Sam The Kid: "quis que 'É Tuga ou Nada' tivesse uma energia de gladiadores"
Músico lisboeta compôs e produziu o tema solicitado pela Federação Portuguesa de Futebol.
Na apresentação do tema oficial à seleção masculina de futebol para o Mundial de 2006, ‘É Tuga ou Nada’, entrevistámos o seu compositor principal Sam The Kid.
O músico de Chelas assumiu a composição, produção e arranjos do tema. Ele pretendeu dar-lhe uma garra especial, que se sente nos picos emocionais do tema. “Era muito importante sentir aquela energia, uma coisa mesmo quase épica, de gladiadores, como fosses entrar para um ringue, ou neste caso, para um campo de futebol e vais com aquela motivação. Esse foi o meu ponto de partida a nível musical e depois os artistas deram-nos um mote, uma música de motivação e também até com o próprio slogan da federação, que é o ‘Vai Dar Portugal’, também é mencionado uma vez pelo Sir Scratch. São coisas que tivemos em consideração para tentar fazer o melhor hino possível. Mas é sem dúvida uma música com muita energia".
Sam The Kid sente-se como o capitão de equipa de ‘É Tuga ou Nada’. “Realmente, às vezes o produtor é isso, é a pessoa que escolhe e que tem uma opinião final. A decisão dele é a decisão que tem que ser respeitada; embora, neste caso os jogadores ou os artistas também obviamente têm direito a opinar e é muito bem-vindo. E também têm que estar confortáveis”.
O histórico músico de hip hop não é só o capitão do tema, ele é o selecionador nacional, o homem que escolhe os seus rappers: Bispo, Gson, Papillon e Sir Scratch. “Por acaso, podia haver mais uma outra opção, mas em relação ao Papillon, ao Sir Scratch e ao Bispo, como eu sei que eles são mesmo pessoas que sabem mesmo de futebol, e [estão] dentro dos ritmos, também estão familiarizados, e depois, na parte da melodia, eu estava indeciso até entre o Gson e o Plutónio, sabendo que o Plutónio também é uma pessoa que está ligada ao desporto também. Mas como o Gson está muito perto de minha casa, o estúdio dele também, foi assim: “olha, Gson, estás aí?". E até haveria espaço até para mais um, porque o Gson tanto faz o refrão como também rima. Podia ser o Gson a rimar e depois o refrão, ainda haver mais um outro elemento diferente. Mas ficaram estes quatro e acho que fiz uma boa escolha”.
Sam The Kid não quis assumir as letras, nem o microfone, preferindo legar na sua equipa. “Por acaso, eu disse logo [na altura do convite pela Federação Portuguesa de Futebol]: ‘Eh pá, é algo que eu não me sinto em casa’. Tanto em relação aos deadlines que existem, embora lá está, cada um é só duas rimas; também não é nada demais. E eu iria ter tendência a caír em clichés que às vezes não me sinto muito confortável. 'Vai ser campeão, então é a nação', epá, aquelas rimas. ‘Vai à final, É Portugal" e não sei quê. Apesar de na música termos aquelas coisas também, aquele cântico, "Portugal, Portugal", que é um refrão também da música, que eu acho que é essencial para as pessoas que não estão tão familiarizadas com o rap, para agarrarem ali algo um pouco mais simples".
O músico quis fazer um tema assumidamente de hip hop, sem cedências estéticas e sem ter que o diluir em vários géneros. “Ao ouvir ideias passadas que às vezes representam um país, muitas vezes cai-se num erro que é um pouco forçado de juntar muitos géneros musicais e muitas culturas. Às vezes não soa muito honesto e parece que é uma tentativa de agradar a gregos e troianos. Mais vale sermos honestos connosco e estarmos no nosso campeonato, na nossa zona de conforto e fazer uma música que nos agrada a nós e que vai agradar a algumas pessoas. Mas não estamos a tentar agradar a toda a gente. De certeza que há pessoas que não vão gostar e estão no seu direito, obviamente”.
Sam The Kid tenta não dar muita importância ao seu pioneirismo de um tema de hip hop de apoio à seleção nacional: “Não gosto de pensar: ‘ah, os primeiros’ ou ‘os melhores’, mas sem dúvida que pode abrir portas para futuros músicos que tenham o mesmo convite que eu. E mais do que o género musical, um dos meus objetivos principais é que a próxima pessoa que seja convidada para fazer o que eu fiz, que se lembre qual foi a última música que existiu. Eu tive dificuldade, sem desrespeito a quem foi a última pessoa”.
O produtor e músico lisboeta adoraria sentir o balneário da Seleção Portuguesa a motivar-se com a sua música. “Esse é o meu desejo. Os jogadores são jovens, ouvem rap e eu fiz a música, e nós todos, para eles também gostarem, principalmente. Eu acho que eles vão gostar”.
