Sara Correia: Chelas desceu ao Tejo e as cores dos prédios também

Festa de fados na MEO Arena, com octeto de cordas e vários convidados.

Sara Correia foi uma tempestade benigna no concerto de duas horas na MEO Arena, um vendaval de lágrimas e uma ventania vocal que arrastou todo o seu bairro de Chelas e toda a sua vida para o Parque das Nações. “Tempestade” é o nome do seu último álbum e tempestade foi aquilo que foi. Pintalgou a MEO Arena com as cores dos prédios de Chelas, com festa e muita mistura cultural, sem nunca deixar de ser fadista.

Sara Correia surge à hora certa, às 21h30, como uma sombra gigante da sua silhueta, por trás de uma cortina branca muito vertical, a cantar ‘Avisem Que Eu Cheguei’, um dos temas de “Tempestade” escolhidos para single. Diogo Clemente está a dedilhar a guitarra elétrica, Ângelo Freire toca a guitarra portuguesa de pé. Frederico Gato no baixo acústico e Joel Silva na bateria completam o quarteto instrumental nuclear. Sentado, está o octeto vocal, a cortejar os fados de Sara Correia para o salão nobre. 

No tema ‘Eu Venho’, Sara Correia evidencia a sua poderosa voz e a ousadia do seu vestido preto, meio capa negra, meio fato com um chumaço gigante, e com uma abertura a expôr o top. A fadista faz o seu primeiro discurso, falando deste dia como muito especial e realça o que é vir do bairro de Chelas e chegar à maior sala do país. Em ‘Porquê Do Fado’, ferve na sua voz uma mistura de fado com canto cigano, aveludado pelo octeto de cordas. No tema ‘Marias da Terra’, Sara Correia mantém-se compenetrada na sua missão maior, num fado palaciano cortejado pela cordas mas com um toque de folclore na bateria. É o povo a entrar nos paços. 

Carolina Deslandes, municiadora de várias letras do álbum “Tempestade”, sobe ao palco para um dueto com Sara Correia, antes de Deslandes fazer um enorme elogio à fadista, que lhe presta um agradecimento sentido por lhe ter dado “as melhores canções” que já interpretou. Chelas volta à paisagem musical no biográfico ‘Fado Sara, escrito por outra mulher do bairro, Aldina Duarte, num fado mais puro, que se despurifica na hibridez que brota no corpo instrumental numeroso deste espetáculo. ‘Fado Sara’ torna-se numa das canções mais aplaudidas da noite. Já no tema seguinte, ‘Sou a Casa’, de Joaquim Campos, Sara Correia não despurifica esta fado tradicional. O octeto de cordas baixa os seus arcos, o baterista repousa as suas baquetas. Só o trio instrumental clássico do fado - guitarra portuguesa, guitarra clássica e baixo acústico - se levanta.

Muda-se um pouco o cenário em ‘As Mãos do Meu Carinho’, com o piano de cauda a ocupar o centro do palco, sob os comandos de Mila Dores, transformando o intimismo de Sara Correia numa coisa diferente. O dueto virtual de Sara Correia com a figura de Maria da Nazaré no fado ‘Tu Não Me Digas’, antecede um instrumental mais pop e ligeiro, com Ângelo Freire e Diogo Clemente em pequenos palcos nas extremidades laterais da arena. 

A seguir, um dos momentos mais imponentes, em ‘Balada de Outono’, em que Zeca Afonso é homenageado na voz poderosa de Sara Correia, numa interpretação que comoveu profundamente toda a sala, como uma tempestade benigna, de lágrimas “em rios que vão dar ao mar”. A interpretação de Sara Correia ocorre num pequeno palco lateral, junto às bancadas dos balcões, a poucos metros dos seus avós, que estavam visivelmente emocionados na plateia sentada.

A troca muito fraternal de elogios e abraços entre Sara Correia e o seu braço-direito Diogo Clemente incluiu a jura “o dia em que parares de tocar, eu paro de cantar”, a que só faltou tirar um pouco de sangue. Passaram muita coisa juntos, incluindo a operação delicada às cordas vocais que obrigou Sara Correia a parar durante vários meses, há cerca de um ano. Por isso, Sara Correia fez questão de agradecer à médica que a operou, que estava na sala, e ao professor de canto que a ajudou a recuperar. Depois, Sara Correia recita os poemas de Florbela Espanca e de Sophia de Mello Breyner, cantando-os, em ‘Ódio’ e ‘Nevoeiro’ respetivamente. Em ‘Era O Adeus’, o fado enobrecido pelas cordas é traído pelo mau som da sala, numa repercussão de ecos dessincronizados. ‘Dizer Não’ é um transamericano, que vai do fausto do tango aos ritmos caribenhos. O dueto com Pedro Abrunhosa em ‘Que O Amor Te Salve Nesta Noite Escura’ é especialmente ovacionado, com o cantor portuense a cantar ao piano, enquanto a voz de Sara Correia volta a elevar-se vertiginosamente para outro pico montanhoso. 

‘Chelas’ é um fado orgulhoso do seu bairro, enquanto se projetam imagens dos prédios coloridos que Sara Correia canta. O público agarra esta canção como se fosse também de Chelas - e provavelmente muitos são. “Sou de Chelas”, canta orgulhosamente Sara Correia para a câmara de filmar. A seguir, ‘Respirar’ convoca a palco os são-tomenses Calema e faz levantar o público para um pé de dança. No tema ‘Quero É Viver’ a guitarra portuguesa a tentar infiltrar-se na música de um dos maiores admiradores de fado, Antonio Variações, numa composição engavetada que os Humanos gravaram há mais de 20 anos.

Muito emocionada, Sara Correia declara este como “o dia mais especial da minha vida”. E acrescenta triunfalmente: “a miúda de Chelas cantou na MEO Arena”. Depois de ter dado vivas a Portugal, e de ter cantado alguns dos grandes da música do nosso país como Zeca Afonso e António Variações, faltava ainda Amália, que Sara Correia homenageia cantando ‘Estranha Forma de Vida’. Um silêncio sepulcral do tamanho de Amália se sente nos segundos antes de Sara começar a cantar este clássico do fado. E fá-lo de olhos bem fechados, de volta ao corpo tradicional do fado de três instrumentistas.

O ecrã projeta a imagem de um cartaz de fado à antiga, com os créditos de todos os participantes do espetáculo. Tudo acaba outra vez no bairro onde tudo começou, ‘Chelas’ em bis, todos somos de Chelas, porque assim cantamos, com a miúda do bairro, hoje tão crescida, Sara Correia. 

Duas horas se passaram, mas aquela era a vida toda da Sara.