S.Pedro: "quando componho consigo tirar os pés do chão"

Entrevista ao músico da Maia que esta quarta-feita atua no Teatro Maria Matos, em Lisboa, e a 26 de novembro na Casa da Música. no Porto.

S. Pedro (Pedro Pode) prepara-se para mostrar o álbum mais recente – "Tudo Ao Mesmo Tempo" – no palco do Teatro Maria Matos, em Lisboa, a 19 de novembro, e na Casa da Música, no Porto, a 26 de novembro.   

O novo álbum do antigo vocalista e guitarrista da banda doismileoito é composto por dez canções e conta com convidados especiais como David Fonseca, Carolina de Deus e Miguel Araújo. João Só e João André sentaram-se nas cadeiras da produção. 

"Tudo Ao Mesmo Tempo" - já disponível nas plataformas digitais - é o terceiro álbum da discografia a solo do músico da Maia e chega depois de "O Fim" (2017) e "Mais Um" (2019).

O novo álbum "nasceu sem plano nem pressa, tornando-se um retrato da forma como S. Pedro vive a música, em movimento, com curiosidade e liberdade", conta o comunicado de imprensa que descreve o novo registo. 


No concerto desta quarta-feira, em Lisboa, S. Pedro vai estar acompanhado por Carolina de Deus, David Fonseca e pelos doismileoito. No Porto, vai partilhar o palco com Miguel Araújo, Joana Almeirante e novamente com os doismileoito. 

Oiça a entrevista completa:

Entrevista a S.Pedro

"Tudo ao Mesmo Tempo" é um título muito curioso...  

Quem batizou o disco foi o João Só. É bom a dar nomes. Temos trabalhado juntos e temos produzido algumas canções. E sempre que acabamos [um tema] eu pergunto-lhe: "como é que se chama esta canção? E ele sugere títulos que resultam logo à primeira. No caso deste título, se não foi à primeira foi à segunda, até porque precisava de arranjar um nome "do pé para a mão". Eu, inclusivamente, tinha outro nome para o disco. Gostava do título, "S. Pedro e a estranha sensação de achar que tudo está prestes a mudar". Achava que era impossível bater este nome, mas perguntei ao João se tinha alguma sugestão. Ao que ele respondeu, "sei lá, tudo ao mesmo tempo". E eu achei que realmente era um bom título. 
 

Mas fiquei curiosa com o que escolheste primeiro. Que sentido tinha esse título para ti?

Sou músico há algum tempo. E, como músico, tenho sempre aquela sensação de que "agora é que vai ser". Seja porque temos um novo manager ou porque vamos abrir para uma banda grande ou porque vamos assinar um contrato. Digo isto do ponto de vista de um músico, mas acontece certamente noutras profissões. Temos de criar uma carapaça e ter alguma resistência para "não ir em cantigas". (...) E este disco era um pouco isso. Podia ser o álbum que fizesse com que tudo mudasse, mas também podia ser apenas a manifestação dessa tal sensação estranha de achar que está tudo prestes a mudar. Não fiz muita questão de saber qual era a interpretação do João para o título que sugeriu. À partida, deve ser muito semelhante à minha. Mas levou-me imediatamente para um determinado sítio, para uma visão minha. Fez-me sentido. Estou na fase dos quarenta. É uma altura em que acontece muita coisa. Há filhos, isto para quem tem filhos, os nossos pais estão a ficar cotas e precisam da nossa ajuda para renovar o seguro do carro. E, em simultâneo, temos de solidificar a nossa carreira profissional. Temos mesmo de dar o litro. É um período de desgaste extremo. Parece que tudo acontece ao mesmo tempo. Além disso, posso dizer que as músicas deste disco foram gravadas há algum tempo. As canções mais antigas têm cerca de três anos. Não tinha o propriamente o objetivo de gravar um álbum mas senti que estava na altura de lançar um disco. Acabei por compilar as canções que fui lançando ao longo do tempo. O álbum tem sete singles com tempo de antena radiofónico, com videoclipes e essas coisas todas. É quase um best of. Senti que, para esta compilação, as canções vieram todas ao mesmo tempo. Decidimos pôr as canções todas no álbum.    

Já vamos ao disco, mas agora fiquei um bocadinho presa a essa conversa dos quarenta. São pensamentos que te atormentam ou passam por ti ao de leve?

É combustível que consigo canalizar para as minhas canções, para as minhas composições.


É uma boa terapia. 

No meu caso é sempre terapia. A música começou como terapia e continua a ser terapia. Às vezes, saem boas canções, muitas vezes não saem boas canções. Mas não me atormenta. Nem é muito profundo. É mais um desgaste muito físico. Não ando a escarafunchar a parte psicológica. É mais do género: 'deixa-me em paz, 'agora não' ou 'hoje não posso'. É mais por aí. Após deixar os miúdos na escola vou para o estúdio e fico por lá até ao final da tarde. O estúdio é a minha man cave. É o lugar onde não sou pai de ninguém, não sou filho de ninguém, não sou nada. Estou só ali. 

