"Se uma mulher faz este burburinho, o que seria se três escrevessem um livro?"

Patrícia Reis, jornalista e biografa de Maria Teresa Horta, revisita a publicação do livro 'Novas Cartas Portuguesas' e o julgamento das Três Marias.

Em 1971, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa sentaram-se à mesa para escrever um livro.

"Pois que toda a literatura é uma longa carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos.
E já foi dito que não interessa tanto o objecto, apenas pretexto, mas antes a paixão;  e eu acrescento que não interessa tanto a paixão, apenas pretexto, mas antes o seu exercício." 

É assim que começa o livro as 'Novas Cartas Portuguesas'. Patrícia Reis, jornalista e biografa de Maria Teresa Horta, conhece de perto a história destas mulheres. Escrever a biografia “A Desobediente”, deu-lhe a perspetiva de quem viveu o processo na primeira pessoa. 

Quem são as três Marias?
São três mulheres incríveis, não é? Três mulheres incríveis que antes do 25 de Abril escrevem este livro que é um marco na literatura portuguesa do século XX e é um marco também no movimento feminista chamado ‘As Novas Cartas Portuguesas’. 

Como surge o livro ‘As Novas Cartas Portuguesas’? 
Depois de Maria Teresa Horta ter publicado um livro chamado ‘Minha Senhora de Mim’ que fez com que ela tivesse levado - não há outra maneira de dizer - um enxerto de pancada na rua por dois homens que lhe disseram: “Isto é para tu aprenderes a não escrever como escreves”. A Teresa foi para o hospital e ficou bastante machucada. 

Nessa semana tinha um almoço com a Maria Isabel Barreno e a Maria Velho da Costa, era um almoço regular. A Maria Velho da Costa foi ter com a Maria Teresa ao jornal e percebeu o estado em que ela estava e disse: “Bom, caramba, se uma mulher faz este burburinho todo, o que seria se três mulheres escrevessem um livro?” E foram muito animadas as duas de ir com a Maria Isabel Barreno ao restaurante com esta ideia de vamos escrever a seis mãos. Acontece que a Maria Isabel Barreno tinha acabado de começar um romance e disse: “Vocês são umas chatas, eu não me apetece nada fazer isto”. E pronto, a ideia ficou ali. 

Na semana seguinte, quando chegaram ao almoço, a Maria Isabel Barreno tinha a primeira carta. É a única carta cuja autoria é reconhecida, porque elas fizeram um pacto de não dizer quem tinha escrito o quê. E começaram então esta enorme aventura literária, que foi de uma importância extrema para a Maria Teresa Horta. Eu sei porque fiz a biografia dela e porque conheço mais de uma forma mais séria a história dela começaram. 

Esta aventura literária que durou nove meses… Ao fim de nove meses, falaram com três editores. Dois deles disseram “Nós não temos condições para publicar este livro porque vai ser censurado e vai ser retirado do mercado imediatamente”. A Natália Correia disse: “Não, mas eu quero”. E depois foi toda uma aventura para pôr o livro cá fora, e claro que o livro foi censurado, e claro que elas foram processadas e iriam presas caso não tivesse existido esta coisa maravilhosa chamada ao 25 de Abril.

Antes de irmos a todo esse processo complexo, "As Novas Cartas Portuguesas" passam por vários temas, muitos dos quais ainda estão muito presentes hoje em dia.

É uma leitura muito atual, não é de todo uma leitura datada. Nós estamos em fevereiro, mês em que estamos a gravar esta conversa para o Dia da Mulher, e já morreram cinco mulheres às mãos dos homens, às mãos dos maridos, dos companheiros, dos ex-companheiros, em Portugal. E fala-se muito sobre isso nas novas cartas portuguesas, que é um livro da década de 1970. 

Portanto, em 50 anos mudámos muito, fizemos um grande caminho, trilhámos um caminho duro, conquistámos muitas coisas, mas ainda há muito por conquistar. E uma das coisas que é preciso realmente conquistar é perceber que este flagelo da violência doméstica contra as mulheres é real, é transversal a todas as classes sociais. Não é específico de uma ou específico da outra, é transversal. A verdade é que continua a existir. Como continua a existir a violência contra as crianças e podemos perguntar-nos, 50 anos depois do 25 de Abril, que políticas públicas é que nós temos de prevenção? Na minha opinião poucas, ou mesmo nenhuma.

Depois de As Três Marias lançarem o livro, que é imediatamente apreendido pela censura, há todo um processo judicial que se desenrola. Queriam encontrar uma culpada, apontaram para Maria Teresa Horta...

Era a Maria Teresa Horta, sim. Há uma história muito curiosa… Quando elas vão à Polícia Judiciária a primeira vez, acompanhadas pelos advogados, são colocadas na sala onde aguardam também conversas com inspetores um conjunto de prostitutas… Uma delas pergunta “Nós somos prostitutas, e as senhoras estão cá porquê?” E elas respondem “Nós escrevemos um livro.” E aquela decisão de as colocarem ali também era uma humilhação extra, na verdade.

