sentimo-nos compreendidos. Acho que, muitas vezes, os adolescentes se sentem incompreendidos. E com este álbum quero que se sintam compreendidos e acompanhados. É o meu maior objetivo. É um disco que fala muito de amor e desamor. É um clássico, enfim. Mas também fala sobre o que não é ser equilibrado ou sobre o facto de não termos a vida toda organizada aos dezanove anos. E, na verdade, não temos de ter. Há muita pressão para definirmos o que queremos fazer para o resto da vida até ao décimo-segundo ano. Mas, na verdade, não temos de saber tudo aos dezoito anos. Temos a vida inteira para descobrir. E este álbum fala sobre isso. É sobre não sabermos nada aos dezoito anos. Vivemos no oito ou no oitenta. Nem sempre é fácil sabermos estar equilibrados, estamos sempre com as emoções à flor da pele. Vivemos ansiosos porque temos o exame de matemática no dia seguinte e, ao mesmo tempo, estamos apaixonados pelo rapaz que vimos no outro dia. E este disco é sobre a confusão que vai na cabeça de cada adolescente.
Há uma faixa, à qual deste o nome de 'Ansiedade', que, além de honesta, parece falar sobre estas questões numa altura em que se debate a questão da saúde mental nas camadas mais jovens. De certa forma, estás a dar voz também a esses anseios.
Completamente. Eu não escrevo as canções a pensar naquilo que os outros vão achar. Escrevo as canções com base na minha vida, na minha verdade e no que eu sinto. E depois espero que alguém do outro lado esteja a passar pela mesma coisa e possa sentir-se um pouco mais apoiado. Escrevi essa canção quando estava a fazer os exames para entrar em Medicina. Nessa altura, estava a ter imensos concertos ao mesmo tempo. (…) A minha cabeça estava uma confusão e eu estava muito ansiosa sobretudo porque coloco muita pressão nas coisas. Relativizei a ansiedade durante muitos anos. Mas mudei de ideias quando passei por isso. É por essa razão que a letra diz, "já gozei com a ansiedade, hoje goza ela comigo". Parece uma piada mas no fundo não é. E é uma canção interessante no sentido em que tem uma letra muito triste, muito pesada e muito específica, mas o ritmo é bastante alegre. Esse contraste contribuiu exatamente para o sentimento que quis transmitir. Da felicidade à tristeza e da tristeza à felicidade. (…)
Também cria um lugar de conforto e de identificação, não é? É muito importante.
Exatamente. É isso mesmo. É o mais importante, aliás. Recebi muitos comentários sobre essa canção. Mandaram-me muitas mensagens referentes a esse tema em específico. Fiquei mesmo muito contente porque não tinha a certeza se ia incluir a faixa no álbum por achar que era muito pessoal. Mas fiquei feliz por todos os comentários positivos que recebi. Deram-me muita confiança em relação ao tema. Não estava à espera desta reação e da partilha que veio de tanta gente.
Agora vamos recuar até ao lançamento do single 'Mais ou Menos Isto' (em 2021) que teve um sucesso tremendo. Como é que uma miúda tão nova na altura reage a isso?
Acho que tudo aquilo parecia uma simulação. (risos) Eu nem sabia o que era correr bem ou correr mal. Não tinha margem de comparação. Não sabia se ter um single com trezentas mil visualizações, em apenas uma semana, era muito ou pouco. Na altura, lancei a canção e fui dormir. Estava muito tranquila. Quando me levantei no dia seguinte, a canção estava a correr superbem. (…) Entretanto, passado uma semana, o Vasco Sacramento, que é o meu manager, disse-me: "olha, vais abrir o palco principal do festival Marés Vivas. Vais ser a artista mais nova a fazê-lo". Achei giro até porque nunca tinha ido ao Marés Vivas. Entretanto, quando cheguei ao recinto do festival e olhei palco só pensei: "não acredito. Isto não está a acontecer". Só me apercebi da grandiosidade da canção e do que me estava a acontecer, quando as pessoas que estavam ali começaram a cantar o tema comigo. Só nessa altura é que me caiu a ficha.