Que idade tens na tua man cave

Às vezes, tenho sessenta e cinco. (risos) Vou para lá, sento-me na cadeirinha e fico apenas a olhar. Noutras vezes, volto a ter a idade que tinha quando comecei a fazer canções. Volto à altura em que percebi que se juntasse uns acordes a algumas palavras criava uma canção. Volto a essa leveza de fazer canções, embora haja uma necessidade constante de compor temas mais orelhudos, com refrões e letras mais relacionáveis. Tem sido desafiante tentar fazer esse tipo de canções com uma interpretação minha. Já constatei que se tiver uma letra em que digo que fui passear o meu cão, vai haver alguém que vai interpretar aquilo de uma forma diferente. E não adianta dizer que realmente fui apenas passear o meu cão. As pessoas vão sempre fazer uma interpretação muito própria. E ainda bem. 

Mas escreves sobretudo também para ti, não é? Como forma de terapia, como disseste há pouco. 

A prática de escrever é terapêutica. Quanto às letras, acho que, às vezes, as canções têm de servir um pouco como entretenimento. Se fosse só para mim ou para os meus amigos, não fazia sentido. 

Disse “para ti” mas referia-me ao facto de escreveres letras mais biográficas e não tanto sobre histórias de outros. O que é que te move a escrever? 
 
É sempre alguma coisa muito pessoal. Um exercício que faço muitas vezes é revisitar letras inacabadas que escrevi quando tinha vinte e tal anos. Consigo voltar a ter aquela idade e perceber porque é que escrevi o que escrevi. Consigo fazer essa viagem. A partir daí, consigo concluir a letra, mesmo que tenham passado vinte anos. Há pessoas que realmente conseguem escrever letras sobre as vidas rotinadas que levam, mas para mim isso é difícil. Ainda assim, já me meti nesses campeonatos. Já aconteceu alguém contar-me uma história que, passado algum tempo, já não sabia se me tinha acontecido a mim. Isso pode ajudar-me a escrever uma letra. Mas escrevo sempre sobre coisas muito próximas. Preciso de cantar sobre coisas que me são próximas. É muito difícil apanharem-me a cantar músicas de outras pessoas, a não ser que arranje uma boa interpretação minha para aquilo. As minhas letras têm de ser sobre algo muito meu. (…)



Por exemplo, a canção 'Marta' vai para memórias de há algum tempo, certo?

Sim, a Marta é apenas um conceito. O que era tão simples antigamente passou a ser complicado. Sinto que, às vezes, precisamos dos olhos que tínhamos na altura. Decidi chamar-lhe Marta porque é um nome fixe para cantar. Tem uma vogal aberta e tal. Acabei por optar por esse nome. 

O tempo vai mesmo passando e tu estás a celebrar dez anos de carreira. Gostas de fazer balanços? 

Não. 

Nada? Zero? Não olhas para trás? 

Zero. Não consigo. 

Mas o que é que este álbum tem do teu percurso de dez anos? 

As canções 'Ninguém' e 'Campanhã' são de uma altura em que achava que estava a mudar. Ia mudar a minha forma de compor, os timbres que uso. Na altura, produzia muito as minhas próprias canções e sentia que devia tornar as canções mais eficazes. Não era por desespero. Era apenas porque, ao longo da minha vida, ouvi muitas canções com grandes refrões. Sempre gostei muito de Beatles ou de Michael Jackson. Tudo cheio de refrões. Mas quando era eu a produzir acabava por "estragar" os refrões para tornar as canções mais alternativas ou indie. Essa era a estética com a qual me identificava na época. Com o tempo e com este álbum senti que me estava a enganar no que toca aos arranjos que fazia. Percebi que preciso de ter um refrão e que tenho de deixar o refrão ser refrão. (…) Foi o que comecei a fazer neste álbum. Este disco é o percurso que fiz sem o objetivo de gravar um disco. (…) Acho que é por isso que tem tantos singles. (…) Fui percebendo como é que podia trabalhar um single e juntei-me a pessoas que me ajudaram nessa direção. 

Que descobertas fazes quando compões? 

Quando componho consigo tirar os pés do chão. Fico mesmo noutra. Isso ajudou-me muito na minha adolescência, porque "ia" para outros sítios. E agora sempre que componho volto a viajar para esses lugares. Estou só um pouco mais esperto porque já sei que um determinado acorde vai funcionar melhor que outro. E também tenho em conta o tal lado do entretenimento. (…) Penso em como chegar a mais pessoas. Ao dizer isto até parece que estou a ceder a alguma coisa ou a comprometer a minha arte, mas acho que não. (...)

