Sara Correia: "sinto que renasci depois da minha operação"

Novo álbum "Tempestade" sai nesta sexta-feira. As letras das 11 músicas do disco são todas escritas por mulheres.

"Cada dia que anoitece será outro amanhecer", canta Sara Correia no tema ‘Fado Sara’. É um pouco o que aconteceu à fadista de Chelas, que da convalescença da sua operação às cordas vocais projetou na mente e sobretudo na alma um disco com letras só de mulheres. O título do álbum “Tempestade” não é só feminino no género gramatical, é-o na grandeza do espírito. Não o chamem de espírito oscilante, chamem-no de grandioso, porque a sensibilidade da mulher é um universo que tudo capta – e que por vezes escapa à compreensão da humanidade masculina.

As mulheres são a “terra firme” do álbum “Tempestade”, tal como é a "mãe" no tal ‘Fado Sara’, escrito por Aldina Duarte – um assomo tempestivo de puro fado. Um homem decisivo também aparece, o produtor Diogo Clemente, que no baixo cria o manto instrumental ao lado de Ângelo Freire na guitarra portuguesa e de Joel Silva na bateria. Valter Rolo e Lino Guerreiro assumem os arranjos orquestrais.  

Se as folhas de pautas e a instrumentação estão por conta dos camaradas masculinos, as folhas brancas e de linhas têm a pena de mulheres como Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carolina Deslandes, Márcia, Mila Dores, A Garota Não, Mafalda Arnauth, Beatriz Pessoa e a vizinha de bairro Aldina Duarte. 

O quarto álbum de Sara Correia já não se ouve só no seu quarto, todo o mundo já o pode ouvir a partir de hoje, sexta-feira. No dia 7 de março, Sara Correia atua na MEO Arena, em Lisboa. É um espetáculo já com lotação esgotada. A entrevista decorreu esta manhã, com o disco acabadinho de sair.

Qual foi o clique que te levou a querer fazer um álbum todo escrito por mulheres?
É uma boa pergunta, porque é comprida a resposta. Este disco começou a ser feito no ano passado. Na altura em que eu era para entrar em estúdio, eu fui operada e, durante a pausa que tive de três meses, deu muito tempo a mim e ao Diogo para pensarmos o que é que nós queríamos fazer. Na verdade, aquilo que me aconteceu foi uma grande ajuda, porque sinto que renasci depois da minha operação e quis também mostrar ao público esta força interior que a mulher tem de se reerguer sempre. Foi a partir deste momento que eu decidi que queria falar sobre a força. Eu disse: "só podem ser mulheres neste álbum a falar sobre o que é que é ter esta força interior". Foi este o início de tudo. Eu já tinha dois temas muito especiais, um da Beatriz Pessoa e outro da Carolina Deslandes. E eu pensei: "porque não continuar este segmento?" Porque faz-me todo o sentido. E este álbum é muito sobre todas as forças que me envolvem, desde ultrapassar um grande amor, ou ultrapassar uma grande dor. Eu quis falar sobre isso e quis que fossem mulheres a relatar esses sentimentos. 

Sara Correia

Sentes-te como uma atriz que se entrega a um papel e interpreta essa letra, ou pões aqui muita da tua personalidade?
Se não sentir que a letra me faz sentido, eu nunca vou gravar. Para mim, não faz sentido. Às vezes, eu até deixei temas de fora para outros discos, quem sabe. Mas todos os temas que estão aqui foram escolhidos a dedo, porque eu sabia o que é que eu queria dizer. Acho que isso para um artista é essencial, porque se eu não conseguir cantar a minha verdade, eu também não vou passar a verdade para o público. Eu acho que não existe uma personagem. Existem realmente forças de mulheres em que eu vou buscar também a força delas para o meu canto. E isso para mim é que faz sentido. 

Foi um desafio para ti adaptares-te a letras de tantas pessoas diferentes?
Não, foi incrível o processo. Eu não sabia como é que eu ia voltar a cantar e poder gravar estas mulheres, exemplos de mulheres de força. Para mim foi, foi maravilhoso. São todas muito diferentes, mas todas no fundo dizemos a mesma coisa. Portanto, para mim foi incrível gravá-las e estou tão feliz com este disco que só Deus sabe. A ansiedade que eu estou a viver neste momento, porque é talvez o disco onde eu me descubro que, por baixo desta tempestade que às vezes eu sou, há uma calmaria e há um silêncio que me ajuda a equilibrar estas emoções todas que eu tenho cá dentro. E a prova disso foi o ano passado e, portanto, para mim é um orgulho poder cantá-las e cantarei até que a voz me doa. Eu digo esta frase muitas vezes porque é verdade. Eu não me vejo sem cantar a força. 

