Saiu há 30 anos o álbum de estreia dos Manic Street Preachers
"Generation Terrorists" iniciou um dos percursos mais excitantes do rock dos últimos 30 anos.
Os Manic Street Preachers desejaram a glória e tiveram-na logo ao álbum de estreia, o seminal "Generation Terrorists", que saiu há 30 anos, no dia 10 de fevereiro de 1992.
Os quatro membros dos Manic Street Preachers - o vocalista e guitarrista solista James Dean Bradfield, o primo da bateria Sean Moore, o baixista Nicky Wire e o guitarrista-ritmo Richey Edwards - conheceram-se na infância, em Blackwood, numa pequena cidade do sul do País de Gales muito marcada pelas greves dos mineiros.
Com uma atitude bem enérgica, os Manics derrubaram o estigma da marginalização dos galeses e conquistaram o resto das Ilhas Britânicas.
Começaram como uma guerrilha rock, compatibilizando nas mesmas canções o punk dos Clash com o hard-rock dos Guns N' Roses - duas das suas maiores influências. O glam-rock e a iconografia marxista-leninista eram também exaltados pela banda como a sua identidade.
Essa imagem glamorousa de adereços femininos era adoptada por dois dos membros: Nicky Wire e Richey Edwards. Eram eles os letristas do grupo. James Dean Bradfield e o baterista Sean Moore tratavam da música.
É de forma épica que a banda inaugura a sua discografia de álbuns com o disco bem longo "Generation Terrorists". A balada 'Little Baby Nothing', um dueto entre James Dean Bradfield e a antiga actriz pornográfica Traci Lords, e o tema 'Motorcycle Emptiness' são dois dos temas mais fortes deste álbum de 1992.
Depois de um segundo álbum mais acessível, como é "Gold Against the Soul", os Manic Street Preachers conseguem retomar no álbum seguinte uma energia aguerrida e uma certa raiva.
Esse álbum mais agreste é “Holy Bible”, talvez a obra mais sombria dos Manics, mais virado para o pós-punk, de bandas como os Wire.
A carga política é também recuperada, com referências ao holocausto, ao politicamente correcto, mas também à perigosa glorificação dos assassinos em série.
O guitarrista Richey Edwards assume a prevalência nas letras, embora nos trabalhos de estúdio se comportasse de forma mais alienada, afundado na bebida e na depressão. Richey Edwards chegou a ter que falhar alguns concertos dos Manic Street Preachers em 1994, quando esteve em programas de tratamento.
Nessa altura, a banda tocava com fardas militares. É o que acontece também no vídeo de 'Revol', um dos temas mais apelativos do álbum de 1994, "The Holy Bible".
Quando alguns dos membros dos Manic Street Preachers se preparavam para viajar para os Estados Unidos e dar entrevistas promocionais, Richey Edwards sai do hotel em Inglaterra, pega no carro e desaparece. Desde Fevereiro de 1995, o músico nunca mais foi visto.
A partir da dor do desaparecimento de Richey Edwards, o baixista Nicky Wire escreveu um longo poema que seria a base para a canção 'A Design for Life'. A música foi um mote para a banda continuar.
Com o desaparecimento de Richey Edwards, o sucesso dos Manics cresce de forma significativa, com o quarto álbum “Everything Must Go”.
É a partir do disco seguinte "This Is My Truth Tell Me Yours" que o baixista Nicky Wire passa a assumir todas as letras. Este álbum de 1998 é uma lindíssima obra introspectiva. É a partir deste álbum mais melancólico e maduro que a vida musical sem Richey Edwards realmente começa.
Os Manic Street Preachers não têm pudores estéticos e por isso têm uma margem musical larga. Tanto ligam The Clash com Guns N' Roses, como no álbum de estreia, "Generation Terrorists", ou ABBA com Joy Division, como se pode ouvir no maravilhoso e injustiçado disco de 2004, "Lifeblood".
Neste disco, “Lifeblood”, a banda volta a virar-se para a introspeção, tal como tão bem fizera no álbum “This Is My Truth Tell Me Yours”, mas com um muito maior recurso aos sintetizadores.
A voz de James Dean Bradflied está mais radiante que nunca, num disco subtil e de beleza poética.
Há um fantasma que os Manic Street Preachers insistem em trazer para palco: o guitarrista desaparecido Richey Edwards. Fisicamente, os Manic Street Preachers são um trio. Espiritualmente, serão sempre um quarteto. Há sempre um momento nos seus concertos em que Richey Edwards é lembrado. O espaço à direita do vocalista James Dean Bradfield continua vazio, à espera do seu segundo guitarrista.
Em 2009, 14 depois de Richey de ter desaparecido, o grupo recupera 13 dos seus últimos escritos para as 13 faixas do aguerrido álbum "Journal for Plague Lovers".
Nesta colecção explosiva de grandes baladas e de rock inflamado, é o baterista Sean Moore que, no mínimo, merece tantos créditos em "Journal for Plague Lovers" quanto os restantes membros. Moore consegue desdobrar-se pelos bombos como se fosse um homem-polvo com oito membros; não oito tentáculos, mas quatro braços e quatro pernas herculeamente disponíveis para bombar batidas com as baquetas e os pedais.
Para o décimo álbum "Postcards from a Young Man", os três bons galeses recrutaram um lote luxuoso de convidados. Tim Roth figura na capa a preto-e-branco, de tronco nu, a tirar um foto de uma máquina Polaroid; Ian McCulloch (dos Echo & The Bunnymen) empresta o perfume da sua voz de fumador a 'Some Kind of Nothingness'; o ex-Guns N' Roses Duff McKagan mostra os seus dotes no baixo durante 'A Billion Balconies Facing the Sun'; e o compatriota lendário John Cale marca a sua presença nos teclados de 'Auto-Intoxication'.
Os convidados pouco ou nada interferem no andamento de "Postcards from a Young Man", mas o simbolismo da presença do ídolo Duff McKagan patrocina aquele que é o disco que mais se aproxima da obra de estreia, "Generation Terrorists", na altura uma ponte inédita entre o hard-rock radiofónico à Guns N' Roses e a militância punk à Clash. Só que os 18 anos de diferença entre 1992 e 2010 acrescentam dados diferentes como uma maior serenidade e uma menor sofreguidão revolucionária.
Naquela que é a maior auscultação à sua popularidade no século XXI, os Manic Street Preachers assumiram o desejo de canções orelhudas. Coros gloriosos com tons de gospel, arranjos sinfónicos, bons refrães e coesão colectiva no empurrão de cada canção para a vitória final fazem a vontade às intenções de banda. '(It's Not War) Just the End of Love' é digno de um primeiro single; 'Hazelton Avenue' (com guitarrada glam), 'Auto-Intoxification' (com a fúria antiga), 'Golden Platitudes' (a grande balada do disco) e 'The Future Has Been Here 4 Ever' (com Nicky Wire ao comando) são outros bons postais.
Com uma garra e uma ingenuidade de miúdos intactas, os Manic Street Preachers mostraram em "Postcards from a Young Man" como o rock mainstream devia ser.
