Rosalía, a arte de iluminar
A artista catalã trouxe a digressão do novo álbum à Meo Arena com uma surpresa memorável.
Esta quarta-feira, a Meo Arena transformou-se num museu para receber Rosalía com o primeiro concerto da digressão Lux em Lisboa. Na quarta visita a Portugal, a cantora catalã trouxe um espetáculo dividido em quatro atos - que, assim como o álbum, se desenrola como uma ópera e conta uma história.
A sala esgotada vestiu-se a rigor: entre o branco e o preto predominante veem-se véus postos e auréolas desenhadas no cabelo. Como um pronúncio do que vai ser o espetáculo, no palco há um quadro do avesso, com direito a agrafos, estrutura de madeira, assinatura da cantora e o nome da turnê carimbado no canto. As luzes apagam-se aos poucos para a chegada da orquestra, que inaugura o concerto.
No palco principal, a tela abre-se para dar espaço a um “museu”. Como se de uma pintura de Degas se tratasse, os dançarinos tiram Rosalía de uma caixa de madeira em pose de bailarina e vestida a rigor - com direito a tutu e sapatilhas de ponta. As cores claras dominam as roupas no primeiro ato, que, à semelhança do álbum Lux, inicia com “Sexo, violencia y llantas”. Enquanto a escadaria é destapada pelos bailarinos ao som de “Reliquia”, a dança mantém-se meticulosa. Os aplausos tomam a sala e Rosalía dirige-se ao público com o primeiro de muitos “Obrigada, Lisboa”. O espetáculo continua: a cantora é transportada como uma escultura em “Porcelana”. Véus enlaçam e desenlaçam a artista em “Divinize”. Enquanto troca parte do figurino, Rosalía volta à plateia para dizer que está muito feliz por regressar a Portugal - e os gritos que lhe respondem não enganam: não é a única. Aproveita para revisitar o passado: recorda a primeira passagem pelo país, no Theatro Circo, em Braga, com o álbum de estreia Los Angeles, quando percebeu que podia tocar fora de Espanha; a ida ao Festival Primavera Sound, no Porto, em 2019, com El Mal Querer; e o concerto em nome próprio, na Meo Arena, em 2022, com Motomami. Agradece pela oportunidade de partilhar a música em Portugal, um país cheio de beleza e rico em cultura. Para encerrar a primeira parte, Rosalía, coberta com um véu, canta “Mio Cristo Piange Diamanti”, e a plateia silencia-se para a escutar atentamente. As telas fecham-se.
Nos ecrãs vê-se um vídeo dos bastidores, com os bailarinos a cantar e a mover o microfone até serem chamados a entrar em cena para o segundo ato. A orquestra ilumina-se para abrir caminho a “Berghain”. Agora com roupas escuras, Rosalía e os bailarinos parecem recriar o quadro El Aquelarre, de Francisco Goya. Caem um a um até se erguerem para o prolongamento do single de Lux, que transforma a Meo Arena numa pista de dança com a versão remix de Conrad Taylor - o DJ alemão que é presença habitual na discoteca Berghain, em Berlim. Rosalía coloca uma peruca branca. Desta vez, dedica aos fãs de Motomami as músicas “Saoko”, “La Fama” e “La combi Versace”. Os ritmos hispânicos não podiam ficar de fora no encerramento desta parte, com “De madrugá”. Encerra-se mais um capítulo.
É o flamenco que faz a ponte com o terceiro ato, com a orquestra em destaque. Mantém-se a batida, com a percussão a misturar-se com palmas. Os instrumentos juntam-se aos poucos e soa “El Redentor”, com Rosalía vestida de branco e em evidência. À sua volta há caixas espalhadas como se de um armazém de arte se tratasse. Enquadrada numa moldura, Rosalía torna-se a “Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci, enquanto canta “Can’t Take My Eyes Off You”, de Frankie Valli, para fãs convidados a subir ao palco. Entre fotos, aproxima-se do grupo e, entre abraços, escolhe um deles. Sem deixar para trás a temática da religiosidade tão presente no último disco, Rosalía torna-se confidente de Marcelo Wang por uma noite. Num confessionário, ouve a forma como um homem o enganou e assaltou. A desilusão amorosa é o mote para “La Perla”, onde a catalã está iluminada por um foco de luz; as luvas brancas dos bailarinos formam-lhe uma saia numa referência a Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci. Volta a dirigir-se à plateia enquanto sobe a escadaria até ao piano e agradece às pessoas que vieram de várias partes do mundo - como Argentina, Espanha e Moçambique - e fizeram horas de caminho para a ver. Acompanhada por piano e dois copos de vinho, canta “Sauvignon blanc”. Os confettis chovem em “La Yugular”, com um fecho que fica ao encargo de uma entrevista de Patti Smith, à semelhança da gravação. Nos ecrãs, uma “art cam” convida fãs escolhidos pelas câmaras de vídeo a recriarem obras de arte.