Agora vou pegar noutra canção da qual já falámos. É a ‘Manual de Instruções’, o tema que partilhas com o Pedro Abrunhosa. Há uma parte da canção em que ouvimos o Pedro Abrunhosa a falar da condição de ser artista. O que, para ti, é ser uma artista para ti?
São muitas coisas. Mas, acima de tudo, é sermos fiéis a nós próprios. A indústria e até o público - mesmo que este último o faça de uma forma involuntária - criam expectativas sobre o que temos de fazer. Quando lancei o 'Mais ou Menos Isto' deparei-me com a questão do que deveria lançar a seguir. E isto aconteceu precisamente porque as pessoas criaram expectativas baseadas nesse tema. Se não fosse fiel a mim própria, talvez tivesse lançado uma canção 2.0 do single só porque correu bem. Mas a minha verdade "disse-me" para compor uma canção diferente. Já não era a mesma Rita. Tal como cresci, as minhas canções cresceram comigo. E todo este disco foi feito comigo a ser fiel a mim própria. Sinto que faz parte da condição de ser artista. Temos de ser fiéis a nós próprios antes de sermos fiéis a qualquer outra pessoa. Sinto que este disco me ensinou muito isso. Foi até um risco não ter canções como o ‘Mais ou Menos Isto’. É diferente. É um estilo um bocadinho diferente.
Sinto que apenas segui o meu caminho e disse a minha verdade. Não fui influenciada pelas expectativas que as pessoas criaram sobre mim. (…) E depois, além de um artista ter o dever de fiel a si próprio, deve partilhar o seu processo de autodescoberta. O papel de um artista é o de partilhar. A coisa mais bonita na criação de música é a parte da partilha. É importante sentirmo-nos compreendidos. Às vezes, estamos mais inseguros e quando lançamos uma canção percebemos que temos muita gente a passar exatamente pelo mesmo. Sinto que, como coletivo, estamos, cada vez mais, a reprimir as nossas emoções. Nesse sentido, a música é uma forma de mostrar que as emoções existem e que devem partilhadas. Sinto que, principalmente na minha geração, é fixe ser frio. Ou seja, expressar emoções não é propriamente cool. E eu sinto que a música vem provar o oposto. A música vem mostrar que é fixe partilharmos as nossas emoções. Sabe bem fazer isso e é importante. Todos nós vivemos de emoções. Vivemos de amor. Não é algo que consigamos ver, mas conseguimos sentir. A partilha faz parte de ser artista.
Falas da tua geração, mas podemos falar das outras. Vivemos num mundo cada vez mais robotizado…
Completamente.
E no teu caminho artístico, quais é que têm sido as tuas grandes alegrias?
São todas. Sou muito feliz. Tudo neste percurso tem-me dado uma felicidade tremenda. Saber que vou fazer o Coliseu [do Porto] deve ter sido um dos pontos altos, sem dúvida. Chorei de alegria quando soube que ia atuar no Coliseu que vou ser a cantautora mais nova a fazê-lo. Sempre foi um dos meus maiores objetivos. E está a acontecer. Por isso, estou mesmo muito contente. (…) Todo este caminho tem sido muito feliz. Tenho tido as pessoas certas ao meu lado e sinto-me muito abraçada.
O que é que podes contar sobre o concerto que vais dar no coliseu portuense?
O meu objetivo é retratar o disco por isso vai ser dividido em duas metades. A primeira parte vai ser o "8" e a segunda parte vai ser o "80". O meu maior objetivo com este concerto é que as pessoas consigam passar por todas as emoções. Quero que seja uma montanha-russa de emoções, que as pessoas passem pela tristeza, que fiquem ansiosas, que se sintam felizes e que tirem o pezinho do chão. Também gostaria que ficassem introspetivas. (…) Quero que cheguem ao final do concerto e que pensem: "fogo, chorei, ri, saltei num espaço de uma hora e meia. Como é que isto aconteceu?". O meu maior objetivo é que as pessoas saiam do concerto a pensar: "como é que isto aconteceu tudo numa hora e meia?". Eu sei que vou estar a passar por todas essas emoções ao mesmo tempo que o público. Só espero que as pessoas gostem da experiência que quero proporcionar-lhes. É um concerto de agradecimento. Quero mostrar que estou muito agradecida e que estou com muita vontade de continuar por muitos mais anos. Espero que o público sinta isso.