Neste disco tens convidados como Miguel Araújo, David Fonseca e Carolina de Deus. O que é que cada um deu ao disco? 

Já conheço o Miguel Araújo há uns anos, desde a altura dos doismileoito. Ele gostava muito da banda e estávamos juntos muitas vezes. No final do ano passado convidei-o para atuar comigo. (…) Mostrei-lhe uma ideia para uma música e desafiei-o para a fazermos juntos. Ele ouviu, gostou, escreveu a letra em trinta segundos e gravámos. Agora já tenho uma boa justificação para ter o Miguel Araújo a cantar comigo na Casa da Música. Será a primeira vez que vamos cantar essa canção juntos. Aliás, isso vai acontecer com todos os meus convidados. Com o David Fonseca foi uma coisa do mesmo género. Admiro-o imenso e, como estamos na mesma agência, pedi ao nosso manager para lhe mostrar algumas músicas, já que gostaria que ele participasse no meu concerto em Lisboa. Ele ouviu e gostou. A Carolina de Deus foi quem desbloqueou isto tudo. Eu sempre trabalhei sozinho, mas desde que estou na agência Primeira Linha isso mudou. Eles gostam que haja interação entre todos os artistas da agência. Ao início, era algo que me fazia alguma confusão, mas, depois de lá estar e com o passar do tempo, comecei a achar o máximo. É como uma família. 

É uma experiência comunitária também... 

Isso. A malta ajuda-se realmente. Os artistas potenciam o trabalho uns dos outros. (…) E daí acabam por sair canções e boas colaborações. (…) A colaboração com a Carolina foi perfeita. Ela ajudou-me a perder o medo de colaborar com outros músicos. Antes estava mais isolado no estúdio, a fazer as minhas coisas. Era eu que produzia, tocava. E de repente colaboro com esta gente toda. É fixe. 

E João Só na produção...

Sim. 

Como foi tê-lo na produção? 

Já conheço o João Só há coisa de dezoito, vinte anos. Foi engraçado. Acabei com ele a canção que canto com a Carolina de Deus e sinto que foi como fechar um ciclo. Ele também gostava muito dos doilmileoito. E ainda gosta, espero eu. (risos) E na altura, sempre que vínhamos tocar a Lisboa, estávamos com ele. Estivemos algum tempo mais afastados, mas agora voltámos a estar juntos, a trabalhar juntos. Está a ser uma espécie de closure. Está a ser muito fixe. É muito fácil trabalhar com ele. A dinâmica flui muito bem. Ele potencia as ideias que qualquer pessoa tenha para uma canção. Potencia as ideias sem o ego à mistura. Faz com que a canção chegue a mais pessoas, com que chegue às rádios. E isso é uma maravilha. 

E agora vais levar esta malta toda para os concertos? Como é que vão ser os espetáculos? 

O concerto no Teatro Maria Matos vai ser com o David Fonseca, com a Carolina de Deus, com o João Só e com os doismileoito. Eu e o João Só vamos tocar uma música que gravei há pouco tempo. Uma canção inédita a duas vozes. Mostrei-lhe a canção, ele gostou e vamos com essa. Com o David vou cantar a 'Futuro', a canção que partilhamos no disco, e com a Carolina vou cantar a 'Dava a Volta Ao Mundo'. Com os doilmieoito vamos cantar as canções que fizeram sentido na altura. (...)



E quem é que vai estar contigo no Porto? 

O Miguel Araújo e a Joana Almirante para quem fiz uma canção há algum tempo, a 'Por Meu Pé'. Vamos tocar a versão da música que lhe mostrei inicialmente, uma vez que ela adaptou essa canção realidade dela. Ficou muito fixe a adaptação que ela fez. Mas vou desafiá-la a tocarmos a versão que lhe enviei pelo WhatsApp. Vamos ver se aceita. E vão também os doismileoito. 

Como é que te sentes com os concertos? 

Sabes quando a pálpebra treme bocadinho? Há uma semana que ando assim. Acho que é do stress. Ando stressado há semanas. São as programações, a luz, o timecode, os auriculares. Não é só chegar lá, ligar a guitarra à ficha e tocar. Acho que temos ensaiado tudo, menos a música. (risos) Temos ensaiado por que lado entram os convidados, que luz é que vamos ter. Pode correr mesmo muito bem. Muito mal não vai correr, mas pode correr mesmo muito bem. Estou stressado, mas estou com pica. Sei que estão a vender bilhetes, pelo menos para Lisboa. Vou ver malta que não vejo há muitos anos. A Casa da Música é um palco especialíssimo para mim. A minha mulher trabalha lá desde que abriu. Vi muitos concertos naquela sala. Acho que é o meu palco de sonho. Finalmente vou conseguir tocar lá.