É verdade que o inspetor Parente, que é quem as interroga, tenta fazer com que a Maria Isabel Barreno e a Maria Velho da Costa atribuam à Teresa a autoria da maioria das cartas. A Maria Teresa Horta tinha um ódio de estimação na PIDE, no regime, que era o Moreira Batista, e o Moreira Batista fazia tudo para minar a carreira da Teresa. Tinha um ódio de morte, nunca ninguém conseguiu perceber porquê, entretanto o senhor morreu, também não tive a ocasião de lhe perguntar. Mas ele, quando faz a censura da ‘Minha Senhora de Mim’, diz à Snu Abecassis, que é a editora da Teresa nas publicações Don Quixote: “Não publica mais nenhum livro desta senhora. Mesmo que seja a história da carochinha, eu vou censurar”.

Portanto, a Teresa era relativamente fácil. Se a Teresa tivesse assumido que a maioria das cartas que atingia o regime de Marcelo Caetano tinham sido da sua autoria, provavelmente isto teria tido outros contornos. Mas elas mantiveram ali uma frente muito forte e depois tiveram uma sorte enorme. Conseguiram passar alguns livros para fora do país através de um amigo da Maria Isabel Barreno e as Novas Cartas Portuguesas chegaram às mãos de Simone de Beauvoir e de um conjunto de mulheres francesas, que começaram a traduzir as Novas Cartas Portuguesas com o apoio de mulheres brasileiras. É extraordinário… Ninguém estava à espera daquilo, muito menos o regime de Marcelo Caetano. É o mote para o primeiro congresso feminista nos Estados Unidos, são as três Marias, isso é incrível e ter aqui essa ideia que é são as três Marias. Isso é incrível.

Ao falar-se lá fora, acabava por ser quase impensável que certas coisas fossem feitas cá dentro. Os olhos estavam postos nestas três autoras que tiveram coragem para enfrentar um regime através de uma obra literária. 

Elas estavam mesmo convencidas de que iam presas. O que é ainda mais corajoso. Estamos a falar de três mulheres, com três filhos pequenos, que tinham perfeita noção de que não havia forma. O Marcelo Caetano mandou uma advogada falar com a Maria Teresa no sentido de dizer que, se elas pedissem desculpa, isto iria tudo por água abaixo, o processo.

A Maria Teresa foi falar com as outras duas e de facto chegaram as três à conclusão de que não há nada para pedir desculpa, “Nós fizemos este livro, é um livro”. Portanto, eu acho que Marcelo Caetano não estava à espera que o impacto internacional fosse tão grande, e também não estava à espera que a imprensa internacional viesse para Lisboa acompanhar o julgamento como fez. Claro que a imprensa portuguesa estava proibida de publicar uma linha sobre o assunto, mas a imprensa estrangeira... Um bocadinho mais difícil, não é?

Acabou por contribuir para a mudança dos tempos que se viviam na altura?

Sim, pelo menos eu acho que isto é uma espécie de episódio prévio à Revolução. Isto é mais um sinal de que o regime está a cair, de que isto é insustentável, de que não é possível. Eu acho que elas tinham essa noção também. 

Muito embora é engraçado, porque quando falei com a Maria Teresa Horta e com a Maria Velho da Costa quando ela ainda estava viva, a verdade é que elas fizeram isto como uma aventura literária, um exercício criativo entre as três sobre a exposição da condição feminina e da condição do país. Aquilo que as preocupava que não era só a violência sobre as mulheres, era também a Guerra no Ultramar, por exemplo, porque as novas cartas também falam sobre isso. Eu acho que elas o fizeram criativamente. 

Havia um sentido político, mas era um sentido político que estava numa segunda linha, não estava numa primeira linha. A primeira linha era uma linha literária. Isso é importante também de dizer, porque não é um gesto político de vamos escrever este livro para ser uma afronta ao regime. Eu acho que esse exercício não foi feito assim, de uma maneira tão óbvia, digamos.

Para quem lê o livro, a ficção presente é muito daquilo que se passava, há um caráter muito social que não é necessariamente contestatário.

Exatamente. É uma radiografia, e isso é extraordinário. 

O livro é um conjunto de várias coisas de poesia, de diário, de história, de cartas, é uma mescla. Até aí é um livro profundamente inovador. Um livro escrito a seis mãos nunca é uma tarefa fácil, imaginamos, e de facto foram nove meses maravilhosos para conseguir fazer esta obra e depois todo o processo atribulado de imprimir o livro, que foi dificílimo. Havia um informador dentro da tipografia que achava que elas estavam a escrever coisas que não deviam e ia fazer queixa delas. Depois a Natália Correia dizia: “Não, não, elas já mudaram tudo.” E imprimia à noite com outro tipógrafo para ver se a coisa funcionava. Tanto que a Natália Correia, quando vai ao julgamento, diz “a culpa é minha” e o juiz responde “pode ser que a culpa seja sua, mas quem escreveu o livro foram estas três senhoras”. Estas três senhoras que Marcelo Caetano acusou na televisão de não serem sequer portuguesas de uma forma humilhante.