Sara Correia

Daí a tempestade do título. É uma palavra muito feminina, não é? 
Sim. Nós já tínhamos decidido que [o título] era “Tempestade” antes de alguma coisa acontecer. É como se fosse uma adivinhação, quase um destino. Sei que isto pode parecer um bocado clichê, mas é a realidade. Tanto que eu lancei o [tema] ‘Avisem Que Eu Cheguei’ o ano passado, que fala das tempestades terem nome de mulher e de repente vejo-me com um álbum feito com mulheres e tempestades. Sinto sempre que é um hino ao que aconteceu e que possa ser um farol de luz para quem está a passar por uma fase dificílima depois do que aconteceu no nosso país.

Tu às vezes tens registos bastante diferentes, como é o caso do ‘Marinheiro’, escrito pela Márcia. Estamos a falar também de uma calmaria, depois de uma tempestade. 
Sim. Este disco para mim não tem género. É uma fadista a cantar coisas com que ela se identifica. Mas este disco é realmente à volta muito disto, de o mar às vezes também estar calmo. Não é sempre aquela força toda. E eu revejo-me muito nisso e sinto muito que sou isso na minha vida. Acho que já estou madura como o mar. Por mais que eu tenha esta força toda e às vezes leve tudo à frente, eu tenho uma parte em mim que eu descobri, muito importante, que me ajuda a equilibrar essa força e este disco é realmente o meu melhor cartão de visita que eu já tive sobre mim. 

Sara Correia

Por trás de uma grande mulher ou de grandes mulheres, há um grande homem. O Diogo Clemente é esse grande homem?
Sim, eu acabei de dizer isso há bocado porque é mesmo verdade. O Diogo está comigo desde o primeiro momento, foi a primeira pessoa a acreditar em mim, mais do que eu própria, quando as pessoas não acreditavam porque eu era vista como a miúda de Chelas e porque ainda tinha muito bairro dentro de mim. Ele viu qualquer coisa em mim e foi sempre o meu grande pilar. É um irmão que a vida me deu, que me deixa sempre emocionada, porque nós andamos muito na estrada, fazemos muitos concertos, vivemos intensamente e fazer estes discos com ele tem sido um caminho maravilhoso. Ele é o grande pintor dos meus álbuns todos. Sem dúvida que se não fosse este grande homem, este disco seria uma tempestadezinha e não uma tempestade, porque ele ajuda-me imenso a encontrar-me a mulher que eu sou e a artista que eu sou. E eu tenho desenvolvido muito com ele e eu agradeço-lhe do fundo do meu coração tudo até ao fim da minha vida. 

Qual é a sensação de esgotares a MEO Arena? 
Ui, sinto tanta coisa, mas acima de tudo eu sinto-me mais humilde que nunca e vou-te dizer porquê. Tenho acordado todos os dias a pensar nisto, que é donde eu vim, do meu bairro em Chelas, que nunca pensei um dia isto me acontecer e para onde eu estou a ir. E, portanto, tem sido brutal. Eu tenho chorado, tenho rido, tenho me emocionado, mas estou muito grata e muito feliz e com uma adrenalina que só Deus sabe.  Estou muito feliz, ainda para mais saber que a MEO Arena esgotou deixa-me mesmo muito feliz, porque eu canto para o meu público, não canto para mim e isso quer dizer que a minha música, de certa forma, chega às pessoas e isso deixa-me mais feliz que nunca. 

O que é que podemos esperar deste concerto? Vai ser um concerto especial, claro. 
Sim, vai ser tudo diferente. Nada do que foi feito, que eu tenha feito até aqui, vai ser igual. É tudo diferente. Há uma coisa que continua igual, que é a intensidade do concerto. Isso é difícil não acontecer. E eu vou, na verdade, cantar o meu álbum novo, mas também vou cantar todos os os meus êxitos e alguns fados que tenho vindo a cantar desde pequena. Vão ter que esperar para ver porque não queria contar muito mais. 

Sara Correia

Tu falas de Chelas com grande orgulho. 
Sim, muito. Muito. 

É um bairro que nos tem dado grandes músicos, além de ti. 
É verdade, o Sam the Kid. 

E a Aldina Duarte, também. 
E a Aldina, é verdade. E que escreve também para este meu álbum novo, que se chama ‘Fado Sara’. E é por acaso um tema muito interessante para mim, porque para mim retrata a Sara miúda, mas a Sara já adulta. Tem o presente e tem o passado e eu adoro cantar este tema. É muito fadista.

Sentes que estás em Chelas quando cantas esse tema? 
Sim, muito, muito. E é muito importante, porque independentemente de eu estar a virar a página para outro sentido, continua aqui a miúda de Chelas e vai continuar sempre. E vou levar sempre Chelas para todo o lado.