"Se ele tem ciúmes, é porque gosta de ti": mitos românticos alimentam violência no namoro entre jovens portugueses
Um estudo da Universidade Católica concluiu que estes mitos tendem a legitimar a violência no namoro. Investigação alerta para aceitação de ideias que normalizam o controlo e a violência.
Se ele tem "ciúmes, é porque gosta de ti" ou "o amor verdadeiro supera tudo", são frases comuns em filmes, músicas, ou até em conversas do dia a dia.
São no entanto expressões que podem parecer inofensivas, mas muitas vezes escondem ideias perigosas de controlo e violência.
O mais recente estudo Escala de Mitos do Amor Romântico (EMAR), desenvolvido por diferentes investigadores da Ramon Llull University em Barcelona (Espanha), em conjunto com a investigadora e professora Susana Costa-Ramalho, da Faculdade de Ciências Humanas (FCH) da Universidade Católica Portuguesa, vem alertar para níveis elevados de aceitação de ideias que normalizam o ciúme, o controlo e até a violência em nome do “amor verdadeiro”.
"Estes mitos reforçam uma visão desequilibrada do amor, onde o sofrimento é romantizado e o abuso é tolerado. Precisamos urgentemente de educar os jovens para relações saudáveis, baseadas no respeito, na verdade, no entendimento e na cumplicidade, nunca na desigualdade.” explica Susana Costa-Ramalho.
Dos principais resultados do estudo, destaca-se que 58% dos jovens portugueses acreditam que o “amor verdadeiro supera tudo - mesmo os insultos e o desrespeito.”
50% consideram que amar é fazer tudo pela outra pessoa, mesmo à custa de si próprios e 42% concordam que existe uma “alma gémea” predestinada.
Os homens acreditam que há espaço na relação para a violência, já que para eles é "aceitável perdoar insultos e violência (ou agressividade) se houver amor” e consideram que "é preciso ter um(a) parceiro(a) para ser feliz”.
Estes dados vêm reforçar a ligação entre os mitos do amor romântico e a legitimação da violência nas relações íntimas, sobretudo entre jovens.
Segundo o Estudo Nacional ARTEMIS (UMAR, 2024), 64% dos rapazes justificam comportamentos de controlo numa relação (vs. 46.8% das raparigas), 44% validam a violência psicológica, 41% a violência sexual e 14% normalizam a violência física no namoro.
A investigação, publicada na revista internacional Social Sciences e conduzida por investigadores da FCH da Universidade Católica Portuguesa e da Ramon Llull University (Espanha), adaptou e validou a Escala de Mitos do Amor Romântico para o contexto português, com uma amostra de jovens dos 18 aos 30 anos.
A escala permite identificar crenças como:
- Omnipotência do amor
- Ciúmes como prova de afeto
- Amor que perdoa violência
- Necessidade de ter um parceiro para se ser feliz
A análise confirmou que estes mitos não só persistem entre os jovens, como se associam a estereótipos de género e à aceitação da violência.