Depois do 25 de Abril este livro foi reconhecido?

Depois desta situação acontecer, há aqui uma tentativa de arranjar mais do que a razão literária e mais do que aquele livro ser censurável, ao olharmos para a imprensa daquela altura. Aquelas pessoas tinham todo um contexto, havia ali uma tentativa de criar uma narrativa... Há sempre uma tentativa de menorização do trabalho de uma mulher, isso é uma fatalidade ainda hoje, 50 anos depois do 25 de Abril. É mais fácil acusar uma mulher de ser doidivanas, galdérias, demasiado sexualizada, por aí fora… Isso é um facto. 

Estas mulheres não tinham medo das palavras, e como não tinham medo das palavras… Portugal, ainda agora, não gosta muito de mulheres que sejam assertivas e não tenham medo das palavras. Nós gostamos de coisas mais comezinhas e quietinhas e sossegadinhas. Estas três mulheres não eram assim, claramente. Pelo menos uma delas era um furacão. As outras eu também acredito que sim, embora sejam três personagens completamente diferentes. 

A Maria Teresa Horta, é muitas vezes acusada de ser a poetisa do erotismo. Eu acho que isto é um rótulo que a confina e que é demasiado limitativo, ela é muito mais do que isso. Mas a verdade é que as mulheres até à Teresa “existiam até à cintura, não tinham corpo inteiro”, como diz a Isabel do Carmo com muita graça. A partir da poesia da Teresa “passam a ter corpo inteiro”. E isso a sociedade levava a mal, porque uma coisa é os homens louvarem os seios das mulheres e outra coisa é uma mulher dizer que reivindica o mesmo prazer sexual que um homem e que entende o prazer do sexo como um homem.

Para essa liberdade a sociedade não estava pronta, mas é preciso vermos uma coisa: depois do 25 de Abril, em maio de 1974, há uma espécie de sondagem no Expresso e mais de 75% das pessoas inquiridas acreditavam que as mulheres deviam chegar ao casamento virgens, pós-25 de Abril. Portanto, mudou muita coisa, mas a mudança não foi radical, a mudança foi uma conquista. Foi tudo muito conquistado e foi tudo muito difícil. Na entrevista que o Fialho Gouveia lhes faz, já depois de elas serem ilibadas, obviamente, diz que o livro é chato. Diz, em plena televisão nacional, que o livro é chato, coisa que muito as perturbou. Pensar, “mas este rapaz está-nos a dizer que isto é chato, porquê? Porquê que isto é chato? Porque a leitura é difícil, porque vai contra o sistema, porque aponta o dedo aos homens”. 

É preciso também dizer uma coisa que eu acho que é muito importante, que é, claramente a Maria Teresa Horta e a Maria Isabel Barreno perceberam que o caminho do feminismo não lhes ia granjear grandes prémios, grandes homenagens e uma grande carreira literária. Portanto foram paulatinamente afastadas disso, como outras pessoas. A verdade é que a Maria Isabel e a Maria Teresa são feministas e são prejudicadas por isso, porém é preciso ainda agora dizer isto: o feminismo delas, e o meu, e porventura o teu, não é contra os homens. O feminismo só se cumpre, só se fará, e só se conseguirá alcançar mais caminho e fazer mais caminho se tivermos os homens ao nosso lado. Portanto, o feminismo não é da condição das mulheres, o feminismo é da condição do ser humano. O feminismo reivindica apenas e somente as mesmas garantias, as mesmas liberdades, os mesmos direitos e os mesmos deveres. É só isto.

O feminismo não é contra os homens e não é queimar sutiãs. Eu não sei como é que é com a maioria dos nossos leitores, mas a mim dá-me muito jeito ter um sutiã. Anatomicamente dá-me jeito. Eu não sou menos feminista por causa disso.

Há uma trajetória que separa as três Marias depois do 25 de Abril… Mas a autoria de cada uma das cartas nunca foi revelada.

Há professores de literatura que reconhecem a escrita de uma e a escrita da outra. Eu acho que elas mergulharam na escrita das três e embrulharam a escrita das três.  Há uma coisa que eu posso garantir, e isto é mesmo assim: a maioria das cartas é da Maria Teresa Horta. Pela simples razão de que a determinada altura, a Maria Isabel Barreno e a Maria Velho da Costa desencantaram-se do projeto e a Maria Teresa teve muita dificuldade em largá-lo. E, portanto, foi ela quem escreveu mais. Há aí uma teoria que diz que a maioria das cartas são da Maria Velho da Costa. Não são claramente da Maria Velho da Costa. E é muito fácil perceber que não são, por várias razões. 

Mas, enfim, não vamos entrar por aí. Se elas não quiseram de facto dizer, eu acho que esse pacto tem de ser respeitado de alguma forma. Se, até ao fim, nenhuma delas disse “eu escrevi isto, escrevi aquilo, mas não escrevi isto, e a outra é que escreveu aquilo”… Quem somos nós para, agora, pôr em causa essa autoria e esse mergulho literário das três na escrita das três?

Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio ou nas plataformas de podcast.