Numa pausa entre as diferentes partes, Rosalía interage com os fãs enquanto se dirige ao segundo palco, onde está a orquestra, a cantar “Dios es un stalker”. Está vestida com uma coroa e uma crinolina, uma armação habitualmente colocada debaixo das saias. No centro do conjunto musical, conta que começou a carreira a cantar em restaurantes e eventos, sempre a “estudar para aprender novas canções”. Foi numa dessas aprendizagens que conheceu Carminho, que convida a juntar-se ao palco e enche de elogios (“Como esta mulher canta me parte em dois”). É a primeira vez na digressão que o dueto “Memória” é cantado - e não desaponta. Ainda no palco secundário, pergunta se Lisboa quer ir para a rumba, o estilo musical catalão. A plateia não a deixa na mão e acompanha o ritmo em “La rumba del perdón”. Agradece à orquestra que a rodeia. Pela primeira vez, é possível ver que o segundo palco, onde está a orquestra, é montado em formato de cruz e, dentro do tema “CUUUUuuuuuute”, é acompanhada por uma caixa de luz que solta fumo, como se fosse um turíbulo de igreja a libertar incenso. Rosalía abandona o palco e a maestrina torna-se protagonista ao dançar um remix de “Sweet Dreams (Are Made of This)”.
Sem deixar a festa arrefecer, inicia o quarto e último ato. Pergunta onde estão os “Bizcochito” e os fãs respondem sem hesitar. Ainda em modo de dança, “Despechá” traz almofadas à coreografia. Ao longo do concerto, a vestimenta tornou-se mais desgastada; para este final, Rosalía aparece com asas pelos braços, mas com o cabelo solto e revolto. Um espetáculo que é uma desconstrução e elevação da artista em simultâneo: tal como é dito na música “Novia robot” - exclusiva do vinil Lux e desconhecida para quem não tem este formato físico - o embelezamento deixa de ser feito em torno dos padrões do mundo para se focar no divino. A despedida começa a aproximar-se: Rosalía garante que espera voltar e está “eternamente grata a Lisboa”. As penas enchem o palco em “Focu ’ranni”: enquanto a artista e os bailarinos correm pelo palco, nos ecrãs veem-se imagens em câmara lenta - afinal, à semelhança das digressões anteriores, a grafia do concerto acompanha a história que a artista quer contar. Com aparente dificuldade, Rosalía sobe a escadaria e mergulha com as asas abertas, num encerramento perfeito da quarta parte do espetáculo.
Os aplausos da plateia chamam-na de volta e renasce para um curto encore. Apenas com uma nesga de espaço entre as duas partes da tela, Rosalía encerra o concerto com “Magnolias”, última faixa de Lux, que imagina o próprio funeral de forma serena e alegre, numa morte metafórica. Segue de costas, sem nunca parar de olhar o público, em direção à luz que surge ao fundo do palco. As cortinas fecham-se pela última vez: as luzes acendem-se e a orquestra sai de cena ao mesmo tempo que as pessoas abandonam a sala.
Entre as línguas e a reinterpretação da arte, fica uma noite memorável para quem assistiu à primeira paragem de Lux pela Meo Arena. A catalã volta a iluminar o palco da sala de espetáculos esta quinta-feira, 9 de abril. Depois, segue viagem para a terra natal, Barcelona, numa continuação da Lux Tour, que tem mais de cinquenta datas.
Neste espetáculo não foram permitidos fotojornalistas ou repórteres de imagem, à semelhança do que aconteceu nos outros países.
